Eshu, sushi e mal com “L”.

O sushi é uma das iguarias orientais mais conhecidas e apreciadas no ocidente. Basicamente,  é feito com um punhado de arroz cozido com vinagre e açúcar que, depois de cozido, é prensado em forma artísticas e unido a porções de peixe cru e outros frutos do mar. Existem niguiris, com arroz em forma de meia lua e um filete de salmão; hossomakis, tubos de arroz enrolados em algas verdes com um fio de salmão no meio; temakis, grandiosas porções de salmão enroladas em forma de canudos; uramakis, sushis invertidos, com a alga no centro e o arroz por fora, cobertos com pequenas sementes de gergelim. Temos sushis de atum, camarão, caviar, kani – a carne de caranguejo prensada, também conhecida como “aquele troço cor de rosa” – e temos o desagradável sushi de polvo…

Ninguém gosta do sushi de polvo. Comer polvo cru é como mastigar um pedaço de plástico sem sabor. É difícil de engolir, ética e gastronomicamente! Comer um peixe é fácil. Fritos ou crus, eles são saborosos; de água doce ou salgada, são capazes de levar nossas papilas gustativas à loucura! Além do mais, um peixe não reconhece sua imagem num espelho. Ele é incapaz de resolver problemas lógicos. Seus olhos parecem bobalhões, ao vê-los não enxergamos uma criatura que sente, pensa e raciocina; tudo o que vemos é um animal irracional, que não reconhece sua própria existência. Isso faz todo sentido biológico, o cérebro de um peixe é mínimo; ele é guiado por instintos; geneticamente preparado pro seu ambiente e seus desafios e incapaz de soluções criativas.

Mas você sabe do que o polvo é capaz? Ele é, simplesmente, o invertebrado mais inteligente que existe! Em muitos aspectos, como memória e aprendizagem, seu cérebro é comparado ao de nossa espécie, os macacos mais espertos do mundo. Eles reconhecem sua imagem no espelho, abrem potes que nunca viram antes, desmontam submarinos, planejam o futuro, são capazes desenvolver e utilizar ferramentas. Há um caso de um polvo, no aquário de Brigthon, Inglaterra, que fugia do tanque todas as noites, caminhava até tanques vizinhos, se alimentava de outros peixes e voltava tranquilamente para seu hábitat antes dos tratadores chegassem. Ele se banqueteou por um mês antes de ser descoberto. Como eu poderia comer um animal desses, meus caros? Um animal com o qual eu poderia ter uma conversa?

Sabendo disso, recorri à possessão por uma entidade africana para justificar minha vil atitude quando, numa tarde de quinta-feira, resolvi comprar uns sushis. Enquanto escolhia, vi aquela tenebrosa guloseima: um niguiri de polvo. Havia apenas uma peça. Um último representante daquele tipo cruel feito de corpos dilacerados de moluscos conscientes. Virei a cara. Não o queria. Passei para os sushis que me agradavam e enquanto os colocava numa bandeja de isopor, um homem passou atrás de mim e disse, empolgado: “Meu deus, um sushi de polvo. Eu amo sushi de polvo“.

Ao ouvi-lo declarar sua adoração, não resisti: enquanto ele corria para pegar o prato e se servir, tomei a última peça de polvo para mim. Não era eu. Não tinha motivos para fazer aquilo, mas fiz. Senti me cheio de vermelho e preto, senti a energia de Eshu, o grande trapaceiro iorubá em minhas veias, e agi em nome dele. Sabe, Eshu é o Senhor das Encruzilhadas, e uma de suas muitas atribuições é lançar desafios as vidas humanas. Ele se diverte ao ver como um mortal age ao se ver em situações difíceis, gosta de avaliar e rir de nossas tolas decisões. Ele tira o chão das pessoas, para vê-las crescer em meio as dificuldades. Pode até parecer maldade, brincar com as certezas dos mortais dessa maneira, mas quem sou para criticar o ganha pão de um deus tão antigo?

O homem ficou triste e o Eshu que me habita sorriu ao ouvi-lo dizer “Merda, pegaram o meu sushi”.

E eu nem comi a peça.

MUAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHA!

Nasceu em 1995. Teve uma infância feliz, rodeado de amigos e videogames. Aos 12, caiu do telhado após brigar com o pai por não querer estudar literatura. Ganhou uma cicatriz triangular na mão direita e se apaixonou por Machado de Assis. Decidiu ser escritor e hoje cursa o oitavo semestre de Ciências Biológicas.

Oziel Herbert

Nasceu em 1995. Teve uma infância feliz, rodeado de amigos e videogames. Aos 12, caiu do telhado após brigar com o pai por não querer estudar literatura. Ganhou uma cicatriz triangular na mão direita e se apaixonou por Machado de Assis. Decidiu ser escritor e hoje cursa o oitavo semestre de Ciências Biológicas.

  • Sarah Oliveira

    Hilário! Ameii💙