Um super-herói dos infernos

Eu tinha perto de onze anos de idade quando conheci Spawn. Na época, também tive contato com personagens como Witchblade e Darkness (meu favorito na época), e era algo unânime entre meus amigos leitores que logo Marvel e DC seriam deixadas na poeira: o futuro pertencia à Image Comics e à Top Cow; um futuro violento, colorido no Photoshop, de estética bizarra, repleto de ocultismo, demonologia, sangue, palavrões e peitões.

Nos anos 90 até o Batman era infantil demais, e artistas como Todd McFarlane e Rob Liefeld souberam suprir a demanda de milhares de pirralhos por cores brilhosas, decotes brilhosos, músculos desproporcionais brilhosos, demônios punks e mulheres loiras com lordose. Sim, DC e Marvel eram coisa do passado. Claro, pouco antes disso, eu tinha sido convencido de que o Super Nintendo e o Mega Drive seriam deixados na poeira pelo 3DO. Quantos de vocês lembram do 3DO? Exato, eu devia ter imaginado.

Enquanto a maioria dos super-heróis se construiu ao longo de décadas, Spawn explodiu na cena dos quadrinhos, saltou para os games e recebeu sua própria série animada muito depressa. O filme veio em 1997, dirigido pelo estreante Mark Dippé, até então mais conhecido por seu trabalho espetacular no campo de efeitos visuais, principalmente em filmes como Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1993), de Steven Spielberg, e O Exterminador do Futuro II: O Julgamento Final (1991), de James Cameron. Você gostou do androide T-1000? Agradeça a Dippé.

Não é de surpreender que o grande destaque de Spawn: O Soldado do Inferno seja justamente sua visualidade. Mas vamos à trama.

Al Simmons (Michael Jai White) é um agente de operações especiais enviado para uma missão na Coréia do Norte. Jason Wynn (Martin Sheen), chefe da agência para a qual Simmons trabalha, ordena que ele seja assassinado durante a missão. Queimado vivo, ele chega ao Inferno, onde Malebolgia, um de seus governantes, oferece-lhe um acordo: tornar-se comandante de seu exército na batalha do Juízo Final em troca de voltar à Terra para rever sua esposa, Wanda (Theresa Randle) e se vingar de Wynn. Al aceita a oferta e retorna ao mundo dos vivos, agora como um hellspawn, uma cria do Inferno. Na terra, ele recebe (a contragosto) as orientações de um enviado de Malebolgia, Palhaço (John Leguizamo) e de Cogliostro (Nicol Williamson), um spawn que se recusa a obedecer às ordens infernais. Ele descobre que sua esposa se casou novamente e leva uma vida feliz sem ele.

Como já foi observado por meu crítico favorito, Roger Ebert, boa parte da trama se resume às tentativas de Al/Spawn de obter vingança e escapar do acordo com Malebolgia. É uma trama simples, direta e piegas, com direito a várias tentativas de apelo emocional fácil. Tire os superpoderes e pareceria um romance de banca. Mas, com o perdão do trocadilho, o diabo está nos detalhes.

A batuta de Mark Dippé torna-se visível no brilhante trabalho de maquiagem e efeitos visuais utilizados em Spawn. Boa parte dos efeitos que, agora são visivelmente datados, foram revolucionários nos anos 90, como a capa do herói, que parece ser uma entidade com vida própria. O “simbionte de necroplasma” que constitui seu traje é ao mesmo tempo bonito e horripilante. John Leguizamo é irreconhecível sob a maquiagem de Palhaço, e a sequência na qual ele revela sua verdadeira face infernal, transformando-se na entidade conhecida como Violador, é inesquecível.

Malebolgia, claro, deixa a desejar. Surpreende-me que, dado que tenham conseguido representar o Violador com tamanha presença e fluidez de movimento, o lorde infernal pareça um muppet feio de computação gráfica, ou um cachorro com doença de pele que não consegue mexer a boca. Penso que em 1997 os computadores de Hollywood ainda não tinha potência para criar as pelancas e a pele gosmenta e flácida necessárias para replicar o Malebolgia das HQs. Em alguns momentos parece que a entidade foi concebida pelos mesmos designers que trabalharam nos animalities de Mortal Kombat: A Aniquilação (John Leonetti, 1997).

Desculpem, isso foi um golpe baixo.

Muitos reclamaram (e ainda reclamam) que o filme precisava de mais sangue. Sempre me preocupo com essa necessidade que algumas pessoas têm de ver uma cachoeira de sangue na tela, especialmente considerando que nem todas as páginas do quadrinho apresentam um overload de tripas e partes decepadas. Violência gráfica, quando não tem um papel expressivo ou narrativo, é simplesmente gorno, e eu sei que há quem goste disso, mas não é minha praia.

No todo, Spawn: O Soldado do Inferno é uma experiência visual estonteante que preserva o tom do quadrinho, inclusive nos apelos emocionais baratos.  Parece-me injusto reclamar de uma história pouco elaborada, considerando que o material que serviu de base para a película não é particularmente sofisticado ou original. Por cultuada que seja, a criação de McFarlane ainda é uma fusão desajeitada de Batman, Venom e Fausto. Seu maior mérito é seu poder de encher os olhos. E disso o filme dá conta, embora o transcorrer dos anos tenha sido cruel com alguns de seus efeitos.

Agora, as considerações.

Melhor citação: “Destrua o cosmos, pergunte depois.” (Palhaço)

Maior pró: o simbionte, Palhaço/Violador e a ambiência geral.

Maior contra: Malebolgia, cara-de-cachorro.

Minha avaliação pessoal: 3,6/5

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

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Vilson Gonçalves

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.