Um poço profundo de superficialidade

“É só que acho tão mais fácil você ter o estilo padrão, no sentido que as suas opções são tão mais abertas, porque a quantidade de pessoas que vão se interessar por você é muito maior”

Olhei para aquilo e não sabia o que pensar. Apenas sentir.

Você ouve isso da boca de uma pessoa padrão. Homem, branco, jovem, heterossexual, alto, magro, corpo malhado, rosto bonito, roupas de boa marca, fluência em outras línguas, intercâmbio para a Europa marcado para daqui a alguns meses, elite da cidade, apesar de não fazer parte do círculo que tem um jatinho para ir quando quiser à Santorini.

Quando você passa sua vida inteira ouvindo palpites sobre seu corpo, você cresce machucado.

“Você é tão bonita. Por que não emagrece?”

“Vai sair assim com essa roupa? Tá marcando essa sua gordura bem aqui”

“Seu cabelo seria melhor se não tivesse esse frizz”

“Por que você não faz uma chapinha ou uma escova definitiva para dar um jeito no teu cabelo?”

“Já pensou em usar um aparelho para ajustar esses dentes?”

“Nossa, você anda de short com as pernas assim?”

“Você não pensa em fazer uma cirurgia plástica para corrigir isso?”

“Já pensou em usar silicone?”

“Tu não quer fazer uma redução mamária?”

“Pelo menos ele é engraçado, né?”

Quando você nasce e vive em ambientes onde tudo que você é por fora é o que parece importar, é difícil ver a vida de outro modo. Muitos, como esse cara do começo do texto, veem a poda do corpo como única saída para a aceitação social. Mas por quê a aparência deve ser um requisito de aceitação social?

Em defesa, o rapaz disse que quando mais novo era gordo. Sempre foi criticado pela família e pelos colegas de escola. Excluído e posto como toda pessoa que não se encaixa no padrão estético é posta, invisível. Você só existe outra vez quando resolvem te criticar e depois te jogam para a sombra de novo. Cresceu com esse complexo de inferioridade e decidiu fazer de tudo para sair dessa escuridão: ficou noiado com a aparência, assim como muitos outros ficam.

Academia, dieta, cirurgias, depilação, tratamentos estéticos dolorosos, privações, distúrbios psicológicos causados pela falta, pela poda do eu, pelo ódio a si mesmo. Falta compreensão consigo, falta aceitação do corpo, falta falar sobre padrões, falta questionar o tal do “gosto pessoal”, falta se perguntar “por que eu acho isso feio?”, falta saber por que você não gosta de você.

Fiquei assombrada de saber que existem pessoas que realmente acreditam que a roupa que você usa e quantos quilos você pesa indicam se ela pode andar com você ou não. Fiquei assustada de saber que, entre seus outros amigos, o rapaz não podia falar sobre seu desconforto, suas angústias, seus questionamentos sobre o mundo. Ninguém queria falar sobre isso. “É o que, menino? Vai se preocupar com outra coisa. Nada a ver.”

Olho para meus amigos.

Eu vejo neles alguém que sabe usar memes com ninguém, outro que tem uma doçura fora de série, uma que tem a maturidade de um ancião cheio de vitalidade, uma alma materna pronta para apoiar todos, um mestre em cultura e diversão, outro braço de guerra para fazer barraco na causa que for. Tantas almas que amo, todas cheias de belezas. Corpos cheios de beleza também, mas é pela alma que me apaixonei por todos.

“Entendo que na tua visão eu esteja me afundando. No fundo concordo. Mas sinto como se eu tivesse subindo, escalando o poço, e chegar ao padrão é sair deste poço. É o tipo de coisa: se não pode contra, junte-se a eles. Eu sinto que quando eu for do jeito que eu quero (do jeito que “eles” querem?), pronto, eu vou ter conseguido. Ganhei, mas ganhei o que? Um prêmio que não vale de nada, mas que busco desesperadamente”

Senti um calafrio.

O que eu temia em Huxley é real. O mundo é um centro de condicionamento e faz as pessoas terem “reflexos condicionados definitivos”. Uns descobrem cedo, outros tarde e, ainda muitos, nunca.

Jornalista por fatalidade, acredita piamente que o sentido da vida é comer bem. Vive sobre a linha tênue entre o desistir da humanidade e o se apaixonar pelo ser humano. Seu maior sonho é vender sua arte na praia e viver das coisas que a natureza dá.

LEIA TAMBÉM:

Sabrina Rolim

Jornalista por fatalidade, acredita piamente que o sentido da vida é comer bem. Vive sobre a linha tênue entre o desistir da humanidade e o se apaixonar pelo ser humano. Seu maior sonho é vender sua arte na praia e viver das coisas que a natureza dá.