O método Oniyazov

Lívia estava no ônibus e lia Oniyazov. Adorava os russos, mas por este nutria um carinho especial: suas Leylas e Vladimires eram feitos de carne, ossos e sangue. Você podia encontrá-los na rua, no trabalho, em uma festa ou velório. Droga, ela mesma poderia ser uma de suas personagens!

Concentrava-se numa passagem sombria quando o telefone tocou.

— Oi, querida. Já está chegando?

— Mais uns dez minutos — disse ela. — Por quê?

— Tenho uma surpresa para você.

— Que história é essa, Marco?

— Não seja curiosa.

— Marco…

— Paciência. Mostro quando você chegar, certo?

— Não vai me contar mesmo, não é? — suspirou. — Eu te amo.

Guardou o telefone e continuou a leitura. Tentou, na verdade, mas não conseguiu se concentrar.

Marco não era dado a mistérios e grandes imaginações. Sua vida amorosa não era recheada de aventura como sonhara, mas era boa. Por isso casaram: eram complementares. Ela, agitada e sonhadora; ele, constante e sereno.

Não, nada de surpresas, e Lívia adorava isso. Era o que esperava de Marco: uma rotina cheia das mesmas coisas.

Nada de surpresas.

 

*    *   *

 

Marco esperava no portão. Havia se arrumado e barbeado, e trazia na mão uma faixa preta de cetim.

— Não pergunte — disse ele.

— Você sabe que eu…

— Não seja boba — respondeu Marco, rindo. — Dessa você vai gostar.

Ele a vendou e conduziu-a pela mão. Lívia soube que estavam chegando à sala de jantar quando sentiu o cheiro.

— Você comprou comida?

— Sem perguntas por enquanto — Ela o ouviu arrastar uma cadeira, e deixou-se ser guiada para sentar. Gentil, ele removeu a venda.

Sobre a mesa, um jantar simples: quatro velas brancas em castiçais prateados, a louça fina — presente de sua avó, nunca utilizada — colocada com esmero sobre a toalha branca, uma garrafa de espumante num balde de gelo.

— Que lindo — disse ela.

— Pode perguntar agora — disse Marco sorrindo, estendendo a ela um guardanapo.

Ela suspirou, e só então percebeu que estava tensa. Respirou fundo.

— O que estamos comemorando?

— Primeiro, quero agradecer a você pela paciência — disse ele. — Seis meses não são muito tempo, mas quando se está desempregado, podem ser uma eternidade. E você nunca reclamou, nem uma vez, de quando eu ficava em casa sem fazer nada.

— Não é verdade que você ficava sem fazer nada. Estava escrevendo.

— Eu sei. Mas houve momentos em que eu pensei em desistir de tudo e arranjar um emprego qualquer.

— Você não é homem de um emprego qualquer.

Marco sorriu. Nunca pareceu mais bonito a ela do que naquele momento. Nem no dia de seu casamento.

— Nem de uma mulher qualquer — falou.

Ele estendeu a mão por sobre a mesa, e ela a pegou.

— A comemoração também é por uma boa notícia –— continuou. — Meu livro foi aceito pela editora. Eles adoraram, na verdade. Vou ser publicado!

Agora eles ficaram em pé, e o abraço virou um giro, uma dança, e uma confusão de beijos.

Sentaram de novo, olhos nos olhos, suados e excitados. Ela não sabia o que dizer, mas sentia que não precisava. Mesmo assim, disse:

— Eu te amo, Marco. Queria que a mamãe estivesse aqui para te ver — disse Lívia, os olhos úmidos. — Ela sempre acreditou no teu sucesso.

— Eu sei — disse ele. — Sinto falta dela também. Mas…

Ele ficou de pé num pulo, ajeitou o guardanapo sobre o braço direito e, numa imitação pobre de garçom de filme, começou a falar, num sotaque francês fajuto:

— A vida segue, mademoiselle, e para hoje, teremos carne ao molho madeira, arroz de forno, batata recheada e salada verde. Para beber, um bom espumante comprado no mercadinho da esquina.

Lívia riu e bateu palmas. Aquele não parecia ser o Marco que deixara em casa de manhã. Estava leve e feliz, e parecia mais jovem. Talvez por ver seu sonho se realizando.

— Estou feliz, meu amor — disse, como se lesse seus pensamentos. — Agora sou um escritor! O Renato disse que a publicidade vai ser intensa, e que pelo menos três grandes livrarias já se interessaram pelo livro.

Lívia bateu palmas mais uma vez. Após servir o jantar, ele levantou e foi até o aparelho de som.

— Vamos jantar ao som de Djavan.

— Te amo — sussurrou ela, jogando-lhe um beijo. — E parabéns.

 

*   *   *

 

O jantar e o clima transformaram-se numa noite memorável. Ao final, com os dois deitados juntos, exaustos, Lívia perguntou:

— Qual eles decidiram publicar?

— O do professor – respondeu Marco.

— Esse? Justo o que eu achei que tinha os personagens mais rasos?

— Esse mesmo. Mas eu andei revendo algumas coisas e, no mês passado, reescrevi-o quase todo, com uma ajudinha do Russo.

— Como assim? Você andou lendo Oniyazov?

— Li “As Pontes de Leningrado” e “Expresso da Neblina”. Fiquei encantado com a construção de personagens. E os diálogos? Deus, quando terminei de ler, fiquei me sentindo um idiota!

Ela riu.

— Você não é ruim. Só precisava de experiência. Ninguém emplaca de primeira.

— Exatamente esta a questão, meu amor: experiência! Li uma entrevista dele em que diz que “nenhum escritor pode ser verdadeiro, a não ser que experimente verdadeiramente do que escreve”. Daí eu fiquei: acho que ele tem razão! Reli minha história e vi que você também estava certa. Meus personagens careciam de profundidade, de realidade. Foi quando decidi fazer um laboratório.

— Como assim, um laboratório?

— Bom, no livro, o Tomás é professor, certo? Passei dois meses entrando nas turmas de 3º ano do Juvenal como ouvinte, observando tudo, conversando com professores e alunos…

— Quando?

— Janeiro e fevereiro.

— E você não me disse nada…

Ele a abraçou.

— Era para ser uma surpresa. Não fique chateada comigo.

Ela fez que sim, mas aquilo era estranho.

— Foi legal?

— Foi ótimo! Deu para sentir a pressão, e esse lado da vida de professor. O que deu para viver, eu vivi, e reescrevi o Tomás com base nessa experiência. De repente, ele tomou forma e profundidade. Ele existia!

— Mas o Tomás também não é… — disse ela, levantando as sobrancelhas.

— Um psicopata assassino? Sim, sim.

— Como você fez com essa parte?

Ele sentou, apoiando as costas na parede.

— Marco? Como você fez? Eu preciso ficar com medo?

— Não, não — disse ele, rindo. — Vi filmes, documentários, entrevistas… Passei umas tardes no São Vicente de Paulo, conversei com alguns psiquiatras e pacientes…

— E foi o suficiente para ter a “experiência Oniyazov”? – perguntou ela.

— Digamos que sim — respondeu. — Mas isso é bobagem. Venha, vamos dormir.

 

*   *   *

 

Marco dormiu a noite inteira, mas Lívia viu o dia amanhecer.

Levantou, cansada e dolorida. Tomou um banho, mas a água fria não ajudou. Não conseguia tirar da cabeça as declarações do marido sobre o método Oniyazov.

“Experimentar para escrever.”

Assustador. Precisava ler o livro de Marco, ver que mudanças fizera, ou se houvera alterações significativas na história.

Estava se vestindo quando o ouviu dando descarga.

— Você está bem? — perguntou ele, abrindo a porta do banheiro.

— Não dormi muito esta noite — respondeu. — Acho que vou ligar para o escritório e dizer que vou ficar em casa.

— E vai ficar tudo certo?

— A Tânia está lá, ela ajeita tudo pra mim.

— Não, sua boba. Perguntei se vai ficar tudo bem com você.

Ela sorriu e fez que sim.

Ele fechou a porta do banheiro, ligou o chuveiro e começou a cantar.

 

*   *   *

 

Lívia esperou meia hora depois que ele saiu para ligar o computador. Procurou em “Documentos” e, na pasta “Livros”, encontrou o que queria.

“O Professor, rev. Oniyazov”.

Sentiu-se culpada por estar fazendo aquilo daquele jeito, mas precisava saber se aquele ainda era o Marco que conhecia e amava.

Trêmula, abriu o arquivo e começou a ler.

 

*   *   *

 

Marco chegou no fim da tarde. Lívia esperava por ele no sofá, uma almofada sobre as pernas. Estava pálida, os olhos inchados e com olheiras.

— Amor, está tudo bem? Você piorou? Por que não ligou para mim?

— Não, Marco — disse ela, a mão estendida à frente do corpo.

— O quê…?

— Eu li, está bem? Eu li!

— Leu o quê?

— Não se faça de bobo! Sou sua esposa, não minta para mim!

— Lívia, por favor, me desculpe, mas não estou te entendendo…

— Você mentiu para mim, Marco! Mentiu, mentiu, mentiu!

Ele deu um passo adiante, mas ela tirou uma faca de cozinha de sob a almofada.

— Não se aproxime!

Ele se afastou e ficou de pé no centro da sala.

— Seja o que for, eu posso explicar — disse.

— O livro! — ela respondeu. — Parece que foi escrito por outra pessoa, mas eu sei que foi você. Eu te reconheci no Tomás. Vocês são idênticos!

— Livinha, você está exagerando. O Tomás é um personagem de ficção…

— E a Susana? Tão parecida comigo…

— Você está projetando…

— Não venha com essa baboseira psicológica para cima de mim, Marco! Eu sei o que você fez!

Marco sentou no outro sofá, cruzou as pernas e sorriu.

— E o que você acha que eu fiz, Lívia?

Ela começou a chorar.

— O método Oniyazov…

Ele fez que sim.

— Continue — disse.

— Você entrou em sala de aula, conversou com professores, visitou manicômios, conversou com médicos e loucos… mas não foi só isso, foi?

— Claro que foi, amor…

— Não minta para mim! Não me faça de boba! Diga, quem você matou? Quem foi?

— Eu não matei ninguém. Foi só pesquisa, e…

Ela gritou e pulou do sofá, a faca apontada para ele. Marco, com um soco, derrubou-a no chão.

Ele ficou de pé e chutou a faca para longe, montando sobre ela. Segurou seus pulsos, mas ela já não oferecia resistência.

— Matei nosso cachorro — disse ele. — Depois, um mendigo. Degolei um menino que tentou me assaltar e, depois de tudo isso, envenenei sua mãe.

— Não…

— A primeira, como dizem, é a mais difícil. Depois, eu nunca gostei de sua mãe. Nem ela de mim.

— Marco, não…

Ele a socou com força no lado do rosto, e ela desmaiou.

 

*    *   *

 

Lívia acordou no hospital. Estava presa à cama, sentindo o lado do rosto latejar. Tentou falar, mas não conseguiu.

— Fique tranquila — disse Marco, sentando do lado dela na cama. — O ladrão fugiu assim que entrei. Ele quebrou sua mandíbula e, na queda, você bateu a cabeça e teve uma concussão. Não vai poder falar por alguns dias.

Ele tentou beijar sua testa, mas ela afastou a cabeça.

— Tente cooperar — disse ele, sussurrando em seu ouvido. — Eu te amo, e preciso de você. Jamais te faria mal, mas … vamos, fique comigo, ajude-me, seja a esposa feliz de um escritor famoso! Você mesma disse que o livro era bom!

Ela fez que não. Com a ponta do dedo, Marco tocou no inchaço de seu rosto e apertou. Ela gemeu, um grito sufocado.

— Lívia, não me force a fazer o que não quero!

Ela se negou mais uma vez.

— É uma pena — disse ele, levantando da beira da cama e pegando uma almofada de sobre a poltrona no quarto. — Eu te amava muito.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.