Sobre crítica, adaptações e super-heróis

Esta análise será um pouco diferente, pois não tratará de nenhum filme, mas do exercício de se analisar um filme e tecer críticas, focalizando justamente esse objeto que tanto amo: o gênero super-herói. É possível que eu irrite pessoas, inclusive alguns amigos e conhecidos que considero muito, que fazem da crítica de livros, filmes e quadrinhos uma prática rotineira. Mas a discussão é bem importante.

Ao longo dos últimos dez anos os super-heróis tomaram o cinema de assalto. Paralelamente, os nerds tomaram a cultura pop de assalto. São fenômenos relacionados e intimamente ligados às possibilidades trazidas pela era do Youtube e do Twitter, uma era que permite a qualquer um com relativamente pouco equipamento se fazer ouvir/ler por milhares de internautas. E quando você descobre que tem voz, é natural que sinta a necessidade de usar a plataforma que possui para falar do que gosta e do que não gosta. Foi assim que a banca dos 12 críticos deu lugar à banca de um milhão de críticos. Os nerds sempre foram bons em assimilar novas tecnologias, então não demorou para que assumissem o leme.

Isso é bom, certo? Multiplicidade de vozes e diversidade de opiniões, muitos em vez de poucos. Bem, isso é ótimo, mas não ocorre sem um grande efeito colateral: o diletante. Sabe aquele cara que cresceu assistindo só um tipo de filme e de repente leu Sobre a Escrita ou The Hero with a Thousand Faces e passa a achar que sabe tudo sobre como narrativas devem ser? Então. Esse cara tem o hábito de ser injusto com obras que não apelam diretamente ao seu gosto. Quando ele vomita opiniões, forma opiniões, e logo estamos imersos em um mar de vômito opiniático.

Isso é um problema. Filmes Metropolis, Malcom X, Cidadão Kane e Drive tiveram sua cota de ódio por não serem avaliados de forma sensível. Como ser mais justo? Bem, espero que as reflexões a seguir ajudem.

  1. Gosto pessoal é a parte menos relevante de uma boa crítica. Pode doer no seu fígado ler isso, mas ninguém liga pros seus gostos pessoais. Quem lê uma crítica espera informações estruturais. Se você se resume a esculhambar um filme, pode estragá-lo para amigos/leitores com gostos diferentes do seu, que poderiam apreciá-lo. Críticas pautadas por gosto não são só inúteis: elas arruínam experiências.

  2. Filmes diferentes têm propósitos diferentes. Isso deveria ser óbvio. Batman: O Retorno é uma experiência estética sombria e irreverente, Homem-Aranha é uma aventura leve e Homem de Aço é uma alegoria. Não tente julgá-los pelos mesmos parâmetros, não os compare e não diga ao seu público que um é melhor que o outro. Pertencer ao mesmo gênero não significa seguir os mesmos preceitos. Bananas e melões são frutas, mas você não pode dizer que um melão é ruim por não ser bananoso o bastante.

  3. Linguajar é fundamental. Andamento. Mise-en-scène. Edição. Trucagem. Plongée. Tropo. Sem conhecer aspectos técnicos de um filme, fica fácil julgá-lo de forma genérica.

  4. Não seja pedante. Sim, eu sei que você conhece todas HQs do Homem-Aranha, mas isso não te dá o direito de desqualificar alguém que gostou de algo que te desagrada no filme. Filmes de super-herói não são feitos apenas para quem já conhece os personagens dos quadrinhos.

  5. Aliás, filmes não são livros/gibis. O livro/gibi não é melhor que o filme. Esse é fundamental. Eu sei que você ama quadrinhos e livros, mas o filme não tem nenhuma obrigação de ser uma reprodução fiel da mídia de papel. Já viu como era o uniforme do Capitão América nos filmes televisivos dos anos 90? Exemplo clássico do que acontece quando você busca fidelidade absoluta. Ver os velhinhos com barriga tanquinho no 300 de Zack Snyder é outro exemplo.

  6. O cineasta é um artista com uma própria visão, e pode ser que você não goste dessa visão, mas supere isso, p#rra. Pode ser que você não goste dessa versão da armadura do Homem de Ferro, ou da maquiagem do Oscar Isaac em X-Men: Apocalypse, mas analisar um filme requer que você pule pequenos incômodos. O que importa é o todo. Se o todo é incômodo, talvez aí você tenha liberdade para dizer o “esse filme é uma b#sta” que você tanto quer.

Como vou criticar então, tio, se você não me deixa usar minhas subjetividades arbitrárias e incoerentes?

Bem, existem, como disse antes, critérios técnicos. Dizer “Batman & Robin é um filme ruim porque combina piadas ruins, design excessivo, vilões ruins e uma carência de atores comprometidos” é diferente de dizer “Batman: O Cavaleiro das Trevas é ruim porque não é o meu Batman”. Filmes são trabalhos artísticos. Eles podem ser muito importantes para muitas pessoas. Avaliá-los não é algo que deveríamos fazer de forma descuidada.

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

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Vilson Gonçalves

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.