Feminino Agreste – Mais uma Maria

Desde que o mundo é mundo, sabemos da necessidade do homem em externar suas ideias, suas opiniões, seus conhecimentos, e também sua ignorância, através das várias faces da arte. Arte encontra-se definida como “atividade humana ligada a manifestações de ordem estética feita por artistas com o objetivo de estimular interesse de consciência em um ou mais espectadores”. Aristotelicamente definindo, temos a arte como a imitação da realidade.

Afunilando um pouco mais as vertentes da arte, escolhi, e não por menos, falar da Literatura que, com a sutileza da literacia, nos traz à tona diversas obras as quais se apoderam de detalhes reais e fictícios e nos transportam para um universo cheio de detalhes e vivacidade.

Antes de fazermos a apresentação formal do destaque de hoje, reflitamos sobre alguns aspectos conflitantes dentro da Literatura que, mesmo sendo libertadora, compactua também com a exclusão de ideias, personagens e pessoas. Atente-se a duas características explicitadas até aqui: imitação da realidade e exclusão de pessoas!

Historicamente temos uma literatura ao molde europeu, intrinsecamente ligada à literatura portuguesa e em suas primeiras publicações traziam sobre as expedições de viajantes e missionários. Literatura, tecnicamente falando, é um produto da confluência dos elementos estéticos e sociais medrados pela cultura. Em dissonância a isso temos uma literatura de consumo bastante estereotipada, visando a lucros e despindo a deusa lusófona que em tempos remotos servia para contar sobre as mais diversas aventuras.

Uma das justificativas a essa metamorfose literária, como bem sabemos, é a emancipação do pensamento humano e a necessidade de várias outras tendências a fim de abranger um maior número de adeptos literários.

Sendo assim, busquemos um detalhe já visto neste texto: a confluência da literatura com a realidade. E a partir disto, refletir e discorrer sobre uma literata que, contrariando os moldes elitistas, fez com que suas histórias fossem lidas e ouvidas em vários cantos do mundo.

Mulher, negra, da periferia e semianalfabeta buscava no lixo condição, tanto para alimentar o corpo quanto para o prazer da alma. Entre restos de comida, cadernos e livros, buscou nessa labuta diária força e inspiração para a vida e para a Literatura.

Sua origem humilde mostrou desde muito cedo caminhos difíceis e desumanos. Resultado da violenta desigualdade social e cultural enraizada em nossa sociedade. Perspicácia, inteligência, criatividade e uma boa dose de ousadia, fizeram com que esta mulher transformasse os caminhos de sua vida em histórias as quais, escritas de forma ímpar, explicitam uma literatura que sempre buscou espaço e representatividade.

Com temas que demarcavam desde as limitações da favela até a luta diária dentro de um cenário de subsistência, Carolina Maria de Jesus fez, com o mínimo de estudo, obras inusitadas, tendo a denúncia como traço característico de sua literatura.

Despindo as demarcações estéticas da produção literária, Carolina Maria trouxe à sua escrita, traços marginais e diretos, com uma ortografia singela e uma imensidão de obras de diferentes gêneros: diários, crônicas, romances e poemas. Em meio ao cenário acrônico, Maria personificava suas dores dando a elas vitalidade através de narrativas sob o olhar feminino. Mesmo tendo os vizinhos como seus principais opositores por expor a conturbada convivência na favela.

Mulher, negra, marcada pelas garras da desigualdade, lutou pelo reconhecimento e pela ascensão de suas obras. E, com isso, já somamos 102 anos de tentativa! Fora do Brasil, seu legado deixou marcas e traduções em mais de 13 países.  Aqui, alguns críticos a nomearam como a primeira escritora negra a ganhar notoriedade.

Do caos e do lixo mais uma Maria mostrou sobre a imobilidade do mundo social.

Ou ao estilo de Maria Carolina de Jesus, “a favela é o quarto de despejo da cidade!”

 

“Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora.”

Dos sonhos à concretização da luta.

Pela mulher e para a mulher!

Mulheres, o nosso tempo é já!

Emilene Rodrigues de Oliveira Dias, 31 anos, educadora e mãe. Adora escrever, ama literatura. Encontra nos livros uma forma prazerosa de passar o tempo e preencher as lacunas do ser enquanto amante e pensante. Preserva os laços familiares e dos amigos. Um bom papo é sempre muito bem vindo! Acredita que é pela educação que se pode construir pessoas e um mundo melhor!

LEIA TAMBÉM:

Emilene Dias

Emilene Rodrigues de Oliveira Dias, 31 anos, educadora e mãe. Adora escrever, ama literatura. Encontra nos livros uma forma prazerosa de passar o tempo e preencher as lacunas do ser enquanto amante e pensante. Preserva os laços familiares e dos amigos. Um bom papo é sempre muito bem vindo! Acredita que é pela educação que se pode construir pessoas e um mundo melhor!

  • Janaina Muniz

    Eu li Quarto de Despejo no começo do ano. Foi um soco no estômago. A escrita da Carolina de Jesus tem complexidade e lirismo em sua natureza crua. Recomendo a todos.