Através de Sangue e Fogo: Parte 2 – Fogo

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Flutuei no ar por algum tempo, imaginando se era isso que significava não sentir. Desci ao chão ao sentir algo sendo encostado em meus lábios. Um líquido quente desceu pela minha garganta me engasgando, sem cheiro ou gosto. Mesmo assim, sorvi aquela única conexão que restara com o mundo.

Tudo era silêncio e escuridão em um segundo, no outro, o mundo explodiu ao meu redor. Uma explosão de sons, luzes, cores, cheiros e dor. Agora era capaz de sentir por completo todo o sofrimento ao qual eu submetera meu corpo naquela jornada.

Aos poucos as coisas tomaram forma, se tornaram inteligíveis. Os ruídos se tornaram vozes que me congratulavam. Eu acreditava ter fracassado, mas na verdade me encontraram fora da floresta, a meio caminho do acampamento, me arrastando com apenas um braço. Havia conseguido, havia vencido a floresta.

Meu pequeno companheiro estava perto, e ao despertar percebi sua cabeça apoiada sobre minha perna.

— Ele quase não nos deixou pegá-la, você conseguiu para si um feroz defensor — disse uma velha Lótusari de voz suave, com um sorriso acalentador no rosto. — Você sabe que o teste não acabou ainda, não é?

Confirmo que sim com um aceno de cabeça que me dói todo o corpo, e lembro das palavras. “Antes de se tornar um de nós, vocês serão testados no sangue e purificados no fogo.”

Olho em volta, o mundo estava mais colorido. Era capaz de ouvir todos os sons, o crepitar das fogueiras, os sussurros de orações, os gritos de comemoração ao longe doíam em meus ouvidos. O cheiro saboroso dos cozidos e assados que estavam sendo preparados apertavam meu estômago exausto e faminto, mas sei que não era hora de pensar em comida.

Tento me levantar, mas a dor não deixa.

— Vamos limpar sua marca para o ritual — diz a velha.

A mesma sensibilidade experimentada em meus outros sentidos estava também em minha pele. O suave toque da água era como uma chicotada. Quando a velha esfregou para tirar o sangue seco, quase perdi a consciência.

Deitaram-me em uma esteira, o ferimento latejando. A marca que eu consegui foi grandiosa, três cortes laterais que iam do ombro direito ao meio das costas em diagonal.

Finalmente, vi o céu estrelado e a maravilhosa lua cheia, mas a beleza deles empalideceu perto da Lótus. Era como uma gigantesca torre. A base de seu caule era de um marrom como as outras árvores, mas, quanto mais subia, mais perdia o tom, tornando-se cinza à altura dos galhos. As folhas eram brancas, e reluziam como prata sob o luar. Vários Lótusari penduravam-se em cordas na Lótus, colhiam os frutos. Era uma função de grande honra.

Notei que as várias fogueiras eram apagadas, transformando o ambiente numa penumbra prateada. O rito de purificação estava próximo.

— Venha menina, é hora — disse a velha, e entregou um robe feito com finos cipós brancos, que pouco escondia a nudez. Outros choques de dor correram pelo meu corpo quando a veste tocou no ferimento ainda aberto.

Caminhei na direção indicada, onde vários outros jovens como eu estavam vestidos da mesma forma. Machos e fêmeas, todos com sua nudez exposta, os cipós brancos manchados de vermelho onde suas marcas ainda abertas emanavam sangue. Alguns eram carregados, pois a ferida tinha sido tão grave que talvez não passassem daquela noite. Mas morreriam como verdadeiros membros da nossa comunidade.

Fomos colocados de frente a uma imensa pilha circular de madeira branca, galhos da Lótus Vi que alguns Lótusari embebiam a madeira em óleo.

— Sejam bem-vindos meus filhos! — Exclamou o Ancião Lassar. Era um dos mais antigos de meu povo, tinha visto quase cem floresceres. Um poço de conhecimento e sabedoria, mas seu tempo entre nosso povo estava perto de acabar. Não havia lugar para velhos entre nós, Lassar resistia porque era um mantedor das tradições, desempenhava uma função muito mais asceta do que laboral. Mesmo assim, já era hora dele partir e dar lugar aos mais jovens.

— Vocês passaram pelo teste, caminharam pela floresta e por ela foram batizados. Aqueles que conseguiram chegar aqui é porque tiveram suas ofenderas de sangue aceitas. — Sua voz era poderosa para alguém de aparência frágil. A voz é um reflexo do espírito.

— Porém, o ritual ainda não está completo. Para conseguir sua marca, vocês também tiveram que derramar o sangue da floresta. Esse sangue ainda está em suas mãos, e precisa ser limpo. Através do fogo, serão purificados.

Uma tocha voou pela noite silenciosa e se chocou contra as madeiras, explodindo em chamas prateadas. O calor era brutal, minha face ardia, e um odor balsâmico tomou conta do ar inebriando a todos.

Então, a música começou. Primeiro os tambores ribombando pela noite, seguidos por flautas e cordas. O som se misturava ao calor da pira, confundindo os sentidos numa mistura sinestésica.

O Néctar da Lótus foi servido, e os que o consumiam entravam numa espécie de frenesi de êxtase. Belas fêmeas, cujo corpo já era coberto pelas Tinturas de Honra, cantavam e dançavam para a noite, jovens casais deitavam-se nus diante da fogueira e se amavam na frente de todos, grupos de Lótusari se entregavam ao prazer sem fazer distinção entre os parceiros, guerreiros e guerreiras travavam combates sangrentos de mãos nuas.

Eu observava tudo aquilo com um fascínio. Não podíamos tomar parte da orgia, pois ainda não éramos membros verdadeiros da comunidade. Muitos próximos a mim assistiam com temor as manifestações extravagantes. Já eu queria  participar de todos os rituais que aconteciam ali.

A ansiedade tomava conta de mim, os sentidos ainda estavam aguçados pela bebida que haviam me dado. Assistia tudo aquilo extasiada, sentindo as carícias amorosas em meu corpo, os golpes das lutas, os cânticos em meus ouvidos, a fogueira turvando minha mente como se a realidade se transformasse em sonho.

Não percebi quanto tempo havia passado. Restavam apenas as brasas da fogueira.

— Agora, é chegada a hora da purificação pelo fogo da Grande Lótus — disse o velho. — Tenham em mente que o que for visto ao terem seus corpos tocados pelo fogo sagrado nunca deve ser partilhado. — Algo na voz do ancião despertava obediência.

Minhas mãos suavam, sabia o que estava para acontecer, e era assustador. A purificação era feita de maneira simples, as brasas da fogueira eram colocadas na marca. Mas antes a bebida que aguçava os sentidos era consumida. Pergunte a qualquer um, nenhuma dor em sua vida pode se igualar. É por isso que meu povo não teme a dor.

Aos poucos os gritos ensandecidos começaram a preencher o ar. Ao ouvi-los, desejei ter sido a primeira.

— Venha cá, pequenino — disse a senhora que cuidou de mim para o pequeno lince que ainda estava enroscado em minhas pernas. — Não é bom partilhar desse momento.

— Se aproxime, jovem Lychniss — chamou Lassar. Me olhava como se pudesse ver minha alma, e pela primeira vez me senti realmente nua. Eu tremia, a respiração pesada, o coração à beira de um colapso.

Com uma faca, o robe foi cortado. Senti meu corpo pulsar, a dor em minhas costas martelando pelo efeito da bebida. Eles me dobraram, quatro Lótusari de corpo forte me seguravam. Vi o velho se aproximar com o recipiente contendo as brasas. Ele se posicionou ao meu lado e as derramou sobre minhas costas.

Dizer que senti dor não alcança o sentimento real daquilo.

Mergulhei na alma da floresta, e o que vi não pode ser colocado em palavras. Não deve ser colocado em palavras.

***

Acordei com os raios de sol em meu rosto. A cicatriz estava curada. Meu fiel companheiro vermelho aos meus pés. A lembrança do que vi me fez chorar, junto a tudo que eu havia segurado até aquele momento. Meu corpo balançava em soluços.

***

Respirei fundo e me recompus. A parte final do ritual já havia começado. Os jovens de quinze floresceres que não passaram já estavam reunidos, bem como os velhos e os incapazes. Sem pressa, a marcha para o ermo começava, uma longa caminhada feita em silêncio.

Por mais que os Lótusari respeitassem as tradições, era um momento doloroso ver um filho ou um pai partir. Muitos antigos da floresta participavam dessa marcha, observando de longe, alguns até se aproximavam para se despedir de seus amigos. Lassar estava cercado de pequenos globos de luz, generosos espíritos da floresta, os primeiros a nos receber quando chegamos ali. Eles que guiaram os nossos ancestrais para a Lótus.

Até as árvores pareciam lamentar a partida de Lassar, algumas parecendo se curvar a sua passagem. Havia muito tempo que nenhuma árvore despertava, na realidade desde que chegamos as entidades da floresta diminuíam cada vez mais. Um mistério desconhecido. Muitos ainda hoje observavam de longe nosso ritual, e alguns até vinham para beber o Néctar. Mas era sabido que estavam sempre presentes, apesar de ocultos entre as matas.

Chegamos à fronteira, uma imensa planície. Dali o Grande Deserto já podia ser avistado, como uma cicatriz amarela que rasgava o horizonte. Muitas despedidas por todos os lados. Amores desfeitos, filhos chorando a caminhada dos pais, mães desesperadas por seus jovens filhos. Apesar disso, aquele não era um ritual de punição, simbolizava o sacrifício em busca da honra, o respeito à comunidade para que ela se mantivesse forte.

Observei em silêncio. Então, eu me vi indo para o deserto.

Por um segundo, fiquei paralisada. Na verdade, era uma jovem Lótusari da minha idade. Mas era idêntica a mim, se não fosse órfã poderia jurar que era minha irmã. O longo cabelo de outono, o corpo moreno e magro. Seus olhos estavam marejados, mas ela mantinha uma postura resoluta. Senti vergonha da minha mesquinhez ao pensar no banimento, não era melhor do que ela.

Nesse momento, tive vontade de mudar as regras de meu povo para que aquela jovem não tivesse que partir, senti que algo estava errado.

Olhei com pesar para aquela jovem, e, por um momento, nossos olhares se cruzaram. Ela dá as costas e inicia sua caminhada para o ermo junto com os outros. A partir daquele ponto, não havia mais lágrimas ou tristeza, apenas olhares consternados.

Vendo o horizonte e aqueles que partiam, lembrei-me da visão que tive durante a purificação pelo fogo e me perguntei se, no fim, a sorte não estava na verdade do lado deles.

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.