Fora, Temer!

Em 2014 comprei um belo cachorrinho de pelo vermelho, o Dimas. Ao comprá-lo me ofertaram uma estranha garantia.

– Garantia para cachorro?

– Sim. – Disse o vendedor e me explicou. – Funciona assim, se seu cachorro morrer, você ganha outro de graça!

Impressionado e assegurado, comprei Dimas. Muito confuso esse Dimas era, fazia muita besteira, mas era quase gente, e gente boa. Não que ele fosse perfeito, não era. Se fosse perfeito não seria um cachorro. Apesar do trabalho, ele me fez companhia. Morreu dois anos depois no cruzamento da rua PM com a rua DB. Atropelado pelo caminhão desgovernado de um lava-jato, pilotado por um rapaz embriagado.

Fiquei triste com a perda, mas não me deixei abalar. Fui atrás do meu seguro e logo acolhi o pequeno Temer.

Mas Temer, ao contrário de Dimas, não tinha personalidade. Ficava no canto da casa, me observando como um Nosferatu, esperando para sugar-me o sangue. Era assustador. Seus olhos fundos, seu pelo cinza, meio caído. Sua postura austera me lembrava uma múmia, parecia alguém morto por dentro, lutando a cada segundo para demostrar o contrário.

Ele sempre estava a espreita e, perdoe-me a neurose, parecia ter um grande plano maligno.

– Fora, Temer! – eu gritava, quando ele me incomodava.

O problema é que ele sempre estava lá, esquisito, a espreita.

– Fora, Temer! – Gritei, quando ele rasgou meus livros. – Porra, cara, como é que eu vou estudar agora?

– Fora, Temer! – Gritei, quando ele derrubou meus remédios e cagou sobre eles.

– Fora, Temer! – Gritei, quando ele mordeu meus amigos.

Cansei de trancá-lo fora de casa e gritar, assustadíssimo, quando e aparecia de repente, num canto, me observando, planejando o mal.

Desisti. Amarrei Temer numa coleira e fui até a loja, devolvê-lo. Enquanto eu ouvia as palavras do vendedor, o animal vampiresco me encarava.

– Olha, amigo, você assinou um contrato. Leva um e recebe o outro. Fim. Não tem essa de devolução.

Desesperado, voltei para casa e no meio do percurso decidi deixar abandonar o animal em outra cidade. Viajei por longas horas, perturbando com o bicho que me encarava no banco de trás. Só de olhar para ele eu podia ouvir uma sinfonia pesada, perturbadora e ao mesmo tempo frágil.

 

Dirigi de volta feliz, prometendo a mim mesmo que leria melhor o contrato da próxima vez e meio sabendo que não cumpriria a promessa. Ninguém lê os contratos. Cheguei, abri a porta de minha casa e vi tudo destruído, Temer havia voltado.

Respirei fundo.

– Fora, Temer!

Temer olhou para mim, sorriu seu sorriso vampiresco e disse:

– Não.

Nasceu em 1995. Teve uma infância feliz, rodeado de amigos e videogames. Aos 12, caiu do telhado após brigar com o pai por não querer estudar literatura. Ganhou uma cicatriz triangular na mão direita e se apaixonou por Machado de Assis. Decidiu ser escritor e hoje cursa o oitavo semestre de Ciências Biológicas.

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Nasceu em 1995. Teve uma infância feliz, rodeado de amigos e videogames. Aos 12, caiu do telhado após brigar com o pai por não querer estudar literatura. Ganhou uma cicatriz triangular na mão direita e se apaixonou por Machado de Assis. Decidiu ser escritor e hoje cursa o oitavo semestre de Ciências Biológicas.

  • Davenir Viganon

    Só sei que o cãozinho Temer tava envolvido na morte do cãozinho Dimas, afinal foi nesse cruzamento das ruas PM com a DB que o Temer se criou né?!
    se é que você me entende 😉