4ª Carta

4ª Carta – 20 de agosto de 1969

 

Dona Dinda,

Como andam as coisas por aí? Ontem, o sargento Galego me disse que a senhora se tornou uma espécie de cuidadora dos internos mais precisados do manicômio. Estou muito orgulhoso e aliviado por sua atitude. Manter a cabeça e o coração ocupados garantirá sua sanidade por mais tempo. Porém é preciso prudência, mãe. Por mais cruéis que eles sejam com os internos, não desafie os diretores do Asilo dos Alienados. Muitos deles não passam de uns aprendizes de Josef Mengele. Tratam seres humanos como lixo e chamam o próprio sadismo de terapia. Se os militares decidirem que a psiquiatria a serviço da ditadura deve ministrar pentotal sódico e escopolamina aos parentes de presos políticos, talvez a senhora venha a precisar dos cuidados daqueles pelos quais agora zela.

Mãe, o tenente que no último feriado comandou minha tortura, viajou pra Natal. Sua ausência modificou o clima do aquartelamento, o que sugere sua relevância junto ao comando. Há cinco dias não ouço gritos e ninguém mais foi submetido aos exaustivos interrogatórios que ocorrem durante a madrugada. Ontem, o oficial que assumiu temporariamente as funções do que está ausente permitiu que andássemos pelo pátio. Preferi ficar sentado sob a sombra de uma castanhola, pois nem todas as queimaduras cicatrizaram depois do dia de sol prolongado que tive há uma semana. Mesmo detido e machucado, não posso dizer que os últimos dias foram ruins.

Há poucas horas, ganhei do cabo Ioiô um exemplar da Revista Fatos & Fotos. Gostaria que o periódico tivesse mais quadrinhos do Asterix. Até mesmo a manchete sobre a ida do homem à lua é tratada de maneira mais pirotécnica que informativa. Além disso, há uma matéria em que o babaca do Belmondo diz que não se acha feio e outra sobre a preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo do ano que vem. Não sei em que país vivem os editores desse lixo. O semanário de variedades também apresenta “A miss que veio do outro mundo”. Tudo porque uma filipina foi eleita a mais bela do Universo (ao menos daquele conhecido pelos jurados do concurso). É de uma vulgaridade cruel a maneira como a imprensa brasileira trata as mulheres. E, se forem asiáticas ou africanas, não podem ser belas; mas exóticas, ou seja, de outro mundo. A Babi me odiaria caso me visse folhear esse arremedo de publicação. Espero que no futuro nossa imprensa seja menos condescendente. Como podem ignorar o que está havendo? As pessoas estão sendo presas e assassinadas! Isso não seria mais importante que o verão tropeziano? Não é pra assinar colunas de fofoca ou pra fazer resenhas de fotonovela que as faculdades formam jornalistas.

Em uma cela próxima, alguém cantou Geraldo Vandré. Um sujeito de voz afinada nos deu uma palhinha. Foi bonito de ouvir.

Marinheiro, marinheiro
Quero ver você no mar
Eu também sou marinheiro
Eu também sei governar
Madeira de dar em doido
Vai descer até quebrar
É a volta do cipó de aroeira
No lombo de quem mandou dar

Cheio de gaiatice, um soldado perguntou se o cantor gostaria de receber um prêmio nos beiços e, apesar da violenta ameaça, todos rimos com gosto. Pela primeira vez percebo que os sujeitos que nos guardam não são assim tão diferentes de nós. Samangos ou civis, temos mais ou menos a mesma idade e, muito provavelmente, poderíamos ter sido amigos em outra vida. Pros jovens de periferia, o serviço militar obrigatório muitas vezes é a única opção de ganho financeiro. Não estão aqui para proteger o país da fartamente propagandeada ameaça comunista, mas porque precisam alimentar os seus. Infelizmente, depois de calçados em coturnos e de cabelos cortados à escovinha, eles pagam um preço altíssimo pela própria sobrevivência: tornam-se caçadores e carcereiros de seus iguais. Todos nós estamos submetidos ao mesmo despotismo, mas eles não sabem. Pensam que a farda os torna parte do sistema. São apenas escravos com liberdade pra açoitar àqueles que não se dobram ao chicote.

Há outra matéria que fala do Wilson Simonal. A mãe diz que não, mas sei que gosta do programa dele na Record. Essa é a única explicação pra senhora aturar a dona Ivonete e aquela cambada de papagaios e periquitos que ela cria. Tenho vontade de ouvir o som da Pilantragem. Lembra quando eu dançava na sala, só de cueca, e a senhora me batia com o pano de prato e mandava que eu baixasse o volume de “Mamãe passou açúcar em mim”? Aquilo era engraçado, não era? Do nosso jeito, até que nos divertíamos.

Sabe, há tempos eu não me sentia tão pouco exigente. Não que a prisão tenha me amolecido, mas acredito que ando mais sensível aos fatos que antes eu considerava sem importância. Aqui, qualquer batuque em uma caixa de fósforos é capaz de nos encher o coração de esperança. Quando chove, todo mundo estica a mão pra fora das grades a fim de sentir a precipitação. Até mesmo a coceirinha boa ao redor de uma casca de ferida nos garante um sublime e indefectível prazer.

Se eu soubesse antes que coisas pequenas também têm seu valor, mãe, eu teria aproveitado mais os instantes ao seu lado. Por que não conversávamos mais? E, se falávamos um com o outro, sobravam acusações e ressentimentos. Também deveríamos ter reclamado menos dos latidos do Kahlo e da Frida. Eles só se agitavam quando se sentiam famintos ou ameaçados. Meus pobres vira-latas. O que terá lhes acontecido?

Sem fazer barulho, dona Dinda, nem mesmo os cães conseguirão sobreviver ao que acontece neste país.

De seu menino torto,

Cazé

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

LEIA TAMBÉM:

Emerson Braga

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

  • Lara Forte

    Lindo como sempre

    • Emerson Braga

      Beijo, Lara!