Qual é a graça?

A porta se abriu com força e bateu na parede com um estrondo. Ronaldo estava pálido, a respiração pesada, mal conseguindo se manter de pé. Sentou-se com a mão no peito e a boca aberta numa careta.

— O que foi, meu amor? — perguntou Rute, sua esposa. Era magra e pequena, de pele clara. Seus olhos grandes ficaram ainda maiores enquanto chegava perto dele, com passos pequenos e rápidos.

— Água! — foi tudo o que conseguiu dizer.

Ela correu até a cozinha. Agora também tremia, e o copo de alumínio retinia contra a aliança.

Retornou à sala e encontrou Ronaldo deitado no sofá. Era um homem grande e pesado, a barriga protuberante, mas ainda bonito. Ele sentou quando a viu e, com a mão trêmula, agarrou o copo e bebeu a água de um único gole. As cores de seu rosto começaram a voltar.

— Acho que matei alguém — disse ele.

 

 

Estava quase chegando em casa. O trânsito colaborara, e conseguira fazer quarenta minutos desde o Centro. Quando passara do Mondubim, já não havia mais engarrafamento, o ar condicionado começou a gelar, e o rádio tocou uma balada de Raul Seixas. Tudo dava certo.

— Agora eu posso relaxar.

Uma mensagem acendeu a tela do celular e ele se distraiu, mas não apanhou o aparelho. Jamais atendia ao telefone se estivesse dirigindo. Procurava sempre ser o mais correto possível, diferente do pai, aquele picareta.

Quando a atenção retornou ao volante, viu, na penumbra da estrada, uma pessoa sair da mata algumas centenas de metros à frente. O alarme de perigo começou a soar baixinho, pois andaram acontecendo alguns assaltos naquele trecho. Mas nunca naquele horário. Era muito cedo ainda, não deveria ser nada.

A pessoa caminhou até o meio da pista e ficou lá. Por obra de algum destino sádico, não havia mais ninguém ali com eles. Nenhum farol, nenhuma outra silhueta: só ele, seu carro e aquele desconhecido.

O alarme interno soava mais alto agora. Ronaldo suava, as mãos grudentas escorregando no volante. Errou os pedais enquanto diminuía a marcha e o carro guinchou.

Os faróis finalmente mostraram o que a escuridão escondia: um palhaço. O macacão branco com bolinhas verdes, vermelhas e azuis; o cabelo laranja emaranhado; a maquiagem borrada; uma dentadura de dentes pontiagudos.

O alarme estourou. Sua visão ficou borrada e a racionalidade pulou pela janela aberta. Ronaldo conhecia aquele palhaço. Lembrava de acordar com dores nas costelas de tantas cócegas que ele lhe fazia, e chorava ao contar para a mãe por que despertara gritando na madrugada.

— Isso é ridículo, Dinho — dizia ela. — Volte a dormir.

— Seja homem! — gritava o pai, do quarto ao lado. — Não acredito que estou criando uma mulherzinha!

A raiva soprada pela lembrança ajudou, e ele conseguiu recuperar alguma calma. Deu sinal de luz e buzinou, mas o palhaço

um homem vestido de palhaço, Ronaldo, não seja ridículo

não saía da frente. Deve ser um assalto! Se for, eu não desvio!

A distância diminuía. Ronaldo passou a terceira marcha e afundou o pé no acelerador. O carro grunhiu. Passou a quarta. Sessenta por hora.

O palhaço permanecia imóvel. E continuava sorrindo.

Ronaldo passou a quinta. Quase noventa.

Impacto. Metal, ossos, carne, vidro, metal, sangue.

Ronaldo não parou até chegar em casa.

 

 

— Vamos ligar para a polícia, meu amor!

— Não! Você não entende…

— Se era um assalto, Ronaldo, foi legítima defesa!

— E se não era, Rute? E se fosse só um garoto pregando uma peça? Eu sou um assassino!

— Ele pode não ter morrido, ele pode… Você jamais mataria alguém… eu…

— Rute, eu estava a mais de oitenta, pelo amor de Deus!

Ela sentou, depois levantou e saiu, ajeitando os cabelos, passando a mão na frente do vestido. Ronaldo ouviu seu grito contido e não pôde deixar de se sentir culpado. Sabia que a frente do carro estava destruída. O vidro fora quebrado e trincara no meio, cedendo para dentro. O teto afundara onde o corpo

o palhaço

batera. Havia sangue e pedaços de tecido colorido entre os amassados da lataria e as brechas no para-brisas.

Rute entrou e sentou mais uma vez. Parecia leve. Parecia não estar ali.

— Acho que você tem razão, amor — disse Ronaldo. — Vou ligar para a polícia.

— Tanto faz — respondeu.

Ronaldo foi até o carro apanhar o telefone. Bateu a porta e, quando começou a se afastar, sentiu uma mão forte agarrar seu tornozelo.

A cabeça desfigurada saía de debaixo do carro, a maquiagem borrada pelo sangue. Uma tira de pele descolara do crânio, pendendo sobre uma orelha. A mandíbula estava deslocada, e a boca era um “o” torto, uma massa sangrenta, pontuada aqui e ali por dentes quebrados. Onde deveriam estar os olhos, havia apenas dois buracos escuros.

Ronaldo começou a rir, um riso alto e descontrolado. O palhaço derrubou-o no chão e ele, ainda rindo, começou a ser puxado para baixo do carro.

— Qual é a graça, meu amor? — gritou Rute, da sala. — Qual é a graça?

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Wilson Júnior

    Puta que pariu Michel! Vai ser bom assim na china!

  • Davenir Viganon

    Conto de tiro curto, sem encheção de linguiça. A estória é bem simples mas o personagem é bem construído, o medo do palhaço fazendo ele fazer aquela loucura, boa cena. O fim é muito bacana, a descrição bem crua. Se for para sugerir acho que dá pra refinar aquele final, com alguma construção bacana como as do início do conto. Gostei.

  • Bianca Berdine

    Achei foda. Aaaai palhaços >__>

  • Briza Izidio

    Uau! Muito bom!