3ª Carta

3ª Carta – dia 12 de agosto de 1969

 

Dona Dinda,

Ontem foi Dia do Estudante. Fizeram alguma comemoração aí no hospício? Distribuíram lápis de cor e giz de cera pros internos? Talvez canetas e folhas de almaço… A senhora também escreve cartas imaginárias pra mim? A medicação permite que se lembre de meu rosto, mãe?

Aqui no quartel, os oficiais prepararam uma surpresa pros universitários. Às dez horas da manhã, nos levaram até o pátio e mandaram que tirássemos nossas roupas. Nus, fomos obrigados a trocar abraços e beijos na boca. Veja só o engano. Até mesmo quando pretendem usar de crueldade, os homens da farda se revelam uns alienados incompetentes.

Quatro colegas da UFC também estavam lá. Sei que é um pensamento terrível, egoísta, mas me senti bem por não estar só. Abracei o Clodô como se fosse o dia de seu aniversário. Foi um abraço afetuoso, fraterno, lindo. Também encostei minha testa à do Tadeu e olhei fundo em seus olhos. Dentro deles, enxerguei uma saída, a possibilidade de sobreviver ao que passamos todos os dias aqui. O Luquinha, do curso de Letras, chorou em meus braços e me pediu desculpas inúmeras vezes. Acho que não era comigo que ele falava, mas com seus pais. Não sei. Quando, finalmente, tive a chance de me aproximar do Paulo Rabeca, quase gritei de contentamento. Meu irmão, meu caperom de Ananindeua, meu melhor amigo, ali, vivo, renovando minha esperança quase pulverizada. Trocamos um demorado beijo na boca, cheio de paixão, enquanto nossos sexos se tocavam de maneira libertária, em uma intimidade incapaz de embaraçar verdadeiros correligionários. Os militares riram, nos chamaram de bichas, de viados bolcheviques. Mas apenas nos separaram depois que subverteram e retiveram em suas deformadas memórias nosso belo encontro.

Após a confraternização que deveria nos constranger — e que nos trouxe algum alento —, fomos postos lado a lado, diante de um grupo de cinco militares. O tenente responsável pela formatura inusitada nos chamou de escória, de traidores, de vândalos, de comunistas imorais. Disse que só não estávamos todos mortos porque tínhamos um líder magnânimo comandando a Nação, um guerreiro santo. Mas que, apesar da benevolência do Costa e Silva, que pretende abolir o AI-5 com uma emenda constitucional, a classe estudantil não está protegida da justiça dos quartéis de infantaria. Citou a morte do Edson Luís como exemplo e nos disse que o tempo transformaria a Passeata dos Cem Mil em uma marcha de cadáveres. Canalha! Canalhas!

O sol já começava a nos aborrecer quando o comando da operação foi passado pro sargento Carcará. Com a desenvoltura de um grande mestre de cerimônias, ele nos disse que teríamos um almoço alusivo ao feriado, mas que um de nós não participaria do banquete servido em sinal de boa-fé. Ordenou, então, que nossos próprios companheiros escolhessem entre um dos baitolas que haviam se beijado por mais tempo do que o ordenado. Sem saber ainda o que me aconteceria, fui apontado pela maioria dos detidos. Não os odeie, mãe. Eles não queriam me fazer mal. Eu sei.

Uma grande mesa foi preparada diante das portas do rancho. Delas, alguns soldados surgiram, carregando panelas fumegantes. O cheiro de galinha cozida me acertou como um soco no estômago. Enciumado, observei meus companheiros de tragédia se sentarem desconfiados à mesa, servidos com uma fartura desproporcional à quantidade de convidados.

Amarrado a uma cadeira, fui posto em frente da mesa, organizada de modo que nenhum dos outros estudantes pudesse me dar as costas. Queriam que eles assistissem, enquanto comiam, o que estava pra me acontecer.

Perguntaram sobre o DCE, sobre o Partido e sobre o Araguaia. Puxaram meus cabelos, cuspiram em minha cara e me obrigaram a olhar diretamente pro sol. Em algum outro lugar, fazia um dia bonito, mãe. Repeti insistentemente que não conhecia ninguém, que não sabia de nada. Daí, o Carcará encostou a boca em meu ouvido e disse que me provaria que meus comparsas não mereciam proteção, que eram todos uns covardes.

Com um grito, o sargento atraiu a atenção de sua faminta plateia. Como quem anuncia as regras de um jogo de domingo, Carcará fez a seguinte proposta a meus amigos: Eu seria torturado pelo tempo que levassem pra terminar de comer tudo o que haviam trazido. Mãe, era comida demais, até mesmo pra 12 homens famintos.

Dada a largada da bizarra competição, começou o meu martírio.

O primeiro golpe com a coronha de um fuzil fez com que os incisivos voassem de minha boca. Eu não estou mais bonito, mãe. Lembra quando eu perdi meus dentes de leite e a senhora brincava que eu parecia um vampirinho? Pois bem. Ontem, os vampiros foram eles. Enquanto me sufocavam e pisavam em meu genital, me lembrei do dia em que fiquei banguela. Era véspera de natal e eu tinha chegado da escola com um cartão que a professora havia nos ajudado a confeccionar. A mãe ficou tão feliz, tão feliz, que juntou suas economias pra que pudéssemos passar o Ano-Novo com a tia Lucimar, no Rio de Janeiro. Lá, fomos ao jardim Zoológico, na Quinta da Boa Vista, e a senhora ficou frustrada porque detestei ver os animais enjaulados. Ainda tentou me animar, dizendo que ali estariam protegidos, que não sobreviveriam nem sequer um dia caso fossem devolvidos a seus habitats naturais. Hoje nós dois sabemos, mãe, que talvez os bichos preferissem correr o risco de viver na selva do que morrer em segurança atrás das grades.

Olha, eu fui uma criança triste, mas a culpa não foi sua. Eu não me sentia diferente por não ter pai, mas meus colegas do primário não perdoaram tal falta. Diziam coisas horríveis sobre a senhora, inventavam amantes, falavam que minha mãe tirava do meio das pernas o dinheiro que nos sustentava. Mesmo que isso fosse verdade, eu não me importaria. Ainda assim, eu sentia uma vontade enorme de surrá-los, de arrancar com minhas unhas os sorrisos de suas caras. Nunca tive coragem de atacar meus agressores, ao menos até o dia em que criei consciência de que nosso povo se tornou refém, de que nossa liberdade foi sequestrada por um governo ilegítimo.

Ontem, antes de desmaiar — não sei se por causa das pancadas, ou do calor, ou de ambos — vi o Paulo Rabeca gritando e agitando feito louco uma panela vazia sobre a cabeça. Acordei apenas no ambulatório, onde ganhei um Baton Garoto do cabo enfermeiro que havia cuidado de mim. Não pude saborear o chocolate, pois o rapaz pediu que eu o comesse ligeiro. Acho que o engoli de uma vez. Ele me falou que alguns amigos meus passaram por ali e, de lá, haviam sido levados ao Instituto Doutor José Frota. Um deles tinha arrebentado a parede do estômago. Tenho certeza de que foi o Rabeca. Não estou feliz por isso, mas me sinto imensamente grato por seu sacrifício.

Mãe, acho que estou com febre. Minha pele parece que vai rasgar a qualquer instante. Meu rosto arde e não consigo parar de tremer. Acredite, estou sinceramente arrependido de todas as vezes em que fiz uma cena pra não tomar seus remédios caseiros. Eu só bebia aquele horrível lambedor de romã com banha de galinha porque o tratamento desagradável sempre era seguido de seus cafunés homeopáticos.

Queria suas unhas malfeitas correndo meus cabelos. Queria seu hálito soprando os pelos finos de minha nuca. Queria sua voz, só mais uma vez, me dizendo que eu vou sarar logo. Que, dentro de poucos dias, poderei brincar lá fora com as outras crianças.

De seu menino torto,

Cazé

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

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Emerson Braga

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

  • Lara Forte

    Eu não tenho estrutura.
    Choro sempre, fico acabada.

    • Emerson Braga

      Lara, bom dia! Seu choro me angustia, menina, pois não sei se isso é bom ou ruim. Mas, não se preocupe. A mente humana é uma máquina maravilhosa, capaz de transcender o terror. Cazé também nos brindará com momentos de pura poesia, pois um coração revolucionário não se deixa abater tão facilmente.

      Encontrar você por aqui é como receber um empurrão e escutar uma voz que diz: “Corre lá e escreve a próxima!” Rs! Abração!

      • Lara Forte

        É pra escrever mesmo! Atualmente é a minha coluna favorita daqui.
        O choro é bom e é ruim. É bom pq tu tem o talento de comover, é ruim pq eu volto a sentir a tristeza do mundo e a impotência de ser só mais um. (O contexto muda, mas ainda existem cazés)
        Te agradeço por dividir conosco esses textos maravilhosos. Fico esperando a próxima

        • Emerson Braga

          Pode deixar! Valeu!

  • Juliana

    Gostei da terceira carta.Muito bem discorridas e com fatos até difíceis de ser imaginados.Agora eu fiquei pensando , lá no hospício…como estaria a mãe.Sugestão : Emerson poderia criar também o cenário da mãe no hospício.Vou gostar de ler.Parabéns.

    • Emerson Braga

      Olá, Juliana, bom dia. Primeiramente, obrigado pela leitura. Relutei muito antes de decidir pela publicação da coluna, mas o retorno de vocês está sendo muito gratificante e estimulante.

      Quanto à sua sugestão, paciência, jovem Padawan. Rs! Você lembra do Sargento Galego, citado nas duas primeiras cartas? Pois bem. Em textos futuros, ele trará supostas informações sobre a mãe de Cazé e sua vida no Asilo dos Alienados. Aguarde!