Morphina 004

 Alguma vez você sentiu aquela sensação boa que se tem ao terminar um dia de trabalho cansativo, mas que foi bem administrado? Veja, é como jogar um bumerangue o mais longe que conseguir, tendo em mente que ele vai voltar exatamente onde você o espera.  

 

O diário do entorpecido nº 004. São Paulo. Rua. Noite.

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Já tinha terminado de abastecer o tanque do carro quando ela me pediu um minutinho para ir comprar refrigerante e bolacha.

Eu disse que a esperaria do outro lado do posto, então, já manobrando para me adiantar. Não sei porquê, mas estava com pressa.

 

Você está seguro que tudo está sob controle e, quando for a hora, você vai agarrá-lo com firmeza, como já fez tantas outras vezes.

Se ele voltar.

Porra.

Por que não disse para ela ficar no carro?

 

Acontece que, não importa o quão bom e preparado você é para os perrengues do dia a dia, uma única decisão diferente —virar à direita em vez de ir reto, deixar para depois aquele problema, parar para abastecer o carro hoje em vez de amanhã—, pode desencadear aquele maldito efeito borboleta que todos nós odiamos.

 

Olhando pelo retrovisor eu pude ver o rapinador apontando uma arma para todos na loja de conveniência. Ela lá dentro.

Fiquei no carro. Uma febre crescente em mim, advinda do sentimento de impotência diante da situação. Don’t be a hero agora, porra!

É ela que está lá.

Não. Faça. Merda.

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E aí, o vento modifica o trajeto do bumerangue e fode com quem aguardava, tão habilmente, o seu retorno.

 

O cara olhava com olhos apressados para todos os lados, menos para o qual deveria. Avaliou sua rota de fuga e quando se viu fora da loja… Um grito:

“Solta a arma e deita no chão, agora!”

O bandido, ainda andando, se virou e abriu fogo contra o segurança do posto, levou três tiros no tronco e caiu. O corpo combalido bem ao lado do carro.

 

Esse momento imprevisível modifica todo um dia, que deixa de ser rotulado como padrão, para ser “aquele dia em que vimos um cara tentar assaltar um posto e morrer”. O segurança? Foi contratado uma semana antes do ocorrido, devido já a uma grande onda de assaltos no estabelecimento. O assaltante? Bom, ele se lançou. Ele próprio um bumerangue. Sim, se jogou desafiante em meio ao céu, sabendo que, em condição de vento forte, o objeto deve ser lançado em ângulo mais fechado, acautelado, para não subir demais.

 

Quando eu abri a porta, estagnei por uns segundos antes de ir até ela.

“Amor, você tá bem? Tá tudo bem agora.”

 

Se não, o vento o leva embora, para

não voltar

nunca

mais.

 

Admiradores da cultura pop, mas não necessariamente nerds.
Amantes de Clube da ****, mas não necessariamente desequilibrados.
Na busca incessante por algo que não necessariamente iremos encontrar.

Mattheus Magalhães e Sidney de Oliveira

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Admiradores da cultura pop, mas não necessariamente nerds. Amantes de Clube da ****, mas não necessariamente desequilibrados. Na busca incessante por algo que não necessariamente iremos encontrar. Mattheus Magalhães e Sidney de Oliveira