A última noite – Parte 1 – A Essência

Dessa vez vou desviar um pouco dos “Contos de um novo mundo” que vinham sendo postados. Essa é a primeira parte de cinco de uma fantasia urbana que escrevi há algum tempo.

Confira a parte 2 – O Velho e os Olhos

Confira a parte 3 – Caça e caçador

Confira a parte 4 – O início e o fim

Confira a parte 5 – O escolhido

 


 

Nós sabíamos que era arriscado, mas isso é loucura. Estamos cercados e vamos morrer. Rafael acabou de absorver a essência e não está apto para lutar. Ainda mais depois de fazer o prédio voar pelos ares com aquela magia. Isso não pode acontecer, nós somos descartáveis, ele não. Fodemos tudo.

Dava para ver a lua através do buraco no teto, cheia e brilhante, capaz de iluminar o prédio destruído.

Não perca sua fé Tiago! – disse Rafael, sempre esqueço que ele é capaz de ler pensamentos.

Nós falhamos com você, cara. – respondeu Maria, ela sabia o que se passava na minha cabeça, não como Rafael, mas por partilhar da mesma culpa.

Ainda podemos sair dessa. – insistiu Rafael, destemido.

A magia em minha visão cortava a escuridão da noite como se um sol iluminasse aquele lugar. Podia ver aqueles malditos olhos vermelhos me encarando de volta, tentando, em vão, se esconder entre os escombros. Milhares. Uma quantidade que nem sabia ser possível de juntar. Na verdade, sequer precisaria enxergar para saber que estavam ali, o fortíssimo odor de enxofre de seus corpos seria perceptível mesmo para os Cegos.

Os humanos normais eram incapazes de ver como nós, Despertos. Mesmo depois da imensa destruição que causamos nesse prédio, além do Véu seria apenas uma explosão de gás ou desabamento por falha na estrutura. Isso se a violência do embate fosse suficiente para romper para o tecido da realidade.

Como ele conseguia manter a esperança diante disso? Sei que é especial, “o escolhido”, mas dessa vez estava além de suas capacidades. Era uma armadilha e funcionou muito bem.

Eu sei, Tiago. – respondeu ao meu pensamento.

Vá Rafael, destrua a parede a nossas costas e fuja, cobriremos sua fuga o máximo que pudermos. Serão poucos segundos, mas pode surgir uma chance. – disse Maria.

Não entendi por que eles hesitavam, um avanço e era o nosso fim, tínhamos que usar isso a nosso favor.

Não vou deixá-los aqui pra morrer como os outros, já tem muito sangue nas minhas mãos.

Porra Rafael! Essa é nossa escolha, nossas vidas, nossa função! Escuta a Maria e sai daqui agora, se tu morrer quanto tempo acha que a gente vai ficar vivo?

Ele olhou para mim com olhos chorosos, a dor e a culpa eram tão pungentes que eu era capaz de senti-las como se fossem minhas, e, de certa forma, eram. Maria já tinha tomado a frente, acompanhei seu gesto. Pude ver os corpos magros de nossos inimigos se eriçando como um animal prestes ao ataque. Que raiva morrer para míseros diabretes. Míseros milhares de diabretes, com suas pequenas garras, dentes e chifres. O cheiro que exalava do muco vermelho em sua pele escamada tornava o ar viciado e sufocante.

Encarei Maria, que fez um pequeno aceno com a cabeça, sua pele negra estava cheia de marcas vermelhas dos cortes, as pequenas tranças de seus cabelos cobertas de muco de enxofre, mas, ainda sim, ela mantinha seu olhar firme. Segurei minha espada, apertei o cabo com tanta força que quase cortei a circulação. Maria empunhou suas armas. Avançamos para o inimigo num ímpeto de morte, uma última investida, pude ouvir o sibilar como se estivesse em uma sala cheia de cobras peçonhentas.

Me desculpem. – disse o escolhido a nossas costas. Foi a última coisa que eu ouvi.

Algumas horas antes…

A gente precisa mesmo ir pra esse lugar? – questionou Maria.

Não somos obrigados a nada. O Velho disse que aquela era a Essência mais poderosa da cidade, e nem está tão protegida. Depois disso poderei caminhar mais longe, talvez para outro estado ou até mesmo outro país. Nunca é fácil. Mas é necessário.

Não cheira bem Rafael. – disse Paulo.

Ninguém é obrigado a me acompanhar. – retrucou Rafael.

Não seja assim cara, sabe que a gente vai até o inferno contigo, só acho que esse passo pode ser muito longo. – respondeu Paulo.

O silêncio pairou no ambiente por alguns instantes.

Me desculpem. Entendo o receio de vocês. Mas, a cada dia, sinto que eles podem me ver melhor, me localizar com mais facilidade. Se não ficar mais poderoso, tudo pode acabar.

Sabia que aquilo era inútil. Rafael meramente nos informava do que seria feito e não voltaria atrás. Sem falar que íamos apenas adiar o inevitável, esse tipo de confronto aconteceria cedo ou tarde. Rafael acenou a cabeça para mim confirmando meu pensamento.

Foi dica do Velho? Então acho que a gente pode finalizar esse debate tolo e seguir para parte de como faremos? Todos sabem que Rafael é responsabilidade dele, então a indicação deve ser quente. – falei pro grupo de pessoas naquela sala mal iluminada do centro de Fortaleza.

Jonas e Marcelo observavam tudo em silêncio como de praxe, nunca contestavam as decisões de Rafael. Maria e Paulo desempenhavam essa função com frequência, sempre em vão. Nosso jovem líder era impetuoso.

É para ser um trabalho simples, porém perigoso. É entrar, pegar a essência e sair. – explicou Rafael para o grupo.

E qual o grande porém? – perguntei.

O prédio é deles! – disse Maria, seca.

Você quer entrar num prédio dos demônios? Para roubar uma essência? – questionei.

A Essência! E não é uma das grandes fortalezas. Segundo o Velho, é um posto avançado, haverão guardas, mas não esperam esse tipo de ataque. É entrar, pegar e sair.

Entrar, pegar e sair. Repeti em minha cabeça, tentando me convencer daquele absurdo.

***

Estávamos de frente ao local. O cheiro do mar era agradável, vinha com a brisa direto do oceano, parecendo encobrir a pestilência que devia emanar daquele lugar. Para as pessoas comuns, aquele era apenas mais um dos galpões próximos à Praia de Iracema; para nós, era um prédio de três andares, com uma luz esverdeada que emanava dele, e símbolos antigos de línguas perdidas marcando as paredes, indicando que ali era terra dos Daemons. Era até pequeno se você levar em consideração os arranha-céus ao redor dele. As coisas eram diferentes além do véu.

O que você consegue ver, Tiago? – perguntou Rafael.

Concentrei-me por alguns segundos, olhei para o prédio, minha visão cortou a distância como se olhasse por um binóculo. Mas meu poder ia além disso, enxergava através das paredes, via o prédio como quem olha um esquema em três dimensões translúcido.

Tem quatro guardas no térreo, mais dois no primeiro e no segundo andares. Pelo porte físico devem ser Behemoths. Tem uma sala no andar subterrâneo que meu olhar não quebra a parede, algum selamento bloqueia, deve ser o nosso lugar.

Perfeito. Por onde é melhor entrar?

Cara, isso não me cheira bem. Como essa essência pode estar tão mal guardada? – questionou Paulo tentado reviver a argumentação anterior.

Eles ficam circulando, mas tem um beco no lado norte, onde tem menos movimento. – respondi, ignorando a preocupação de meu colega.

Posso criar uma porta nesse lugar. – completou Marcelo, encerrando o assunto.

Nos movemos com discrição até a viela. Marcelo tocou na parede do prédio e recitou palavras na língua dos invocadores, materializando uma porta de madeira no lugar. Entramos por ela, que se desfez em seguida. Era uma sala isolada e sem janelas, por isso os guardas estavam afastados desse lugar.

O compartimento dava num corredor com várias portas. Ignoramos todas, virando à direita no fim do caminho. Era um novo corredor, porém esse se abria no salão de entrada do prédio. Dois dos Behemoths guardavam a entrada, e os outros dois, a escada que dava acesso ao andar inferior. Aos olhos comuns, seriam apenas homens muito corpulentos, típicos seguranças. Mas eu era capaz de ver sua verdadeira forma: em suas cabeças havia imensas orelhas, presas e trombas de elefante; e, no lugar do olhar assustado de paquiderme, havia dois imensos olhos que emanavam uma extrema ferocidade.

Lembrem-se, Behemoths não podem ser derrubados com um golpe só, é uma magia de proteção. – falei.

Eu tenho algo para lidar com isso. – respondeu Maria mostrando suas granadas arcanas.

Ainda sim temos que ser rápidos, a proteção se renova rapidamente. – respondi.

Eu, Maria e Tiago, nocauteamos os dois da escada e seguimos. Vocês três ficam para dar conta do apoio. Será rápido. – disse Rafael.

Avançamos. O primeiro impacto foi uma granada arcana de Maria, que explodiu silenciosa em uma onda de energia roxa nos pés dos guardas da escada, quebrando o taboo mágico que os impedia de ser feridos. Atordoados, sequer tiveram tempo de reagir quando as balas plasmáticas de Maria perfuraram o crânio de um e minha espada cortou marfim, carne e osso. Fazendo a cabeça do outro pender, exalando um odor de acre de enxofre.

Isso não foi feito da maneira tão silenciosa quanto gostaríamos, ou seja, o reforço viria.

Tiago segue com o Rafa, ficarei aqui para dar reforço aos meninos, se tiver tudo ok, sigo em frente. – disse Maria, que já virava disparando contra os guardas da porta que investiam de maneira selvagem contra nós.

Descemos as escadas saltando os degraus para terminar num corredor escuro.

Você consegue ver, Tiago? – questionou Rafael, preocupado. Escutávamos o som do combate sobre nossas cabeças.

Espera um segundo. – me concentrei, forçando a magia em meus olhos, ao ponto de doer. A escuridão se transformou em contornos, que revelavam um corredor cheio de portas, similar ao havíamos usado para entrar. No fim, vi a esfera incandescente de energia vermelha, tão volátil e intensa que mesmo os feitiços de camuflagem não conseguiam conter.

Está na última porta no fim do corredor. Não consigo ver se tem alguém junto, mas acho pouco provável, só você sobreviveria muito tempo perto daquilo. – baixei os olhos e limpei uma pequena lágrima de sangue.

Rafael andou sozinho até o fim do corredor e abriu a porta. Tive que desviar, pois a irradiação de luz vermelha do objeto feria meus olhos. Apenas após a porta ser fechada, pude olhar para o corredor. Vi a silhueta de seu corpo e, pelos seus movimentos, havia iniciado o ritual de absorção. Somente os escolhidos conheciam as palavras para absorver aquele tipo de essência, era uma espécie de dom recebido ao nascimento.

Tiago! – o grito de Maria fez meu coração acelerar ainda mais.

Me virei para olhar a direção de onde veio o som, minha visão cortou através do concreto e foi tomado por um oceano de vermelho. Tive que desativar meu dom enquanto subia as escadas por que era incapaz de enxergar.

As criaturas estavam por todo toda parte, Jonas e Marcelo não estavam onde pudesse ver, Maria e Paulo eram tragados pelo mar de diabretes. Maria se segurava no corrimão tentando evitar os puxões dos braços magros, as pequenas garras rasgando sua pele. Paulo já estava no meio, as criaturas se comportavam como um só ser. Pude ver os olhos resignados dele quando aquele oceano de criaturas lhe engolfou. No fim, ainda conseguiu gritar: – Proteja o escolhido!

Dei golpes rápidos, minha espada lançou rajadas de vento cortante, pude ver o enxofre e sangue espirrando no ar, pequenos braços, pernas e cabeças sendo decepados. Tirei o máximo daquelas criaturas magras de cima de Maria e a puxei para perto de mim. Descemos as escadas aos tropeços e corremos no corredor até a saleta onde estava Rafael.

Entramos na sala mesmo sabendo do perigo. Por sorte, Rafael já finalizava o ritual. Porém seu corpo estava diferente. Escamas vermelhas tomavam conta da sua pele, seus dentes eram presas pontiagudas, e chifres saiam de sua cabeça. E os olhos. Eram olhos de demônios, negros e vazios como somente os Lordes tem.

Ele nos olhou, sem entender.

Eles se foram, Rafa. Os outros estão mortos.

Rafael, em sua forma de demônio, virou para o corredor que agora estava tomado de pequenos demônios, que corriam em nossa direção guinchando ensandecidos.

Eles apareceram do nada, de todas as portas, janelas e portais. Até do chão os malditos brotaram, nunca vi tantos, vamos morrer. – dizia Maria, ainda desesperada pela visão da morte dos colegas, seu corpo vertia sangue dos pequenos cortes.

Fiquem atrás de mim. – disse nosso líder, com uma voz gutural.

Começou a recitar as palavras, inteligíveis aos meus ouvidos, mas soube que era o idioma maldito dos Daemon. Aquilo era magia de sangue., poderosa como nenhuma outra, mas o valor era altíssimo: tempo de vida.

Pude ver o brilho intenso em suas mãos, percebi que uma barreira nos envolvia. Então, uma imensa explosão.

A poeira tomou conta do lugar. Por segundos, tudo que ouvi era concreto quebrando, guinchos e silvos, o impacto dos grandes pedregulhos que caiam sobre nós sendo repelidos pelo escudo mágico.

Após alguns minutos, a poeira começou baixar devagar. Ainda era possível escutar pedaços de concreto caindo aqui e ali, levantando novas lufadas de pó no processo. O oxigênio do lugar parecia ter sido substituído por enxofre, a magia de Rafael abriu um buraco no prédio. Olhei para cima e era capaz de ver o céu. A maioria das criaturas parecia ter desaparecido, consumidas na violência da magia, outras estavam caídas ou soterradas e guinchavam desesperadas.

Rafael agora estava caído com um joelho no chão e arfava violentamente, emanando vapor de seu corpo. Maria tentava ajudá-lo a se recuperar. Ele já não tinha mais a aparência demoníaca.

Conseguimos. – falei, mal contendo o sorriso – saímos des…- não pude completar a frase, porque pequenos portais flamejantes apareciam por toda área do prédio. De dentro deles, mais e mais criaturas, como aquelas que Rafael destruiu, saíam. Em poucos segundos, estava tudo tomado.

Algumas horas depois…

Tudo que meu golpe cortou foi vento. Olhei em volta, estávamos em um terreno baldio. Nenhum sinal de Rafael.

Ao entender, Maria caiu no chão, em prantos. Sentei do seu lado, deixando seu corpo extravasar a frustração.

O choro não durou muito, nunca durava quando se tratava dessa mulher. Então me olhou e pude ver que estava furiosa.

Vamos Maria, temos que encontrar o maldito Velho, ele nos deve respostas…

 

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

  • Ricardo Menezes

    O início de uma série maravilhosa! Favor entrar no ramo de aventuras de RPG.