6ª Carta

6ª Carta – 12 de outubro de 1969

 

Dona Dinda,

Eu não sei como iniciar esta carta. Explicar meu silêncio por tantos dias seria um bom começo? Estive até ontem na enfermaria do quartel. Adoeci seriamente, mãe. Contraí leptospirose. O cubículo no qual me mantiveram preso não era um dos lugares mais asseados do mundo. Primeiro, vieram as náuseas e as dores nas costas; depois, a diarreia e a febre. Em duas semanas, cheguei a melhorar e quase tive alta. Mas uma piora repentina em meu quadro quase me submeteu à forma mais agressiva da doença. Houve uma madrugada em que, por pouco, não morri. O ar petrificado em meus pulmões, a calma antes do derradeiro sono. Como foi decepcionante acordar no dia seguinte! Tenho o hábito de sobreviver. Deve parecer-lhe milagre o que vejo como maldição.

Mãe, eu tenho mesmo tanta sorte? Por que ainda não fui severamente torturado? Sei que tive meu banho de sol prolongado e não me esqueço da coronhada em minha boca. Mas aqueles caras podem fazer melhor. Eu guardo segredos, nomes, telefones, endereços. E eles sabem. Meu estado atual é pura cortesia perto daquilo que realmente podem me causar. Aqui, tenho escapado da dor e da morte com uma frequência incomum, da qual mais ninguém goza. Ontem, eu descobri a razão de ainda não terem me apresentado ao pau-de-arara.

Major Campos. Paulo Campos. Quando ele entrou na enfermaria e pediu a um cabo pra ficar sozinho comigo, não me senti intimidado. Aquele rosto… Foi como se eu ganhasse um presente de Dia das Crianças. Tão familiar! Um tio? Não. Ele não me fez lembrar de seus irmãos. Na verdade, ele se parece comigo. Ou eu pareço com ele. Não é mesmo, mãe? Por que nunca me disse? Sou filho de um militar. A senhora deve ter nascido pra ser comandada, dona Dinda. Primeiro, por seu pai e por seus irmãos. Depois, por seu amante e por seu deus. Talvez por isso eu lhe causasse tanta angústia, por jamais ter querido ser um de seus senhores.

Meu pai é o inimigo, mãe! Vocês tomavam café juntos enquanto eu estava na faculdade? Ele mandava algum dinheiro e, em troca, ganhava informações privilegiadas sobre meus hábitos? Conversavam sobre minhas companhias e ideias? O que a senhora fez, mãe? Se tiver me cabuetado, jamais voltarei a olhar na sua cara! Eu juro!

Ele disse que chegou a me visitar algumas vezes, ao menos até o dia em que foi presenteado com uma fotografia minha e convidado a nunca mais voltar. Eu vi o retrato. Ele leva a foto na carteira, como se me quisesse bem. Mas, não me lembro daquele homem. Quando ele ia à nossa casa, não brincava comigo? Não me levava pra jogar bola no campinho do aterro? Nunca me chamou por um apelido engraçado ou me levantou no ar apenas com uma das mãos? Mãe, como duas pessoas tão diferentes podem ser tão parecidas? Meu espelho. Meu inverso. Ele não é casado e também não tem outros filhos. Falou que foi mandado embora. Por que a senhora o rejeitou e me convenceu de que ele tinha outra família? Queria me manipular com seu suposto abandono? Me levar no bolso como subproduto de sua tacanha fé? Eu precisava saber! Se eu já soubesse, não estaria tão perdido. Ter me escondido a verdade por tantos anos me deixou desarmado diante do homem que, de olhos marejados, pediu pra salvar minha vida. O sonso!

Major Campos garantiu minha integridade física e mais liberdade dentro do quartel. Também me prometeu consertar meus dentes, uma cama com travesseiro e algo pra ler. Pedi que me trouxesse Grundrisse. Com precisa atenção, anotou o nome do livro em uma cadernetinha preta, muito bem conservada. Estúpido! Não encontrará nenhum exemplar bem ali, na Feira do Livro. Espero que descubra ao menos o nome do autor e se enfeze com minha malinação.

Ele quer me transformar em um delator, mãe. Meu pai não sabe quem sou. Se soubesse, jamais me pediria algo assim. O major realmente acredita que eu trocarei a segurança de meus correligionários por um sorriso novo e três refeições por dia. Fingi concordar, mas impus condições ― a fim de tornar meu teatro mais convincente. Quis saber como estão meus cães e pedi por sua alta do hospício. Diligente, ele bateu com o quepe em minha perna e garantiu o bem-estar dos cachorros. Depois, visivelmente incomodado, negou-se a encontrá-la e me assegurou que o Asilo dos Alienados é o lugar mais seguro do mundo para a mãe de um insurgente. Estava mordido. A simples possibilidade de tê-la diante dos olhos arruinou sua postura exageradamente serena.

Não sei. Há muito mais entre a doida e o major.

A partir de amanhã, me tornarei intocável. Os outros prisioneiros suspeitarão de minhas regalias e me tomarão por canalha traidor. É o preço que terei de pagar até descobrir um modo de tirar proveito deste engodo sem prejudicar meus companheiros. No que a senhora me entrançou quando entregou aquela foto ao meu futuro carcereiro? Ver meu rosto se transformar, com o passar dos anos, no do responsável por sua ruína não deve ter sido fácil. Quem é aquele homem, mãe? Quem sou eu?

O que fez a todos nós, sua maldita louca? O quê?

 

De seu menino torto,

Cazé

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

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Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.