Os livros que nunca lerei

Hoje fui à livraria comprar o livro do José Saramago, “Ensaio Sobre A Cegueira”. Numa estante, entretanto, vi um livro de capa rosa-choque e preto – duas das minhas cores favoritas – de um renomado escritor japonês, Haruki Murakami, intitulado “Homens sem Mulheres”. Na seção de literatura científica, me deparo com Oliver Sacks e sua obra “Vendo Vozes: uma viagem ao mundo dos surdos”. Quase finalizando a compra, vejo uma linda edição de luxo com as 200 melhores crônicas de Rubem Braga, e acabei levando este também.

Total da compra: R$ 200,00. Eu pretendia gastar apenas R$ 50,00. E o pior de tudo é que talvez eu nunca leia esses livros. Infelizmente, acho que sou uma daquelas metamorfoses ambulantes, mudo direto. Tenho livros nunca lidos da Black Friday de 2014, quando eu era pouco mais que um menino ganhando seu primeiro dinheiro com estágios remunerados e comprando obras de literatura fantásticas barata, medíocres e repetitivas. Nada contra os leitores de Rick Riordan, mas convenhamos, todos os livros dele são iguais. E eu li todos, menos os que comprei pouco antes de perceber isso, e desisti de ler.

Isso me assombra. Na minha estante há vários que – tenho quase certeza – nunca vou abrir. Comprei-os quando era outra pessoa, desejei-os e hoje já não os desejo, mas eles estão lá, esperando. Não sei se é o consumismo, a ideia de que temos que de comprar e comprar e comprar mesmo que não haja necessidade. Ou se talvez seja um lado meu mais romântico, afim de valorizar o mercado editorial colocando meu dinheiro nele. Talvez meu inconsciente pense quando mais livros compro, mais meus livros venderão quando – na verdade se ­ forem publicados.

Creio ter quarenta livros não lidos na estante, aguardando as férias, o trabalho e tudo mais me darem uma folga para que eu possa FINALMENTE – perdão pelo advérbio em caixa alta – ter com eles o prazer da leitura. Há também aqueles livros que pretendo reler, mas que, outra vez, não tenho tempo suficiente para me dedicar a eles.

Na verdade, acho que não existem anos de vida suficientes para ler tudo que quero. Para viver tudo que quero. E quanto mais leio, mais tempo quero e menos tempo tenho para viver. Talvez em meu leito de morte lamente os livros que não li em vez de agradecer pelos livros que li e pela vida que vivi. Não, não quero morrer assim. Continuarei comprando livros na esperança de ler todos e morrerei feliz, sabendo que li alguns e que também vivi um bocado em troca do livros que jamais lerei.

Nasceu em 1995. Teve uma infância feliz, rodeado de amigos e videogames. Aos 12, caiu do telhado após brigar com o pai por não querer estudar literatura. Ganhou uma cicatriz triangular na mão direita e se apaixonou por Machado de Assis. Decidiu ser escritor e hoje cursa o oitavo semestre de Ciências Biológicas.

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Oziel Herbert

Nasceu em 1995. Teve uma infância feliz, rodeado de amigos e videogames. Aos 12, caiu do telhado após brigar com o pai por não querer estudar literatura. Ganhou uma cicatriz triangular na mão direita e se apaixonou por Machado de Assis. Decidiu ser escritor e hoje cursa o oitavo semestre de Ciências Biológicas.

  • Emerson Braga

    Pessoa, como me enxerguei em seu texto. Há tanto, tanto ainda para ler!

  • Elisabeth Lorena Alves

    Caramba, Oziel! Esse é meu temor, morrer sem ter lido tudo o que desejo… Sempre me prometo não comprar livros quando não tiver tempo para ler, sempre esqueço a promessa… Traio os livros que tenho com os que desejo e não leio nenhum…