O Recanto dos 3 Pintos

O primeiro filho do velho Pedro Pinto nasceu às 3 da tarde de uma terça-feira do ano de 1900, numa casa pequena em um terreno de 600m2, número 33 da Rua dos Reis Magos. Os outros dois vieram em intervalos de 3 anos.

3 homens: Paulo Pinto, Pablo Pinto e Pedro Pinto Júnior, respectivamente. O último, carinhosamente apelidado de pintinho.

A história da família Pinto é complicada e cheia de contas para se entender como tudo funciona. Mas vamos lá. Fique atento.

Quando os irmãos Pinto já eram adultos com seus próprios filhos e problemas, o patriarca da família morreu, às 3 da manhã de uma terça-feira de março. Ele tinha acabado de completar 60 anos. Era muito para aquela época. Os filhos tinham então, 39, 36 e 33 anos e um terreno de 600m2 de herança na 3ª região mais valorizada da cidade, na época.

Após 3 dias pensando, os irmãos decidiram não vender o terreno, mas construir, eles, um prédio para morarem com seus filhos e netos, já que era uma região tão nobre da cidade. E, assim, manteriam a família unida.

Os 3 irmãos tinham, respectivamente, 9, 6 e 3 filhos. Alguns já quase adultos. Alguns tinham acabado de chegar ao mundo.

O plano era 3 apartamentos de 90m2 cada, por andar. Dez andares. 30 apartamentos. 3 para eles. 18 para os filhos e 9 que ficariam à espera da 3ª geração de Pintos.

Por 3 anos, eles planejaram. Por mais 3 anos, juntaram o dinheiro necessário. Por 3 anos trabalharam no prédio nos finais de semana, nas folgas, quando desse.

Tinham finalizado o terceiro andar quando o terceiro filho do senhor Pedro Paulo morreu durante a epidemia de gripe de 1949. O Pintinho, ou Pinto Júnior, como chamavam poucos, morreu aos 43 anos ao atingir incríveis 43° de febre. Seu pau, que já de nada servia, contrariando todas as chacotas, tinha incríveis 23cm. A viúva, inconsolada, morreu com trinta e poucos, 3 meses depois.

Por 3 anos a obra ficou parada. Retomaram. Trabalharam por mais 3 anos. Até que em 1956, no 3º pior acidente de bondinho da história do país, morreu o irmão do meio aos quase 53 anos. A construção, mais uma vez, ficou 3 anos parada. Estavam no 6º andar.

Numa velocidade de um andar a cada 3 anos, Paulo Pinto trabalhou sozinho durante 6 anos. Duros anos. Caiu de uma laje, fraturou 3 costelas. 3 anos parado. Com a ajuda dos filhos e sobrinhos mais velhos, terminaram, 30 anos depois de começarem a planejar aquele poleiro familiar, um prédio impecável. Mas com apenas 9 andares. Já que a morte dos irmãos e de um dos sobrinhos tinha deixado apartamentos ociosos do plano piloto. E 9 andares era um número bom. Paulo Pinto tinha então 69 anos.

Acabamento perfeito. Bairro mais nobre da cidade. Todos mudaram para o prédio no número 33 da Rua dos Reis Magos. 23 apartamentos. Fizeram do 9º andar uma grande área livre. No oitavo, morava num apartamento palacial o velho Paulo Pinto, tendo em vista o quanto se dedicou por aquele prédio, era justo. Casa de avô, sempre cheia; 6 quartos, sendo 3 suítes.

Quis o destino que 3 dos filhos de Paulo casassem com 3 dos filhos do finado Pablo. E os 3 filhos do finado Pintinho casaram com outros 3 filhos de Paulo. Casar entre primos era algo comum na família. Um morava cuidando das 3 viúvas da família. E 3 ficaram solitários.

A chamada Segunda Geração de Pintos ocupava do sétimo ao quinto andar. E os netos (3ª geração), alguns já adultos, outros recém nascidos, somavam 23 Pintos; sento 13 pintos, 9 bucetas e um ser curioso que veio com a dádiva dos dois órgãos. Culparam o casamento entre primos por esse raro acontecimento.

Só que a 3ª geração de primos já começava a casar entre si, também. Estes foram ocupando o quarto e o segundo andar. Por algum motivo o 3º andar nunca foi ocupado. E virou um local sagrado para os primos descobrirem carícias e saciarem curiosidades na penumbra de um andar abandonado. E os primos iam casando entre si. Teve até um casal gay, na libertária década de 90. 6 ficaram solitários, um ficou para cuidar das viúvas. Sempre havia viúvas. Os Pintos morrem cedo.

A vizinhança começava a falar muito. Condenavam aquele estilo de vida em que todos os vizinhos tinham intimidade de entrar na casa uns dos outros. Inventavam histórias absurdas de que irmãos casavam entre si, etc.

Acontece que as fofocas quase não incomodavam os Pintos. Os Pintos eram ex-judeus, embora não soubessem ou ligassem para isso, e estavam sempre envolvidos com comércio. Então trabalhavam juntos, abasteciam-se nos comércios dos familiares, até o entregador de água era o filho mais novo do Pinto Mole (apelido adquirido pela notória preguiça do dono do armazém ‘3 Pintos’). Se iam viajar, tinha um Pinto que era agente de viagem. Se precisavam trocar carro, tinham um Pinto que vendia carros. Tinha Pinto médico. Pinto político…. Os Pintos só conheciam Pintos.

Alguns nasciam meio malucos. Não se sabia se era a loucura natural da família ou algo que foi evoluindo por conta dos casamentos consanguíneos.

Teve um Pedro Pinto de Pinto, vulgo, Pedro Dois Pinto. Sofreu muito na época da escola. Só não sofreu mais do que a Isadora Pinto.

Isadora casou com um dos descendentes do Pintinho. Ficaram íntimos no já famoso terceiro andar. Souberam que era amor durante um intenso 69. Isa, como era chamada pelos pais, realmente adorava pintos.

E em 1999, aos 99 anos, após morar no seu apartamento de quase 300m2 por 30 anos, morreu Paulo Pinto às 3 da tarde de uma terça-feira. Seu pau encolhera ao longo da vida. Devia tá com uns 6 cm. Que fim humilhante, desabafou a si mesmo ao tentar uma punhetinha aos 90.

E por anos uns morriam. Desocupavam apartamentos que eram ocupados pelos próximos primos que casassem após apaixonarem-se no abandonado 3º andar. E faziam tudo em família, as ceias de Natal eram espetaculares e demoravam até 3 dias para preparar tudo.

Hoje, 66 pessoas habitam os 23 apartamento do Recanto dos 3 pintos. Às vezes, brigam, mas se amam. Os vizinhos ainda contam coisas sobre o prédio do número 33.

“Ouvi falar que alguns nascem com 3 pintos. E se tentar cortar nasce mais 3 no lugar”.

Att, Thiago Noronha Pinto (tenho apenas um modesto pinto, mas compenso no 69).

Administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

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Thiago Noronha

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  • Kássia Lys

    Nossa!! Mt bom! 😀