7ª Carta

7ª Carta – 25 de outubro de 1969

 

Dona Dinda,

Como estão as coisas no Asilo dos Alienados? Espero que tão ruins quanto no 23º Batalhão de Choque. Não quero saber da senhora gozando de dias tranquilos. Não mesmo. A mãe não merece. Não depois de ter roubado minha identidade.

Sabe, eu realmente acreditava que ser torturado seria a pior coisa que me aconteceria na prisão. Fome, sede, surras, privação de sono. Nada disso se aproxima da dor experimentada agora. É incrível como algumas feridas podem ser abertas pela voz humana, e são elas as mais difíceis de tratar. O cabo enfermeiro não encontra o analgésico adequado pra aplacar minha nova dor, tão lancinante e violenta quanto um golpe de baioneta no estômago.

Tornei-me o responsável por alimentar meus companheiros de luta. Fui orientado por meu pai a conversar com os degenerados (assim nos chamam) enquanto comem. Mas eles nem sequer me olham na cara. Alguns parecem sentir vergonha de minha conduta, outros não escondem a raiva quando me veem caminhar livremente pelos corredores. Antes de retornar a meu alojamento ― Sim. Os militares me deram um quarto sem trancas ou grades ―, faço um relatório pro sargento Galego. Ele transcreve minhas palavras pra um caderno de matérias dividido em blocos batizados com os nomes dos prisioneiros que devo espionar. Quase ninguém me diz uma única palavra, então invento histórias e deixo o sargento ― escriba diante do oráculo ― tomar notas. Na maioria das vezes, invento queixas sobre saudades de casa, afirmo que são moços comuns e nada sabem sobre conspirações revolucionárias em centros acadêmicos. Galego não acredita naquilo que escreve, mas não deixa escapar uma única palavra saída de minha boca. Não entendo aquele homem. Se eu não o temesse tanto, sentiria pena dele. Algo em sua atitude pacata me exaspera.

Meus amigos agora me encaram como olham pro inimigo. Nossa! Sem seus fuzis e metralhadoras, nada poderiam nossos acossadores diante daquele olhar. Meu pai é um major, um maldito militar, e eles sabem. Não era da vontade do Comando que todos tivessem tal informação, mas é difícil manter sigilo em um lugar onde soldados taifeiros são tratados como acessórios moucos.

Agora há pouco, o Clodô cuspiu uma colher de feijão na minha cara e me chamou primeiro de carcereiro, e depois de Mata Hari. Achei aquilo descabido e ao mesmo tempo engraçado. Eu não deveria ter rido. Pareceu deboche. Ele falava sério enquanto me chamava de espião e traidor. Minha risada o fez chorar.

Estou envergonhado. Como uma pessoa pode passar vergonha pelas coisas que não fez? Se me sinto vexado, então, de algum modo, estou satisfazendo a vontade de meus opressores? Há uma sensação dentro de mim, uma intrusa que, mesmo deslocada, me arrasta pra uma culpa pela qual não sou responsável. Uma culpa que não me pertence, e me devora.

Eu queria lhe dizer a verdade, mas, de nada ela serviria. Enquanto o Clodô treme de frio todas as noites, deitado no chão de cimento batido, deve me imaginar dormindo em um colchão de molas. É isso que todos os outros detidos pensam. Nunca me deitei nessa cama, nem mesmo nas madrugadas mais difíceis, aquelas em que eu precisei de algo macio e quente, feito o colo de uma mãe.

Eu sou um deles ainda, não sou? Um dos revolucionários? Eu não mudei de lado, dona Dinda. Eu não mudei de lado! Eu não confraternizo com o inimigo. Aliás, nem mesmo se eu quisesse, isso seria possível. Os militares também me desprezam, não gostam de ter um “comuna” filho de oficial por perto. Não sabem como agir comigo. É como se eu maculasse a autoridade que se sentem no direito de ter sobre mim.

Preciso recobrar o respeito de meus companheiros, e o Clodô me disse que há uma maneira de eu provar minha lealdade.

Eu não sabia, mas o Luquinha é diabético. Sua situação se agravou muito desde nossa prisão. Mãe, ele não aguentará os maus tratos. Preciso tirá-lo daqui. Se, de alguma forma, ele escapar, salvarei sua vida e a confiança em mim será restabelecida. Amanhã é um bom dia pra fazer isso. O aquartelamento fica praticamente vazio nos fins de semana e há uma guarita que não é ocupada aos domingos.

Ajudarei o Luquinha a fugir e, como favor, pedirei pra ele procurar pela senhora no Asilo dos Alienados. Apesar de não merecer, quero que a mãe saiba que estou bem e em muito boa companhia. Afinal, aqueles que podem garantir minha integridade são todos muito amigos de meu pai.

Se o Lucas conseguir falar diretamente com a senhora, por favor, pense em mim e depois o abrace. Não entendo como posso sentir tanta falta de alguém que não quero mais amar. Por que odiá-la é tão difícil, mãe? Por quê?

 

De seu menino torto,

Cazé

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

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Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

  • Lara Forte

    Eu nem sei o que dizer. Fiquei surpresa, chateada e to com medo do Caze morrer… Mas do jeito que ta agora conta como vida?
    Essas cartas me deixam sempre muito sei lá, mas ainda é minha série de textos favorita do site. Abraços

    • Emerson Braga

      Lara, você não imagina o quanto é gratificante ter seu olhar debruçado sobre meu trabalho. Hoje é o dia da fronteiriça 8ª Carta. Prepara o coração, pessoa! Beijos!