I Prêmio Escambau de Microcontos: Resultado da Semana 4

31 – Se alinhavam ao alto do parapeito, aguardando com línguas afiadas e inquietas o desfile dos fiéis adentro todo santo domingo. Ninguém era poupado, nem mesmo a beata cadeirante de noventa anos. As gárgulas da catedral tinham coração de pedra. (Gabriella Correia)

30 – Olhando-a, dizia o químico: – Oh, sim, Lavanda. Da família das Lamiaceae.
Acredita-se que o seu óleo tenha propriedades sedativas, antidepressivas, antiinflamatórias…
O poeta não ouvia nada, apenas conseguia rimar o seu perfume com a cor dos olhos da amada. (Ana Maria Monteiro)

30 – Na estrada escura e nebulosa a esbelta silhueta da moça não definia sua real identidade. Porém, ao parar o carro, Bruno percebe que não há mais ninguém ali. Apenas um forte cheiro de lavanda que o acompanhou até sua casa. (Deise Ane Oliveira)

29 – Meretriz era fichada na polícia. Digital completa, dedo a dedo. Na vila, rameiras não podiam caminhar pelas ruas, só transportadas por charrete. Bem vestidas, perfumadas, coquetes, lábios carmim, olhares enviesados. Cobiçadas. E para desassossego da minha avó, o avô era o único charreteiro do ponto. (Regina Ruth Rincon Caires)

29 – Há vinte anos, nenhuma pessoa era capaz de dormir. A epidemia se espalhou rápido, matando cerca de 2/4 da população antes que algo pudesse ser feito. Em meio ao caos, o Governo percebeu qual seria a nova moeda de troca do país: horas de trabalho em troca de horas de sono quimicamente monitoradas. (Soraya Coelho)

28 – Nos primórdios da colonização espacial, o teleporte só podia ser feito indiretamente, sempre com um ponto de parada entre destinos. Era lento, complicado e muitas vezes fatal. Até inventarem o download de mentes para teleclones. As mortes acabaram. Os humanos também, mas viajar é preciso, viver não. (Fábio Fernandes)

27 – Os pais sumidos na ditadura. O país mergulhado em silêncio. Sabia que os problemas não eram questão de prosódia. (Tatiana Alves)

26 – Na escola, Késsia via apreensiva seu diário ser passado de mão em mão pelos valentões da sala. De repente um deles jogou o caderno cheio de segredos alheios tão alto que pegou no ventilador do teto. Na profusão de páginas esvoaçantes, não ficou um sem ser atingido. (André Felipe)

25 – Encantou-se com a face dele. Entregou-se de corpo e alma. Viveu momentos tempestuosos em noites de calmaria. Foi tempo demais para entender que tudo era mero disfarce. (Claudio Antonio Mendes)

24 – Uma vez no poder, era hora de passar o país à limpo, reescrever a história. Nunca se viu tanto cassetete de borracha nas ruas, apagando os borrões. (Petrônio Oliveira)

24 – O sonho do piromaníaco era a catedral de sua cidade. No natal de 96 ele o realiza, carbonizando o edifício e as pessoas que ali estavam. Foi um preso dócil. Conseguiu dar ao deus menino o espetáculo de sons e luzes que tanto queria. (Mariana Carolo)

23 – O suor frio escorreu pela face. Sussurrou um pedido: Me abrace! Tão fatal quanto uma foice, Foi-se. Enfarte. (Eduardo Melgaço)

22 – Desfile cívico na Avenida Rio Branco: avestruzes de terno com as cabeças enterradas no concreto, enquanto prédios esfaqueiam o firmamento ao som fúnebre das dezessete horas no sino da catedral. E sob as marquises… o que são sob as marquises?
– Carvão animal. (Thiago Luz)

21 – Temos o apagador, o alfinete, o giz e o ventilador, explicou a diretora do orfanato. Logo na primeira semana, um menino foi castigado tendo um dos dedos esmagados por um apagador. A paz imperou desde então. Ninguém queria saber o que seria o tal do ventilador. (Zé Ronaldo)

20 – Ouvia sempre o sino da catedral anunciar falecimentos. Exceto o de um minuto atrás. (Claudio Antonio Mendes)

19 – “Sorria”. Veste, tira, tira, veste. No fim da passarela, flashes. “Sorria”.
Quando as luzes se apagam e enfim do desfile ela desce, retira a sombra, o rímel e o batom; da falsa máscara de felicidade se despe. (Gabriella Correia)

18 – Deitada, conseguiu vê-lo nascer vitorioso, em cor de lavanda. Depois de um parto tao difícil, deu-lhe um breve sorriso de despedida. (José Bandeira de Mello)

18 – A travesti continuava seu desfile pelas esquinas mal iluminadas, rebolando e jogando os cabelos com apliques, mesmo ouvindo os piores xingamentos. Morreria 28 horas depois, mas manteria a cabeça erguida. (Juliana Ribeiro)

17 – Anjo. 6 anos. “Fugi de casa”, disse. Doida de cola, pediu trocados, vendeu bananada e bateu carteira. À noite, quis saber, “Onde dormir?” As crianças de rua, “Catedral!”. O padre chamava, dava doces e voltavam chorando. Lá dentro ela disse, “Hoje não!”. Era um anjo, com uma espada de fogo na mão. (A.c. Costa Ferraz)

16 – Por ordem da Vitória-Régia, Lavanda foi expulsa do jardim, acusada de gerundismo feminista. Margarida protestou:
— Dessa farsa eu não particípio! (Aldenor Pimentel)

15 – Parecia apenas um ponto negro. Dinis espremeu-o e saiu como que uma larva de sebo oxidado. Como continuava grosso e negro, espremeu mais e mais. Foi saindo uma massa viscosa, até que a seus pés alastrou um pequeno pântano oleoso e fétido. Do peito, um som rouco. Em apneia, a bondade emergia. (Sá Tiro)

14 – Os dedinhos, com as unhas pintadas de cores diferentes e vibrantes, davam passinhos em um desfile de faz de conta. Primeiro um par, andavam até a borda da mesa, viravam e voltavam. Depois outro par, com outras cores. E depois outro. O desfile era dele, todo dele; os dedinhos não. (Lucas Kodiak)

13 – Pobre rapaz, encontrava-se atrás dos muros do hospício, não entendia o porquê de estar ali, dizia ele para o doutor:
– Se Dom Quixote pode olhar para um moinho e ver um gigante, por que não posso olhar para um ventilador e ver um anão? (Fabiano Sorbara)

12 – Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos o país acordou metamorfoseado numa republiqueta monstruosa. (Davenir Viganon)

11 – Vovó não deixava dormir na frente do ventilador, dava “bi de vento”: torcicolo. Hoje, se dói meu pescoço ou a saudade dela, já sei que lá vem ventania. (João de Barro)

Top 10

10 – Qual a face que você tinha antes de nascer?, o velho provérbio zen ecoa na sua cabeça. Você sabe que pode configurar um rosto novo, mas para que estragar o prazer do aleatório? Melhor deixar que a impressora 3D faça o serviço durante o processo de teleporte.
Você se joga. A sorte está lançada. (Fábio Fernandes)

09 – No espelho d’água, cada lágrima gerava um círculo de onda, desfigurando sua imagem. Após um tempo, desconfiou que o boto não voltaria mais e levantou-se, face enrugada como seu reflexo. (Zé Ronaldo)

08 – Nas noites sem lua, a gente acendia o candeeiro. Vovó reunia as crianças, ensinava o coro e pedia: “Firma esse ponto!” Depois vieram outros, e obrigaram a gente a deixar o jongo, o santo, o canto, a fé. Hoje vovó é ausência e eu, já adulto, luto para manter na memória a última cantiga que restou. (João de Barro)

07 – Dois mil anos depois e continuamos a lavar as mãos. A diferença é que Pilatos não usava lavanda. (Tatiana Alves)

06 – Música bate-estaca; jogos de luzes coloridas; decoração impecável; flashes e mais flashes! Era para ser um desfile como todos os outros, não fosse a revolução dos bichos… e os animais na passarela vestidos com pele de gente! (Geraldo Trombin)

05 – Quando era criança, Ana gostava de imaginar que as nuvens eram países e que civilizações inteiras moravam lá. O céu azul era o oceano. Quando compartilhou essa ideia com seu avô Afonso, ele riu.
— Que foi, vovô?
— Nada, querida. É só que eu lembrei que as nuvens se desfazem com o vento. (Renan Santos)

04 –        — Catedral Cathedralis Umbilicus Mundae — ditou o professor de Biologia Fantástica. – Anotem aí: “organismo colossal, da família dos Lugaris Adorationes. Corpo cúbico, olhos vítreos e pernas longas. É extremamente longevo e consome indiscriminadamente almas humanas.” (Vilson Gonçalves)

03 – Naquela noite de insônia, o ventilador abafava o ar, ao invés de fazê-lo circular. E não tinha janela aberta que refrescasse a sua consciência depois que compreendeu o que é matar. (Cris Rosa)

02 – Depois de tantos tapas, Aline deixou de oferecer a outra face a Tiago. Passou a mostrar-lhe a faca. (Sabrina Dalbello)

01 – Um ponto final pelo amor de deus! Pedia um texto reticente na esquina de uma linha qualquer. (Zé Ronaldo)

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  • Aluísio de Paula

    não figuro entre os laureados. de novo. mas a minha felicidade foi ter encontrado um pessoal bacana que não só consome, mas também produz prosa minúscula de imensa qualidade! abraços a todos!

  • Aluísio de Paula

    antes que me esqueça: obrigado, ao pessoal do escambau por provocar a criatividade da gente, ter um tema pra escrever acende partes do nosso cérebro que nem lembrávamos que estavam esquecidas…