Basia e a música que não conhece fronteiras

Sempre que ouço alguém dizer que “A música é uma linguagem universal”, me pergunto se o locutor entende a amplitude dessa frase. Afinal, histórias como a da cantora Basia são pouco conhecidas, mas são a prova inquestionável do poder de uma melodia.

Nascida em Jaworzno, na Polônia de 1954, Barbara Trzetrzelewska (conhecida apenas como Basia) era uma criança sagaz. Devorava livros, ouvia rádio o dia inteiro e desenvolveu desde cedo um tino para a música e histórias bem contadas. Absorvia o jazz e o pop com tal voracidade que chegou o dia em que ouvir apenas não bastava: ela precisava cantar. E graças a experiência como cantora amadora que, numa discoteca com outros amigos músicos, ela pôde encontrar o seu grande amor, a música brasileira. E então tudo mudou.

É difícil imaginar que em uma pequena cidade da Polônia, na remota década de 1960, alguém estaria delirando com o samba – não que o mesmo seja ruim, muito pelo contrário, mas porque como disse acima, subestimamos o poder da música. Basia amava tudo o que conseguia descobrir sobre nossa música, de João Gilberto à Tom Jobim, e imprimiu o samba e a bossa nova em seu estilo (e, mais tarde, em suas composições), emprestando e adequando à si mesma toda a doçura da música brasileira. Foi assim que ela conquistou uma marca difícil no universo musical: criou um som próprio, reconhecível não apenas pela sua voz (com um alcance de três oitavas, que vai do contralto ao soprano) mas pela atmosfera única de seus álbuns.

No final dos anos 1970 ela se mudou para Londres, onde conheceu seu parceiro musical para o resto da vida, Danny White, e estrearam como parte do grupo “Matt Bianco”. Ela teve seu primeiro hit, “More Than I Can Bear” (1984), e embora tenha sido um enorme sucesso na Europa (e no Brasil, onde toca até hoje em rádios como a Antena 1), ainda não era brasileiro o suficiente. Ela embarcou em carreira solo, e seu primeiro álbum, “Time and Tide” veio para apresentá-la ao mundo e dar o pontapé inicial em uma carreira invejável. Os singles variavam entre o jazz (“Time and Tide”, “Prime Time TV”, “New Day For You”) e o samba (“Promisses”, “Astrud”, sendo esta composta em homenagem à Astrud Gilberto), com um acabamento pop e harmonias hipnotizantes. O disco vendeu mais de 1 milhão de cópias, e abriu caminho para o segundo álbum, “London Warsaw New York” (1989), com os singles “Cruising for Bruising”, “Baby You’re Mine” e o cover de “Until You Come Back to Me”, de Aretha Frankling. O segundo disco vendeu 2 milhões de cópias e é o seu trabalho de maior sucesso até hoje. Os dois primeiros trabalhos são semelhantes em relação aos arranjos e às composições, ousados sem serem inacessíveis, autênticos sem serem pedantes. Sempre falando sobre as delícias do amor e da alegria de estar viva, Basia já tinha encontrado seu espaço.

O terceiro projeto, “The Sweetest Illusion” (1994) foi um ponto de virada. Nesse álbum Basia e seu parceiro musical, Danny White, elevaram seu trabalho de forma que, ao invés de optarem por samba ou jazz, fundiram os dois criando uma sonoridade quase mágica, evidenciada pelos singles “Third Time Lucky” e “Drunk On Love”. As letras e os vocais também amadureceram bastante, como é possível conferir em “Yearning”. Os singles não alcançaram o sucesso esperado, mas Basia já estava estabelecida como cantora e intérprete, com fãs leais nos EUA, na Ásia e em toda a Europa, o que impulsionou as vendas do disco o suficiente para que o mesmo fosse considerado um sucesso modesto.

Após o período promocional do último álbum, Basia optou por se afastar da vida pública para cuidar de sua vida pessoal, e desde então tem aparecido poucas vezes. Lançou mais um disco com Matt Bianco em 2004, “Matt’s Mood”, onde ela divide os vocais com Mark Reilly (recomendo “Ordinary Day”, “La Luna” e “Say The Words”), e em 2009 lançou seu mais recente trabalho solo, “It’s That Girl Again”, onde ela volta à boa forma com “If Not Now Then When”, “Blame It on The Summer”, “Two Islands” e “Amelki śmiech”.

Basia ama seu país. Em todas as entrevistas, ela fala da Polônia, e o quanto ama representar a sua pátria para o mundo, fazendo referências à isso em sua música e até inserindo termos e cantigas polonesas em seus trabalhos, como se pode ouvir em “Reward” e “Yearning”. É curioso ver uma polonesa “roxa” encontrar na música brasileira sua forma prioritária de falar e se expressar, e embora ainda não tenha vindo ao Brasil, disse em entrevista que adora cantar jazz e pop, “mas só quando canto samba me sinto no meu habitat”. Obrigado, Basia, por nos lembrar que a música não é limitada por fronteiras ou territórios demarcados. Obrigado por nos ensinar que a música é o nosso habitat, é o lugar para onde vamos quando precisamos lembrar que, no fundo, falamos todos a mesma língua.

Tem 24 anos e uma alma sofrida que precisa beber música para esquecer os problemas. Prefere sempre o lado B dos discos e acredita que isso tem muito a dizer sobre ele.

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João Paulo Duarte

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