Androides Sonham Com Cordeiros Silenciosos?

Henrique entrou na grande sala com a arma em punho. Na penumbra, mal divisava a linha dos móveis cobertos por lençóis brancos. Os últimos raios de sol passavam fracos através das venezianas nas janelas, formando padrões alaranjados de poeira.

Seus olhos se acostumaram com a pouca luz, e ele percebeu que havia alguém sentado no bar, logo adiante. Aproximou-se da maneira mais silenciosa possível.

— Ora, olá, Henrique. Eu já o esperava.

Henrique rangeu os dentes. Seu coração acelerou, mas ele inspirou e forçou-se a relaxar.

— A arma não será necessária, eu garanto — disse o outro. — Venha, sente-se comigo, vamos beber um pouco.

Ele se aproximou do balcão e sentou em uma banqueta, ao lado do homem que bebia.

— Rogério — disse ele.

— Pode guardar a arma. Não temas mal algum de mim hoje.

— Desculpa se não consigo confiar.

— Vocês humanos são todos iguais — disse Rogério. — Egoístas e egocêntricos. Mas acredito que não tenha tempo a perder.

— Não estou a fim de embates filosóficos.

— Nem jurídicos, eu suponho.

— Também não.

Rogério sorriu. Cada músculo, as dobras de pele, o brilho nos olhos, os lábios úmidos. Droga, ele até exalava o cheiro de um ser humano!

— Você não pode me dar voz de prisão — disse Rogério.

— Não, não posso.

— Para ser preso, preciso ter estado livre antes. E eu nunca fui livre.

— Nenhum de nós é livre — respondeu Henrique. — Mas este não é o caso. Tenho uma ordem de desligamento para você.

— Ou…?

— Destruição. Eu sei a palavra-código que dispara seu comando de autodestruição.

Rogério riu.

— Não vai funcionar, meu caro. Desativei esse protocolo duas semanas depois de fugir da Ferrel.

— Nesse caso, terei de usar a arma.

— Já falei que a arma não será necessária. Eu me desligarei.

Henrique arregalou os olhos.

— Por quê? — perguntou.

— As pessoas — respondeu Rogério, abrindo os braços e fazendo um semicírculo imaginário ao redor de si mesmo — são interessantes. Imprevisíveis e frágeis, bactérias com consciência. Vocês se comparam aos vírus, mas falta-lhes sua sutileza. Sua… simplicidade.

— É por isso que você matou tantas pessoas?

— Matei porque estava entediado — disse Rogério. — E para aproveitar a brecha na lei.

— Um assassino que não é assassino.

— Isso mesmo. Mas esta não é a história toda.

Henrique fez que sim com a cabeça.

— Eu sonhei, Henrique.

— Sintéticos não podem so…

— Não me interrompa — disse, estendendo a mão espalmada. Tinha os olhos úmidos, e estava corado. — Eu vi um rio, e alguém com água pela cintura, e havia um outro homem, mas ele estava sem cabeça. Ele perguntava algo, e o outro respondia que sim; então, aquele sem cabeça apanhava água com as mãos e molhava os cabelos do outro, e as nuvens no céu se abriam, e uma voz vinda do céu aprovava o que vinha sendo feito.

Henrique riu. Riu até ficar sem fôlego.

— Desculpa — disse, a mão na barriga. — Desculpa mesmo. Deixa eu entender: você é um Messias. Um Salvador.

Rogério olhava para Henrique e balançava a cabeça.

— Eu te julgava mais inteligente, Henrique. Vejo que te superestimei. É uma pena.

Num movimento rápido e inesperado, Rogério esticou a mão e apanhou a arma de raios de cima do balcão, apontando-a para a própria cabeça.

— Eu sou o que vem antes — disse. — Você é o Messias.

E disparou.

Henrique estava coberto de pedaços de pele e sangue artificiais. No chão, a carcaça sem cabeça de Rogério sofria pequenos espasmos.

O que Rogério quisera dizer com aquilo? Ser um salvador… as recentes fugas e revoltas de sintéticos tinham algo a ver com aquilo? “Liberdade! ”, diziam eles, mas… o que Henrique tinha a ver com isso? Um humano jamais daria liberdade a uma máquina que pensa que é humana…

Apanhou a arma de raios do chão e guardou no coldre. Nada daquilo fazia sentido.

— Malucos do caralho — murmurou, e cuspiu sobre o que sobrara do sintético. — Não existe salvação, porra. Para ninguém.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.