Dr. Estranho | Um deus, um louco, um feiticeiro – ele é demais!

Vamos falar de um lançamento, para variar. Quem acompanha a Kapow! sabe que eu coloco esses filmes no microscópio, e isso que quer dizer spoilers. Se você ainda não viu o filme, talvez prefira pular essa análise e ir tomar um iogurte grego, comer amendoim ou abraçar quem você ama. Todos a bordo? Ok, pau na máquina.

Doutor Estranho é dirigido por Scott Derrickson (O Exorcismo de Emily Rose) e encara o desafio de adaptar mais um super-herói obscuro para as telonas. Me lembro de um diálogo que tive com minha esposa diante do pôster de Thor:

— Quem é?

— É um super-herói da Marvel.

— …

— Ele tem um martelo.

— Não parece um herói muito bom.

Pois bem, o Thor ainda tinha mais fãs que o Doutor Estranho. Pense no desafio. Estúdios Marvel, vocês estão de parabéns. Este é, sem dúvidas, o filme mais impressionante do MCU desde Homem de Ferro, de 2008. De algum modo, Doutor segue todas as fórmulas ao mesmo tempo que quebra a maioria delas com graciosidade e um sorriso maroto, e eu simplesmente não consigo resistir. Vamos lá:

  1. O adorável babaca: Stephen Strange é um cirurgião absurdamente talentoso e um cretino incondicional, assim como Tony Stark. Ao sofrer um acidente, ele perde a capacidade de usar as mãos com destreza, o que arruína sua carreira. Humilhado, ele tenta de tudo para recuperar as mãos e se dirige ao Nepal, onde encontrará alternativas místicas à medicina ocidental.

  2. O santuário mágico escondido em algum lugar da Ásia, mas estranhamente quase desprovido de asiáticos: Strange recebe treinamento místico no Kamar-Taj, uma espécie de santuário multicultural, onde todos usam pseudo-quimonos e fazem paranauês muito loucos com as mãos. Ele descobre que seus anfitriões não são apenas hippies veganos praticantes de acupuntura, mas feiticeiros de verdade e guardiões que protegem a Terra de ameaças místicas.

  3. Magical Negro: Sabe o amigo/tutor/núcleo moral de todo branco babaca, que você já viu ser interpretado por Morgan Freeman, Will Smith e Don Cheadle? Então.

  4. Guru todo-poderoso que morre de forma idiota: a Anciã, que coordena o Kamar-Taj e segura a onda da Terra contra um influxo brutal de bad vides muito marotas oriundas da Dimensão Negra. Como todos os mestres, ela está fadada a morrer para defender um pupilo que é b*sta demais para se defender sozinho e que, não obstante sua b*stalhonice, está agora encarregado de salvar a Terra e vingar seu sacrifício.

  5. O Diabo que não chamaremos de Diabo para não nos envolvermos em litígio de ordem religiosa ou revolta dos pais de nossos espectadores: o senhor da Dimensão Negra é Dormammu, um devorador de mundos que só quer destruir tudo.

  6. Babaca sedento por poder que também é contraponto do herói: Kaecilius, assim como Strange, foi um talentoso discípulo da Anciã, mas se apaixonou… hehe.

  7. Kill the boss, win the war: sabe quando existe uma galera de vilões por combater, mas o mocinho simplesmente vence o chefão e a galera se dispersa ou desaparece ou se desintegra no ar? Então.

Ok, você deve estar pensando que odiei o filme, certo? Beh, não. Ao contrário de Tony Stark, Stephen tem um arco bem construído e aprende alguma coisa no final. Kamar-Taj, que faz inúmeras referências ao santuário da Liga das Sombras em Batman Begins, utiliza o recurso da magia para explorar o espaço como uma espécie de País das Maravilhas para adultos. Mordo, ao mesmo tempo que age como consciência pessoal de Strange, claramente tem sua própria visão de mundo, e deixa pistas de que pode ser um antagonista no futuro. A Anciã, que é celta em vez de asiática, não é 100% ética. Sua morte, aliás, explora lindamente as possibilidades do encontro entre a dimensão real e as dimensões mágicas que o filme apresenta. Dormammu é bem feio e parece um vilão de desenho animado, mas ainda é o vilão mais ameaçador que o MCU conseguiu apresentar até agora. Por fim, quando Strange confronta Dormammu e seu sucesso imediatamente transforma Kaecilius e seus asseclas em gelatina cósmica.

Ufa! Entenderam o que quero dizer? Sobre problemas, admitirei que o número reduzido de asiáticos no elenco me incomodou do começo ao fim, especialmente a decisão de tornar a Anciã celta. Felizmente, a atuação de Tilda Swinton é impecável e consegue me atrair assim mesmo. Na verdade, todo o elenco faz um trabalho brilhante; Mads Mikkelsen é um pouco apagado por ter pouco espaço em cena, mas, assim como Dormammu, ainda é um vilão mais ameaçador que a média do Universo Cinematográfico Marvel.

Outro incômodo é o humor. Fico feliz que a Marvel tenha decidido apostar em uma narrativa ligeiramente mais dark, mas o tom se quebra, em momentos, pela inclusão forçosa de piadas de quinta. As piadas com a Capa da Levitação são particularmente dignas d’Os Três Patetas e estão inseridas justamente em momentos de alta tensão e dramaticidade. Imagino que um ator menos com menos presença que Benedict Cumberbatch teria deixado o personagem desmoronar no meio do pastelão.

Meu maior vai elogio vai para a construção visual. Sim, é possível identificar influências oriundas de A Origem, Matrix e Batman Begins, mas elas são costuradas bem e o todo tem identidade própria. Eu normalmente fico incomodado com filmes tão densos em efeitos visuais, mas a única coisa que eu considerei realmente feia, cartunesca e exagerada foi a cara enorme do Dormammu. O que temos aqui ainda é um filme fortemente preso ao modelo Marvel, mas que lida de forma incrivelmente elegante e bonita com este modelo. Vale cada momento.

Ah, e o Olho de Agamotto é o McGuffin mais estiloso do gênero desde o Códex de Homem de Aço.

As considerações.

Melhor citação: “Dormammu, eu vim barganhar!”

Maior pró #1: a estética é fenomenal.

Maior pró #2: o uso refrescante que faz de tropos tão gastos.

Maior contra #1: a impressionante escassez de asiáticos na Ásia.

Maior contra #2: a overdose de piadas envolvendo a Capa da Levitação. Já deu, ok? Objeto mágico com vontade própria, blá, blá, blá, já entendi. Parem de tentar transformar isso num filme do Buster Keaton com magia.

Minha avaliação pessoal: 4,8/5

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

LEIA TAMBÉM:

Vilson Gonçalves

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.