Conselhos para um jovem escritor

Era fim de sexta feira quando uma aluna veio me procurar. Trazia um caderno velho e uma pergunta:

— O que faço para ser escritora?

Sorri, mas não com condescendência. Com carinho. Com saudade. Um sorriso sem cinismos, como há muito não acontecia.

— Quantos anos você tem? – perguntei.

— E isso importa?

— A curto prazo não – falei. — A longo prazo, pode fazer diferença.

— Não gosto destas coisas, fica parecendo que gente jovem não sabe fazer nada – disse ela, os cantos da boca virados para baixo, os olhos esbugalhados.

— Vocês sabem, mas quase nunca fazem certo. Enfim, eu digo que você deve ter quinze ou dezesseis.

— Dezesseis – resmungou.

— Muito bem. Comece por aí.

— Hein?

Eu ri.

— Pelas paixões, menina. Pelos conflitos com os pais. Sobre aquela música, ou aquele filme. Sobre a rebeldia contra a escola, os professores, o governo. Sobre a apatia das tardes de domingo, sobre a vontade de fazer tudo o que quer, sobre o medo de estar sozinha e não ser aceita, sobre o que tem de errado com o corpo e o cabelo…

— Não generalize! Nem toda menina é assim!

— Eu estou falando de mim na sua idade – respondi. — Não seja boba, o mundo não gira em torno de você.

Ela engoliu em seco.

— Desculpe – falou.

— Tudo bem. Não esquenta.

Ela colocou o caderno em cima da mesa. Uma oferenda.

— Sobre isso que você falou… eu já escrevo.

Apanhei o caderno.

— Posso ler?

Ela fez que sim, o rosto vermelho.

Folheei-o com carinho. Desenhos e pinturas nas bordas, de várias cores. A letra redonda e miúda variava entre o extremo cuidado, a preguiça e a raiva. Havia páginas em branco e pedaços de folha presos no arame.

Li uns cinco poemas e dois contos. Ela era boa, mas precisava de muito treino.

— Você é boa, mas precisa de muito treino.

— E como eu faço isso?

— Leia muito. Cinco a oito livros por mês.

— Leio dois…

— Aumente. Leia os clássicos. Machado, Rosa, Alencar, Lispector, Meirelles…

— Mas esses livros são chatos!

— Porque você foi forçada a lê-los. Mas estude-os, encaixe-os em seus contextos. Amarre-se aos personagens. Seja eles. Aprofunde-se. Por que deseja ler, não por te forçarem.

— Por onde eu começo?

— “Dom Casmurro”. Seja Capitu, ame Bentinho. E odeie-o depois.

Ela fez uma careta.

— Não é spoiler – falei. — Não muito.

Ela sorriu.

— Agora tô curiosa.

— De nada – falei, e ela sorriu. — Segundo ponto: leia Neil Gaiman.

— Por quê?

— Ele sabe. É um mago moderno. Leia “Sandman”, “Deuses Americanos”, os “Filhos de Anansi”. Mas comece com O “Oceano No Fim do Caminho”.

— Eu leio John Green – disse.

— Ninguém é perfeito. Continue lendo esse cara aí, mas diversifique. Saia de sua zona de conforto.

Devolvi-lhe o caderno.

— Eu li tuas coisas – falou. — Teu site.

— E…?

— Com essas dicas aí eu consigo escrever como você?

Ri, desta vez com gosto.

— Nunca!

— Por que não? – perguntou, mostrando os dentes.

— Porque você é única, criança. E eu também. Mas imitar o estilo de alguém, no começo, pode ser benéfico. Uma caligrafia para a alma. Só tome o cuidado de se desprender disso depois. O estilo aparece quando você para de se preocupar com ele, e só escreve.

Comecei a arrumar minha mochila.

— Não sei se ajudei muito – falei. — Não sou lá essas coisas como escritor. Nem publicado eu consegui ser ainda… mas se eu pudesse te dar um conselho, um que me teria sido muito útil quando eu tinha a tua idade, eu te repetiria as palavras do Gaiman.

— Que são…?

— “Escreva. Termine as coisas. Continue escrevendo.”

Ela sorriu. Apanhou o caderno e deu a volta na mesa.

— Posso te dar um abraço?

— É exatamente esse o preço da consultoria – falei. — Não sei como adivinhou.

Havia gratidão naquele abraço. Tão pouco que eu dei, tanto que ganhei.

Seus olhos estavam úmidos quando a soltei.

— Posso te mostrar minhas coisas, vez em quando?

— Vai ser um prazer – respondi.

— Ser escritora… vai ser difícil?

— Ô se vai – falei. — Mas, como disse Dumbledore, há o caminho fácil e há o certo.

— Harry Potter também? – perguntou ela.

— Harry Potter com certeza. E Stephen King.

Ela pegou o caderno e saiu. Parecia maior, mais confiante. Parecia linda, uma autora que eu certamente leria.

— Lia!

— Oi? – disse ela, virando para mim.

— Você já é escritora.

 

 

Terminei de arrumar minhas coisas e, assim que cheguei em casa, comecei a escrever isto.

Seja lá o que fiz por ela, fez com que eu me sentisse bem. Vi-me, pela primeira vez, com o poder real de ajudar alguém a sair das sombras dos arquivos escondidos. Fiz, sozinho, o que o Escambau fez – e faz! – por mim e por muitos outros escritores Brasil afora.

No princípio era o verbo. Depois, nós, o Escambau.

Feliz dia, escritores. Para todos nós.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Juliana

    Fiquei emocionada.Parabéns para todos os escritores do Escambau , com seu universo literário diversificado , e amante da escrita.

  • Robisom Lima

    …olhos rasos aqui! Sensacional!
    Parabéns, e obrigado!

  • Bianca Berdine

    Ótimos conselhos 😀

  • Nathália Pimentel

    Lindo, lindo! Belos conselhos! Feliz dia, escritores!

  • Karolyna Gutierres

    “— Por onde eu começo?

    — “Dom Casmurro”. Seja Capitu, ame Bentinho. E odeie-o depois.”

    parece até um retrovisor da minha história de amor com as palavras.