#02 Dór-zi-nho | s. m.

O tipo de dó que dói e dá vontade de chorar.

Todos os dias, os jornais nos mostram as injustiças desse mundo. Nas pessoas com um mínimo de sensibilidade e empatia, cada uma dessas injustiças desperta vários sentimentos. Somos anestesiados pela mídia parcial, pelas distâncias e pela naturalização da violência, mas algum sentimento deve existir.

Frequentemente, esse sentimento é a indignação. A raiva por ver o que está errado e de imaginar como o certo poderia ser. Mas a indignação tem mais a ver com os culpados do que com as vítimas, já notou?

Porém, quando o envolvimento é maior, também surge um tipo de dó bem dolorido, um dórzinho que faz a gente sentir vontade de chorar. Mesmo que os resultados daquela injustiça em especial não sejam tão drásticos, ou mesmo que há muito a dor original já tenha sido esquecida, o dórzinho dói, e provavelmente vai doer pra sempre.

Tenho uma história de família que sempre faz eu me sentir assim.

Quando minha mãe era pequena, meus avós não tinham dinheiro para supérfluos. Assim, minha mãe, que sempre foi artista, nunca teve condições de comprar material de arte – onde já se viu. Mas um dia, uma cliente da minha avó – que era cabelereira de mulher chique – trouxe dos estrangeiros uma caixa de lápis de cor e deu pra minha mãe. Toda feliz, a pobrezinha resolveu levar os lápis pra escola. Saiu para o recreio e, quando voltou, os lápis não estavam mais lá, na carteira. E ela, com vergonha, não contou pra professora. Além de ficar sem lápis, minha mini-mãezinha ainda levou uma bronca: quem mandou levar o lápis pra escola e ainda ser boba a ponto de ter vergonha de não avisar pra professora?

Provavelmente, essa história não toca todo mundo como toca a mim, pelo componente pessoal e tal. Mas é a história que faz meu coração apertar, meus olhos marejarem e minha vontade de ter uma máquina do tempo aumentar.

O que faz você sentir dórzinho?

É leitora, filha, viajante, irmã, escritora, colaboradora do Clube de Autores de Fantasia e do Pacotão Literário, humana da Pipoca e da Paçoca e, nas horas (não) vagas, engenheira de processos industriais. Devaneios, textões e fotos de filhotes em:

LEIA TAMBÉM:

Jana P. Bianchi

É leitora, filha, viajante, irmã, escritora, colaboradora do Clube de Autores de Fantasia e do Pacotão Literário, humana da Pipoca e da Paçoca e, nas horas (não) vagas, engenheira de processos industriais. Devaneios, textões e fotos de filhotes em: