Ferrada

Sempre lembro de coisas desimportantes.

Quase nunca recordo do primeiro momento em que conheci alguém, o nome das pessoas nunca salta de primeira em minha mente, o período de descoberta não fixa em minha memória. É como se minha alma percebesse o primeiro contato como algo provavelmente descartável, assim como o primeiro passo que dei quando bebê, a primeira palavra consciente que saiu da minha boca, a primeira frase que consegui decodificar no papel, meu primeiro roxo no joelho. Nada disso se mantém ancorado, apenas se perdeu no lugar onde os sonhos que não lembramos vão.

Mas os detalhes… ah, os detalhes. Eles queimam no couro da minha memória, ferrados com precisão mediana, mas se aprofundando até a camada mais viva de carne dentro do meu peito. E dói. E não some.

Lembro de quando houve uma sessão de fotos na escola quando eu tinha uns 7 anos. Era um tema campestre, com vestidos longos, coroas de flores e objetos rústicos. Não lembro o motivo, mas ainda tenho a fotografia guardada. Uma das melhores fotos que já tiraram de mim e não faço ideia do porquê daquela clique, mas lembro muito bem de ter ficado com vergonha de trocar de roupa no meio da quadra, com tanta gente presente. “Mas não tem ninguém olhando, querida. Eu fico na sua frente”. Lembro de ter me escondido atrás de um batente do lado oposto da arquibancada, abaixando a cabeça e botando as mãozinhas no peito completamente liso e sem sinal algum de puberdade. Eu tinha certeza de que as pessoas haviam visto minha calcinha.

Ainda hoje eu olho para a foto e sinto um misto de satisfação por ter sido uma foto tão boa e uma certa onda de vergonha. Sempre volto para detrás do batente, com as pernas tremendo e o choro embolado na garganta.

Coisas boas também queimaram em mim.

Lembro até hoje que a melhor coisa que comia quase todas as tardes era aquele salgadinho da Xuxa. Sentava numa cadeira de plástico para assistir desenho com o pacote pousado em minhas pernas. Com uma mão segurava um salgadinho, mordia o topo e deixava o resto aberto, como se fosse uma mini concha. A outra mão levava o vidro de ketchup e recheava a massa fina e frágil. Aquilo tinha gosto de felicidade.

Ainda hoje eu procuro aquele salgadinho nos supermercados na esperança de, por um descuido do espaço-tempo, encontrar aquele pacote colorido me esperando. Nunca mais comi coisa alguma que tivesse um sabor tão de infância quanto aquilo.

Coisas bonitas, porém melancólicas, também ferraram-me.

Lembro de quando alguém que amei me disse no meio de uma tarde: “Dizem que quando você passa cerca de 5 minutos olhando fixamente em silêncio para os olhos de uma pessoa, os dois criam uma conexão muito forte”. Era verdade. Olhamo-nos por muito tempo, não lembro o quanto porque essa experiência superou qualquer barreira consciente de delimitações temporais e individuais. Eu senti desconforto, depois uma vontade enorme de chorar. Senti ele dentro da minha alma sem enxergar nada, tateando no escuro. Tentei fazer o mesmo. Eu não via nada, mas toquei algo. O momento se quebrou com sua risada, mas aquilo foi um marco não só em nosso laço, mas também no modo como eu me sinto alguém.

Ainda hoje eu lembro daquele momento e tento encontrar uma experiência minimamente parecida de nudez. Aquilo tinha a textura de alma e acho improvável que me aconteça de novo. Ainda sinto vontade de chorar.

Coisas confusas também ferem minha carne. Na verdade, são os ferros mais quentes e impiedosos contra meu couro.

Lembro de quando me deram um nó. Sempre tive desalinhos em minha vida, mas certa vez uma pessoa fez verdadeira cama-de-gato com minhas linhas tão bem desorganizadas. Não lembro da primeira conversa, nem mesmo de quando ele começou a me atar numa teia de desorientação. Eu sabia para onde estava indo, mas ele parecia perdido. Acabou esbarrando seu emaranhado impossível em minhas guias, deixou-me perdida e saiu correndo depois de, involuntariamente, dar milhares de nós. Ele já tinha enlinhado muita coisa pequena, mas o ferro quente só veio naquela estranha noite na qual nos perdemos em labirintos sem saída. “Sabe que isso foi só uma desculpa pra gente passar um tempo junto, né?”. Minha pele chiou com o som mais rápido e esquisito que lembro. Foi um grito calado rapidamente por mais uma desculpa das tantas outras que mascaravam tudo.

Ainda hoje lembro daquela frase e do passar nervoso de mãos no volante. Procuro achar a ponta de todos os outros nós feitos antes e depois disso, mas continuo sem encontrar. Esse emaranhado é sufocante e, depois do abanar de mãos, solitário.

“O diabo mora nos detalhes”, já diria o provérbio.

Jornalista por fatalidade, acredita piamente que o sentido da vida é comer bem. Vive sobre a linha tênue entre o desistir da humanidade e o se apaixonar pelo ser humano. Seu maior sonho é vender sua arte na praia e viver das coisas que a natureza dá.

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Sabrina Rolim

Jornalista por fatalidade, acredita piamente que o sentido da vida é comer bem. Vive sobre a linha tênue entre o desistir da humanidade e o se apaixonar pelo ser humano. Seu maior sonho é vender sua arte na praia e viver das coisas que a natureza dá.

  • Michel Euclides

    Porra, Sabrina… Tu escreve com a tinta mesma da alma, sabia? Obrigado por mais essa Marca. Tá ardendo aqui.