“Assassinatos na Rua Morgue” de Edgar Allan Poe

Há quem diga que norte-americanos não escrevem bem, há também quem grite isso aos quatro cantos do planeta e cite Lovecraft como exemplo, mas não há indivíduos que já leram Poe e falem uma frase tão geral que beire a ignorância. Poe é hoje conhecido como um dos grandes da literatura universal, o que não é exagero falar, visto a sua universalidade ao escrever. Dentre suas obras, adorei ler uma que – coincidência ou não – é a que os apresentarei.

“Assassinatos da Rua Morgue e Outras Histórias” é um livro de contos de Edgar Allan Poe que reúne, dentre outros textos, “O gato negro” – um dos seus contos mais famosos com efêmera composição no terror – e o célebre texto que dá nome ao livro. A obra reúne alguns – seis, para ser exato – contos do autor e demonstra sua versatilidade enquanto escritor. Ao longo de cento e algumas páginas, você se horroriza, ri, reflete, aterroriza, sorri e entende o porquê de Poe ser aclamado como um dos grandes . As seis histórias não possuem ligação entre si, porém envolvem o leitor de forma peculiar/particular.

O primeiro “conto” do livro é o “Demônio da Perversidade” – usei aspas por conta da polêmica acerca da sua classificação. É um texto que se inicia com um forte caráter de ensaio e, ao longo da leitura, se caracteriza como o que muitos identificariam como um conto. Retrata com fidelidade o intimismo de alguém que se importa deliberadamente com o exterior e revela ao final do texto uma motivação para seu título, no mínimo, interessante. Encontrei meu demônio da perversidade, e creio que você encontraria o seu se lesse.

Logo após vem o conto “Hop-Frog ou Os oito orangotangos acorrentados” – um título que, admito, não me disse muito o que esperar da leitura. Nele, Poe apresenta ao bom leitor sua versatilidade e, para os que sabem se adaptar a leitura, demonstra seu lado humorístico. O autor explora também a capacidade de você se perguntar o que ocorrerá na trama e, mesmo sendo simples, não conseguir prever. É evidenciado também, a capacidade do autor de (sub)escrever tensões que muitos não compreendem, todavia que não implicam em nenhum problema na leitura.

O terceiro conto é “Os fatos que envolveram o caso de Mr. Valdemar”. Uma história enigmática e que, ouso dizer, incomoda o senso comum de muita gente. Dois homens fazem um acordo onde um teria o direito de hipnotizar o outro no seu leito de morte. A partir daí a trama se desenrola. O porquê disso? Por que não deixar os mistérios da humanidade quietos? – alguns serão envolvidos pelas dúvidas. Curiosidade, é a única justificativa na qual consigo pensar. Adianto que gostei bastante do conto e do ar de suspense/tensão/terror que apenas ótimos escritores conseguem desenvolver ao longo de um curto texto. Ao longo do texto a trama o envolve, e no desfecho… Digamos apenas que o autor é alguém que sabe surpreender.

“O gato preto” – preciso falar mais alguma coisa? O presente texto é o que muitos denotariam como uma das fontes para o terror que se produziu nas décadas e séculos após sua publicação. A história, repleta de inquietações, faz com que seus olhos sequer pisquem durante a leitura. A morte, maldição, atrocidades e obscuridades são temas de recorrência no texto, o que o incremente deliberadamente.

Logo em seguida, “Nunca aposte sua cabeça com o diabo”. O título, julgo, é o mais chamativo do livro e certamente em nada – ou pouco – decai em qualidade em relação ao clássico conto que o antecede. Neste relata-se a história de um sujeito que afogado numa certa mania/vício acaba que descobre o quão misterioso é o destino e a influência que nossas palavras têm sobre ele. Talvez a introdução do texto não soe tão atrativa para alguns leitores, contudo o desenrolar do conto convence de que unir cotidiano e horror/suspense é um acerto que poucos autores conseguem pôr em prática.

Por fim, o sexto e último conto que é apontando por muitos como um dos – ou “o” – mais importante(s) conto(s) de Edgar Allan Poe. Assassinatos da Rua Morgue, o conto, dá origem ao que seria a literatura policial e – usando um termo coloquial – “as histórias de detetives” tão exploradas no século XX. O conto possui como personagem central um francês Monsieur Dupin que apresenta um sistema próprio de dedução baseado na sua profunda capacidade de observação dos fatos. Um crime deve ser resolvido, e todo o desenrolar da história revela o quanto Poe influenciou – ou fundou – a ideia de contos policiais. Além de compor uma das origens deste segmento, se eternizaria como o percussor em muitos outros ramos da literatura, variando entre textos humorísticos, acerca de mistérios e até reflexivos – como já citado nesta resenha.

É notório, também, seu protagonismo nas origens da Ficção Científica, Terror, Suspense e, como citado, histórias misteriosas sobre crimes e fatos desconhecidos, o que por si só torna válida a leitura de “Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias”.

De muito falar de si esqueceu quem é, e transcreve os dados que encontrou: Admirador assíduo da fantasia inglesa, culpado por adorar o humor argentino, fã de Caetano e alguém que se sente velho apesar da idade. Não sabe o que essas informações podem oferecer a quem lê, mas sabe que escreve, pois só preso a isso consegue viver em liberdade.

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Conrado Franconalli

De muito falar de si esqueceu quem é, e transcreve os dados que encontrou: Admirador assíduo da fantasia inglesa, culpado por adorar o humor argentino, fã de Caetano e alguém que se sente velho apesar da idade. Não sabe o que essas informações podem oferecer a quem lê, mas sabe que escreve, pois só preso a isso consegue viver em liberdade.