Hoje eu vi um carro em chamas

Hoje eu vi um carro em chamas.

Você pode tentar adivinhar o que isso vai me fazer pensar hoje, para matar um pouco a morbidade dessa leitura. O meu dia está bem assim também, mórbido, então… Vamos fazer isso juntos.

O diário do entorpecido n002. São Paulo. Noite.

Estávamos voltando de um casal de amigos. Ela, eu e mais outro casal que ela conheceu no trabalho.
Eu estava ouvindo Jack Broadbent no som do carro, para ao mesmo tempo evitar qualquer conversa e não deixar um silêncio constrangedor. Já estava tarde e eu só queria voltar pra minha habitual Netflix.
De longe vimos uma Fiorino, em meio a um cruzamento, em chamas.

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Um texto sobre apatia resultada de estar em um lugar que você não quer. Poderia ser isso, facilmente.
Aposto que você se identificaria logo de cara. Todo mundo odeia isso, e é uma das partes mais básicas de viver em qualquer tipo de relação. Até seu melhor amigo já fez você ir em algum lugar em que não queria. Enfim, não é isso.


De pronto pensei que fosse alguma isca para assaltar os motoristas que parassem. Mas logo vi a expressão de desespero do dono da Fiorino, uma Fiorino bem velha por sinal.
Ele tentava apagar o fogo com as próprias mãos. Caralho, com as próprias mãos! Tamanho era o desespero do cara em não deixar que o fogo se alastrasse mais.


Criminalidade? O portão da nossa casa é a nossa defesa ou o nosso cárcere? Onde esse mundo vai parar? Não, não quero falar sobre isso.


Tentei lembrar rápido se ainda tinha o extintor de incêndio. Então saímos do carro, o amigo dela e eu pra ajudar o cara a apagar o fogo.
Só nós dois tentamos ajudá-lo. As pessoas reduziam a velocidade e olhavam, até esboçavam uma reação, daquela lenta, sabe? Para ver quem vai primeiro, e ninguém foi. Ninguém sabia como ajudar.


Altruísmo. Por que tanta indiferença com uma pessoa como nós, passando por uma situação foda assim? Quantas pessoas passaram por ali e não deram a mínima? Assunto super atual, moralismo e empatia. Ok, super válido. Não.


Mais tarde, já voltando pra casa, não conseguia parar de pensar no desespero do cara. Ele mal nos olhava, ele mal pedia ajuda. Só existiam ele e o seu carro. E as suas mãos.
Mano, que instinto! Sei lá, era o ganha pão do cara. E o carro, com certeza, não tinha seguro, porque devia estar nos seus quase 20 anos de uso. O fogo no painel deve ter ocorrido devido a gambiarras mal feitas.
O cara não tinha grana. E agora ele está mais fodido que nunca.


Pra falar a verdade eu não queria falar sobre nada hoje, a relação foi introspectiva demais. E eu peço desculpas por isso, já que me comprometo a fornecer uma dose diária de psicodelia reflexiva. Eu gostaria de falar sobre tudo isso, e sobre como eu estava triste e anestesiado naquele carro. Sobre como tudo deu errado naquela noite, mesmo antes de ver o carro em chamas.
Juro que queria, mas hoje não. O que eu tenho pra hoje é essa garrafa de cerveja ao meu lado, esse filme melancólico no Netflix, e a breve e superficial satisfação de ver que mesmo esse porta-retratos na minha mão estando vazio, minhas mãos queimadas mostram que ao menos eu lutei por isso. Como pude.

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Admiradores da cultura pop, mas não necessariamente nerds.
Amantes de Clube da ****, mas não necessariamente desequilibrados.
Na busca incessante por algo que não necessariamente iremos encontrar.

Mattheus Magalhães e Sidney de Oliveira

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Admiradores da cultura pop, mas não necessariamente nerds. Amantes de Clube da ****, mas não necessariamente desequilibrados. Na busca incessante por algo que não necessariamente iremos encontrar. Mattheus Magalhães e Sidney de Oliveira

  • Juliana

    Eu gostei muito do texto. A descrição do carro incendiado é perfeita. A mensagem de falta de altruísmo é um tema a refletir….”Quantas pessoas passaram ali e nem deram conta”…O que acontece diariamente.Infelizmente.Valeu.