5ª Carta

5ª Carta – ? de setembro de 1969

 

Dona Dinda,

A senhora pode me ouvir? A mãe me escuta? Quem está do outro lado? Eu não aguento mais ficar aqui dentro. Tem alguma coisa debaixo da minha pele. Eu sinto… Eu sinto… Que dia é hoje? É dia? Ainda é setembro?

Me prenderam na xoxota, mãe. Não. Não brigue comigo por minha linguagem. É assim que esses canalhas misóginos chamam o buraco imundo e escuro no qual me esqueceram há alguns dias. Só consigo ver alguma luz quando passam comida por uma pequena passagem na porta (isso, se me alimentam). Não consigo ficar totalmente de pé e é impossível dar mais que três passos curtos em qualquer direção. Faz muito calor aqui e durmo sobre o mesmo chão onde faço minhas necessidades. Eu estava preparado pra morrer, mãe. Mas não assim. Não como um bicho.

No último dia de agosto, fui escalado pra aparar o matagal que cresce próximo ao paiol. Me senti feliz por ter a oportunidade de ficar ao ar livre e na companhia de outro detido, mesmo ciente de que permaneceríamos o tempo inteiro sob a mira de um fuzil.

Como o soldado que nos vigiava parecia distraído e dava pouca importância ao que fazíamos, não me intimidei ao puxar conversa. O outro rapaz se chamava Nonato. Falou que havia sido preso ao tentar fugir pra São Paulo, onde encontraria outros dissidentes do PCB que haviam optado pela luta armada. Me disse que era funcionário da Ceará Gás Butano e que sentia saudades de sua mãe, uma mulher doente que dependia dele pra tudo. Também falou que conhecia pouco do movimento estudantil, pois não tivera a oportunidade de ingressar em uma faculdade.

Como a sentinela estava a uma boa distância e pouco se concentrava em nosso trabalho, fiquei à vontade pra relatar minhas investidas como aspirante a revolucionário. Expliquei as reuniões no DCE e como fazíamos a panfletagem dos manifestos que escrevíamos clandestinamente, nos utilizando do equipamento da UFC. Sem esconder meu orgulho e paixão, falei dos cartazes e grafites que espalhávamos por Fortaleza durante a madrugada. Nonato bebia minhas palavras como se eu fosse um grande contador de histórias. Seu olhar de fascínio me envaideceu, fez com que eu ignorasse o que na verdade acontecia.

Tarde demais, percebi a arapuca. Estranhei sua insistência em saber os nomes de meus companheiros. Como me neguei a revelá-los, sua atitude mudou, se tornou autoritária e violenta. Em um movimento ligeiro, me ameaçou com o ciscador e fez com que eu tombasse sobre o mato. No instante em que ele riu — um riso medonho e trocista — eu tive a certeza de que ele não era outro prisioneiro, mas um soldado. Eu deveria ter lido os sinais: suas gírias de caserna, seu cabelo bem cortado, sua atitude marcial. Havíamos tido dias tranquilos por aqui, o que talvez tenha me desligado do meu estado de alerta.

Depois de fazer um gesto pro soldado que nos vigiava, Nonato me deu as costas e deixou o terreno. Nem sei se esse era realmente seu nome. Naquele instante, senti que algo terrível me aconteceria.

Antes de ser arrastado pelo braço de volta à cela, levei um punhado de terra à boca e o engoli. Não o fiz por sentir fome, mas pra guardar dentro de mim um pedaço do que há lá fora e que talvez eu não volte a ver.

Foi o sargento Galego quem me conduziu à solitária. “Tu tem saudade da muierada, menino? Tem? Pois tira a roupa. Vou te levar pra tu passar um bom pedaço dentro duma xoxota”.

Pedi que ele não fizesse isto comigo. Repeti inúmeras vezes que eu não conhecia ninguém, que todos usavam nomes falsos. Com seu olhar de compaixão vazia, ele pôs a mão sobre minha cabeça e, por um instante, fez como se me abençoasse. Em seguida, me empurrou pra dentro deste cubículo e, desde então, não o vi mais. Não vejo ninguém. Só não acredito que o mundo acabou e que nele estou sozinho porque as marmitas e a água ainda passam por aquela pequena abertura na escuridão. Às vezes, alguém sussurra junto à porta: “Tu vai morrer, baderneiro. Tu vai morrer”. Só não sei se essas palavras são uma ameaça vã ou uma predição certeira.

Quando eu era pequeno, a senhora costumava me prender no banheiro sempre que eu fazia alguma malinação. Só me tirava de lá depois que eu rezasse em voz alta cinquenta pais-nossos e trinta ave-marias. Foi ali que comecei a me distanciar deDeus, sempre atento a questões irrisórias e desleixado com aquilo que realmente mereceria sua onipresente atenção. Ainda hoje, se me falam sobre as supostas benesses da religião, sinto o sabão queimar meus olhos.

Há horas tento dormir, mas o medo de que uma barata invada um dos nove buracos de minha fedida carcaça faz com que eu desfrute apenas de espaçados cochilos. Em alguns momentos, como agora, não sei se estou acordado ou se durmo profundamente. Quem sabe ― se ambos estivermos inconscientes ―, a minha mente possa ir ao encontro da sua, no hospício. Gostaria de encontrá-la na Barra do Ceará, minha Dinda. Lá, vimos tantos pores do sol. Ainda nos entendíamos como mãe e filho.

A senhora me desculpe, mas preciso ir. Tome mais uma água de coco e continue contando as ondas que quebram à beira-mar.

Estão abrindo a porta. Mãe, não olhe pra trás. Não quero que me veja quando a luz invadir este alçapão. Concentre-se no horizonte e nos navios que deslizam entre o verde e o azul. Guarde um lugar pra mim sobre sua toalha de banho. Depois que eu me negar a responder as perguntas do Professor, caminharemos descalços sobre a areia.

P.S.: A senhora fica mais bonita sempre que algo me leva a acreditar na proximidade do fim.

 

De seu menino torto,

 

Cazé

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

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Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

  • Lara Forte

    É um gosto e um sofrimento toda vez que vejo anuncio de carta nova. A de hoje, como todas as outras, me partiu o coração.
    Minha empatia.por Cazé é imensa e só consigo me concentrar na fortaleza que ele transmite em suas cartas (que já estão mais loucas que sua mãe)

    • Emerson Braga

      Obrigado pela leitura, Lara!