Vem na cor preta?

Tio Virso, você vive falando de filme de herói, mas qual é o seu favorito?

Três meses escrevendo essa coluna, e só agora que vou falar de Batman Begins. Até que eu me segurei por bastante tempo.

Já falamos sobre Batman & Robin e como Joel Schumacher pegou a cronologia iniciada por Tim Burton em 1989, dirigiu com ela até um precipício e enfiou o pé no acelerador. Quando os rumores de um novo filme do homem-morcego chegaram à superfície, o ceticismo prevaleceu na nerdosfera. Como poderia ser bom depois de tudo? A descrença não nos impediu de acompanhar cada passo da produção. Eu acompanhava religiosamente certo portal geek na época, buscando notícias semana a semana – site esse que hoje serve de modelo para mim, modelo de como não escrever críticas de filmes.

Mas Christopher Nolan fez o dever de casa. As pouquíssimas notícias que vieram à tona ao longo do processo de produção eram difusas; as imagens, ruins e pouco reveladoras. O primeiro trailer parecia mais com Sete Anos no Tibet que com um filme de ação. O “batmóvel” parecia um tanque de guerra alienígena. Assim, quando finalmente tivemos a obra finalizada diante de nós, em 2005, aspiramos a fumaça da flor azul e fomos pegos de surpresa.

A trama? Como a de qualquer filme do Nolan, é um produto simples num pacote elaborado. Ainda jovem, Bruce Wayne, herdeiro de uma família riquíssima da cidade de Gotham, perde os pais em um assalto. Incapaz de obter vingança, ele parte numa busca pessoal para entender três valores fundamentais: o medo, o mal e a justiça. Em sua jornada, ele é treinado pela Liga das Sombras, terroristas que planejam purgar o mundo do mal destruindo seu maior símbolo de decadência: a cidade de Gotham. Ele diverge da visão da Liga, volta a sua cidade, assume a persona de um vigilante noturno e confronta seus antigos mestres em uma batalha pelo destino da cidade. Ao longo de sua busca, ele é auxiliado por duas figuras quase paternais: o mordomo Alfred, que apoia em todos os momentos, e o funcionário das Empresas Wayne Lucius Fox, que o supre com os equipamentos necessários para que se torne Batman: uniforme, armas, um veículo. O vilão máximo também é, de certo modo, uma figura paterna: Ra’s al Ghul.

O importante, claro, não é a trama genérica, mas o tratamento. Nolan dirige Batman Begins como uma mistura de drama, documentário e épico, e o trabalho dos atores, bem como o design de produção, refletem isso. A textura gótica de Burton e as luzes de Schumacher dão lugar ao “anti-fantástico” de um mundo anguloso, úmido e claustrofóbico, no qual heróis e vilões parecem tão deslocados quanto pareceriam no nosso. Gotham é uma mistura de Kowloon e Nova York nos anos 90, o uniforme do Batman é um traje militar, o batmóvel é um tanque e não faltam explicações sobre os aspectos práticos dos itens empregados ao longo da história. As falas de Lucius Fox, aliás, são dignas de um vídeo instrucional.

Ao mesmo tempo, o filme é carregado de simbolismos e vaguezas geográficas e conceituais, com direitos a flashbacks, imagens de sonho e um templo encravado no topo do Himalaia. O resultado é uma mistura balanceada de alegoria, realismo fantástico, iconografia noir e filme de ação, ou, parafraseando o crítico Mark Kermode: um filme de arte disfarçado de blockbuster.

Pode parecer uma comparação estranha, mas Batman Begins é muito parecido com o Superman que Richard Donner apresentou ao mundo em 1978:

  1. A narrativa de origem não existe só para explicar a existência do herói, servindo de prólogo para um confronto com o vilão da vez. A origem é o tema central, e os vilões estão costurados nesse tema.

  2. O herói, em sua glória uniformizada, demora a aparecer. Na primeira parte do filme acompanhamos a história de um homem que ainda não sabe o que é, tentando compreender a si mesmo. Quando ele aparece fantasiado pela primeira vez, há um orgasmo narrativo, depois de muita titilação.

  3. Assim como o mote de Donner em Superman era “Você acreditará que um homem pode voar”, Nolan quer apresentar um Batman possível. “Realista” não é a palavra; ele é crível. Ser crível, o torna identificável. Assistir suas perdas é comovente, acompanhar seu triunfo é reconfortante.

  4. Justamente por isso, embora seja um filme de super-herói, o drama é tão envolvente quanto a ação.

As interpretações merecem louvor à parte. Christian Bale certamente dá conta dos três papéis que precisava desempenha (Batman, Bruce Wayne de verdade, Bruce Wayne de mentira), mas este é um filme que reúne Morgan Freeman, Gary Oldman, Michael Caine, Rutger Hauer, Cillian Murphy e Liam Neeson. Notem que este não é um elenco de astros “de ação”, mas atores que você levaria a sério em qualquer outro gênero. Muito já foi dito sobre como Katie Holmes, egressa do drama televisivo adolescente Dawson’s Creek, não consegue carregar o papel de par romântico do herói ou de se apresentar convincentemente como uma mulher forte e decidida. Pessoalmente, eu acho que ela não faz feio diante do elenco com o qual precisa contracenar, ainda que o papel de consciência do herói a limite consideravelmente. Personagens femininas sempre foram um ponto fraco do cinema nolaniano.

Fora a mise-en-scène maravilhosa, meu ponto favorito é certamente a relação herói/vilão. Ra’s al Ghul é o que Batman seria se levasse suas intenções e métodos às últimas consequências. Os dois são reversos da mesma moeda e falam sobre como a diferença entre bem e mal pode ser meramente uma questão de dosagem. Os melhores filmes de super-herói sabem lidar com esse tema de forma elegante: o primeiro Homem de Ferro e Doutor Estranho são ótimos exemplos também.

O terceiro ponto que me fascina é certamente a positividade subjacente às tragédias que fazem fila. Alfred ressalta: sempre que caímos, é para que aprendamos a nos levantar. Há algo de belo e universal nessa atitude. Como humanos, estamos sempre confrontando a verticalidade, tentando escalar para fora do buraco. Alguns heróis, os incorruptíveis, se afirmam por não cair jamais, outros por andar constantemente nas bordas; um terceiro grupo aceita a queda, e é isso que torna a ascensão posterior tão triunfal.

As considerações.

Melhor citação: É doloroso para mim escolher uma só, mas ficarei com “Teatralidade e ilusão são armas poderosas. Você deve se tornar mais que um homem na mente de seu oponente.”

Maior pró: a mise-en-scène mais impressionante que já vi em um filme de super-herói.

Maior contra: a performance de como Rachel Dawes.

Minha avaliação pessoal: 5/5

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

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Vilson Gonçalves

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.