Sonho, sono e sofá

Desde sempre, tenho a mania de sonhar antes de dormir. Quase um sonho lúcido, com algumas peculiaridades. A principal delas é que não preciso sequer fechar os olhos. Talvez eu faça isso porque meus sonhos de verdade (os sonhos-sonhos, como chamo) sejam uma bagunça dos infernos, tão despidos de sentido que costumo me perceber sonhando. Daí resolvi criar eu mesmo as minhas farsas, com alguma preocupação em torná-las factíveis.

Funciona assim: deito, aprumo o corpo para dormir, espero o sono que não vem, e nesse intervalo me entrego ao “sonho pré-sono”. Meu controle desse sonhar é relativo, às vezes consigo domar a história, dar-lhe um rumo; na maior parte dos casos, mantenho apenas a lógica interna do roteiro. E tenho minhas regras. Por exemplo, nunca pode aparecer o tigre falante, presença certa e particularmente aporrinhadora em meus sonhos-sonhos. Sou até flexível em relação a voo, mudanças súbitas de clima e cenário, aparições – o que não suporto é o diabo desse tigre.

O chato é que às vezes os sonhos se tornam meio… chatos. Acontece quando tento controlar muito a coisa. Se dou um tema pro sonho pré-sono então é batata: vai ser mais chato que mosca de apito.

Mesmo ciente disso, não raro caio na armadilha. Ontem, inventei de sonhar pela bilionésima vez que ia tocar no Rock in Rio com a minha banda (fictícia, claro). Poderia ter começado logo no palco, mas não, caí na besteira de sonhar com os bastidores. Sabem como é, verossimilhança, coisa e tal.

A plateia gritava lá fora, ansiosa pela atração principal da noite. Apesar de ser apenas o guitarrista, era o meu nome que entoavam. E eu esparramado num sofá enorme, tranquilo e confortável. O vocalista me entregou uma cerveja, olhos brilhando de admiração. Qual o nome dele?

— Axl.

Não, passei dessa fase.

— Freddie, não lembra?

— Freddie o quê?

— Mercury?

Pretensioso.

— Brincadeira, sou eu, o Steve.

É, Steve tá de bom tamanho.

— O público está alucinado, cara. Esse show vai ser épico. Você é um guitarrista incrível, um ídolo…

Ok, chega. Assim não. Vamos lá, Steve, seja mais real. Você consegue.

— O público está alucinado, cara. Esse show vai ser épico. Nós somos uma banda foda.

Meu nome já não era ouvido. A plateia agora gritava o nome da banda, que era… era… “Os Tigres”? Merda! De onde surgiu esse nome?

— De novo reclamando do nome da banda? — O empresário apareceu num terno dourado. Mandei voltar.

— De novo reclamando do nome da banda? — Surgiu agora num elegantérrimo risca de giz.

Quando empunhei a guitarra para ensaiar uns acordes, a porta do camarim abriu. Apareceram baterista, baixista, trompetista, tecladista, saxofonista, violoncelista, violinista, tubista… Peraí, era pra ser uma banda de rock! Que gente toda é essa?

— Podem ir circulando — O empresário já foi levando o pessoal pra fora, mas o cara da tuba deixou escapar uma lágrima que me comoveu. Não posso ter essa moral toda, onde se viu? Não faz sentido. Não quero ser o dono da banda.

— Eles são integrantes da banda que nem você — disse o empresário, resoluto, e todo mundo sentou no sofazinho apertado. O cara da tuba me empurrou pra um canto. Pedi outra cerveja ao Steve. Ele deu de ombros.

Não conseguia mais entender o que o público gritava lá fora. Com certeza, não era “Os Tigres”. Limpei o suor da testa, o calor era grande.

— Em Manaus é sempre assim. — O cara da tuba me sorriu com desdém. Manaus? E o Rock In Rio?

— Vocês entram em quinze minutos! — gritou o empresário.

A coisa tinha degringolado, eu já notara. Não, eu não desistiria assim tão fácil. Pedi ao menos para ligarem o ventilador de teto.

— Não funciona. — O empresário já usava uma camisa floral aberta no peito. — E você deixe de frescura ou te boto no olho da rua! O Steve aqui tá doido pra ficar no seu lugar.

Steve fez que sim com a cabeça, cheio de ódio no olhar. E não é que o Steve era a cara do Steve Vai? Se você não sabe quem é Steve Vai, assista “A Encruzilhada”, filme com o Daniel-San no papel principal. Mas, se o Steve é guitarrista, então…

— Vamos lá, gente, a Joelma já está pronta pra entrar no palco!

Os músicos saíram em disparada. Permaneci no meu cantinho. O Steve olhou pra mim, sorriu, tomou a guitarra das minhas mãos e correu também, alegre e satisfeito. Pronto, tentei mexer demais no sonho pré-sono, olha no que deu. Perdi quase uma hora pra isso.

Foi então que, para a minha total surpresa, ouvi duas batidinhas na porta. Era a camareira.

— Senhor Moacir?

— Sim?

— Tem um tigre aqui fora querendo falar com o senhor.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

  • Lara Forte

    Eita que meu filho é muito criativo mesmo, viu?