Desafio, tempo e capotes

Arreguei.

A responsabilidade de escrever uma coluna me assustou, como bem discuti logo no texto de estreia. Pois bem, a aventura de trabalhar com histórias inéditas até vinha funcionando bem, mas agora não me resta escolha a não ser arregar.

Tenho minhas desculpas, entre elas o NaNoWriMo, desafio anual que consiste em escrever 50 mil palavras durante o mês de novembro. Um livro em 30 dias; ok, se não um liiiivro, ao menos um primeiro esboço. Decidi entrar nessa pra ver se tiro do papel aquele romance que planejo desde os meus dez anos de idade, e que, segundo os meus devaneios, está fadado a ser uma obra-prima (afinal, escritor de primeira viagem tem que ser pretensioso).

O leitor poderia questionar porque não escrevi a coluna de hoje com antecedência, uma vez que ainda estamos nas preliminares do mês de novembro. Calma, atento leitor, explico. Em outubro tivemos outro desafio literário, do qual não participei concorrendo, mas organizando: o I Prêmio Escambau de Microcontos. Junte isso a gravação de escambacast, escambavlog, preguiça, manutenção do site, seis episódios de Black Mirror e voilá: nada de coluna escrita.

Mas se você já está desistindo deste colunista, peço que se acalme, ó afoito leitor. Prometo que deixarei histórias por aqui, tão bobas quanto as que já foram publicadas. Não são fresquinhas, eu sei, mas não tem gente que adora pizza de geladeira? Pois então.

Prometo que me esforçarei mais da próxima vez. Por enquanto, fiquem com “Os Capotes”, crônica escrita em março deste ano. Perdão pelo vacilo.


Os Capotes

Tinha eu meus oito, nove anos e não era lá flor que se cheirasse. Era sonso, confesso, mais sonso que peemedebista em véspera de eleição.

Morava quase vizinho a um primo que era meu amiguinho de infância, o Nicolas. Na verdade, os irmãos de meu pai ocupavam todo um quarteirão, e seus filhos, todos mais ou menos da mesma idade, sempre brincavam juntos. Entre as casas, havia um pátio no melhor estilo Vila do Chaves, onde nos reuníamos.

Certa feita, meu tio, pai do Nicolas, decidiu começar no pátio uma pequena criação de capotes (também conhecidos como Galinhas d’Angola), no que foi de pronto apoiado pelo restante da família. Ninguém tinha juízo nos anos noventa. Ele fez um pequeno cercado no pátio, arrumou uma dúzia de aves Deus sabe onde e as meteu lá dentro.

Justiça seja feita: o homem cuidava dos capotes como vigário cuida das ofertas de domingo. Era remédio pra cá, ração pra lá – até alface americana os capotes comiam. Tinha bicho mais gordo que eu!

Tudo estaria muito bem, não fosse o pátio ter sido praticamente tomado da meninada, colocando prematuro fim aos nossos torneios de “mãoball” (não, não é handball mal traduzido; tratava-se de esporte criado por mim e assim batizado por falta de nome melhor, sucesso no bairro e promessa olímpica até então). De todos, eu era o mais inconformado, uma vez que via meu esporte definhar por falta de local apropriado à prática.

Pensei até em matar os bichos, mas me faltaria coragem para ato tão vil. Assim, coloquei em prática um plano de resistência à francesa: contrainformação e pequenos atos de sabotagem. Dia sim, dia não, logo que chegava do colégio, escorregava para o pátio e soltava os capotes. Já viu capote solto? Já viu capote correndo? É um terror. Quando meu tio chegava do trabalho, tinha capote no telhado, capote em cima do muro, capote no quintal do vizinho, capote no inferno! Meu amigo, anoitecia e o coitado não terminava de reunir os capotes. E isso ele fazia enquanto rosnava que mataria de peia o moleque terrorista tão logo o descobrisse.

Éramos sete os suspeitos, digo, os primos. Eu, metido a comportado, estudioso, boas notas, queridinho de todo mundo, passava longe das “investigações”. Nicolas, um diabinho de danado, justamente o filho da vítima, aparecia como o mais provável em todos os debates familiares.

Já contei que eu e Nicolas éramos amigos, não? Pois mais que isso: éramos unha e carne! E como todo relacionamento de brodagem infantil, vivíamos às turras. Um dia, numa de nossas brigas, Nicolas deu um chute na minha planta de estimação, a Marcela (a planta era de mamãe, mas como era eu quem regava e como não me era permitido criar um gatinho, tomei-a para mim, ao menos informalmente). Com a pancada, o vaso virou, e Marcela se esparramou no chão. Quase morri de raiva. Ocorre que Nicolas era bem maior que eu, e sempre sofri de uma frouxice crônica.

Não revidei, mas o ódio cresceu em mim.

Nicolas andava pra cima e pra baixo com um boneco dos Cavaleiros do Zodíaco que ele só largava pra tomar banho, talvez com medo de tirar a tinta. Ele amava a porcaria do boneco. No dia seguinte ao episódio do chute na planta, fui à casa dele. Minha tia me deixou entrar, como sempre, mas Nicolas estava no chuveiro. Mexi em suas coisas, encontrei o boneco e meti nas calças. Disse que ainda faltava concluir o dever da escola e que mais tarde voltaria. Me mandei.

À noitinha, quando meu tio chegou, alface americana nas mãos, o cercadinho estava mais deserto que jogo do Ferroviário. Tinha capote em tudo quanto era canto, menos no maldito cercado. O homem ficou louco. Para completar, mal subiu no muro para resgatar o primeiro fugitivo, escorregou e caiu de costas no concreto. Nunca vi alguém tão irritado quanto meu tio ao se levantar. Acredito que ele deve ter esganado uns cinco capotes só de raiva. Por via das dúvidas, não quis ver o restante do espetáculo e corri pra casa.

E foi do meu quarto que ouvi os gritos dele quando achou o boneco do filho caído entre uns morrinhos de ração. Só tenho a dizer que, caso a Lei da Palmada já existisse à época, meu tio teria sido levado embora de camburão. Surra pra dez meu primo levou sozinho.

A criação de capote durou só mais três dias.

Apenas anos depois, quando eu já era um jovem adolescente, revelei a verdade para Nicolas e seu pai. Meu tio não gostou, achou uma tremenda falta de respeito, ameaçou até parar de falar comigo (é mole?). O que me surpreendeu foi a reação de Nicolas: quase morre de rir. Até agradeceu por eu ter devolvido o pátio aos primos. A coça que tomou? Que nada, um justo troco pela agressão contra Marcela.

Voltei pra casa aliviado. Nicolas tornara-se um rapaz bem maduro, afinal.

Uma semana depois, cinco dos meus livros prediletos sumiram. Nunca mais os encontrei.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

  • Marina Costa

    Essa cara de bonzinho do Moacir só escondendo as empreitadas vingativas de infâncias. Nada como pivete pra fermentar rancor e fazer o negócio inchar até dar numa vingança duas vezes mais maligna que o mal feito sofrido hahahaha

    Quero dizer que apenas perdoo essa arregagem aí se essa obra-prima sair, bjs vlw flw.

  • Zé Ronaldo

    MARAVILHA, VÉI! QUE CRÔNICA BOA PACAS! TÔ PENSANDO EM ESCREVER UMA DE UM CABA FRESCO QUE FEZ BULLYING COMIGO EM REDE NACIONAL SOBRE O MEU CAPS LOCK LIGADO, QUE PENSAS TU, OÓ FELOMENAL CREATCHURA??