Resultado da Semana I – II Prêmio Escambau de Microcontos

O trabalho foi grande mas o resultado saiu! E tá bonito. Semana que vem a gente faz um vídeo comentando.

1 – O cirurgião vasculhou o peito da pequena e bela Esmeralda. Queria entender porque a jovem transmitia tanta moléstia aos meninos, deixando-os entristecidos e cabisbaixos. No fim do procedimento, olhou para a mãe e sentenciou: – Não tem jeito, o coração dela bate sem se importar com quem apanha…(Lázaro Borges)

2 – – Meu nome é Fábio e eu estou dois meses sem usas drogas. – Disse tranquilamente com um sorriso no rosto para os presentes da sala do grupo de apoio. -Pai! -Gritou a irmã durante a ceia da família Aguiar -. O Fábio está falando com os presentes da árvore de natal de novo. (Isaac Morais)

3 – Corria o boato de que o diabo gostava daquela casa abandonada porque lá morou uma senhora que xingava muito. Dona Neusa, vizinha do lar mal assombrado, acreditava. E um dia viu da janela o demônio fumando trevo. – Tem fósforo, minha senhora? Pediu muito polidamente o capeta. (Lázaro Borges)

4 – Reencontrou o menino no necrotério. Vestido de chumbo e vermelho com olhos de peixe morto. Se assustou quando o policial entrou na sala. O bisturi caiu sobre a maca, tilintou. – Causa da morte? – Perguntou, a mão sobre a arma. O legista engoliu a seco, tremeu. Abaixou a cabeça. – Bala perdida. – Ótimo. (Oziel Herbert)

5 – Ela tinha fogo no cabelo, na pele e na boca. Era ariana. Quando o agarrou contra a parede, ficou cego e surdo. Era todo tato, paladar e olfato. – Tu é intensa. – O que? Não ouvi. Ele sorriu. Era recíproco. (Oziel Hebert)

6 – Seu Mesquita, viúvo, 54 anos, dois filhos, conheceu Mohammed, 57 anos, solteiro pelo Tinder. Namoraram, noivaram e este ano, já marcaram de se casar em Mesquita, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Numa igreja progressista, é claro. Dizem os convidados, que o casamento será um estouro. (Ricardo Mendes)

7 – Chegou à recepção no horário habitual, ainda ajeitando a gravata. Estranhou o silêncio, deixando o balcão a caminho do hall de entrada. Ninguém nas ruas. Abriu o jornal e se assustou com a foto do cogumelo nuclear. Relaxou quando percebeu, pela data estampada no impresso, que era feriado nacional. (L.A. Tecau)

8 – Encantou-se com sua beleza. Perdeu-se em suas alvas curvas e, de olhos fechados, embriagou-se com seu perfume almiscarado. Após observar sua fria nudez, entrou. Dentro dela era quente e reconfortante. Ajoelhado, dobrou o corpo sobre si mesmo e amou-a. Era ali, em sua mesquita, que encontrava prazer. (Luana Minéia)

9 – Jesus transformava suor em cerveja na birosca da rua. Foi torturado e assassinado com um tiro na boca no beco ao lado. A esposa, os filhos e a favela choraram, mas ele não ressuscitará. Jesus dos Santos da Silva, 26 anos, negro, 3 filhos, marceneiro, confundido com traficante de drogas. (Thiago Luz)

10 – Desprovida de traje para o baile, a moça recorre à natureza. A lua empresta-lhe o vestido branco, o sol doura a tiara, a pétala de rosa colore as faces e o orvalho perfuma os cabelos. Ao amanhecer, devolve tudo. Ficam o brilho no olhar e o sorriso nos lábios, presentes do rapaz com quem dançou. (Dora Oliveira)

11 – Trevo de quatro folhas, pé de coelho, santinho… – levou todos os tipos de amuletos para a prova do ENEM. Só esqueceu de estudar. (Edweine Loureiro)

11 – Ele, judeu; ela, muçulmana. Não precisavam de sinagogas ou mesquitas para saber que nem só de ódio vive a Faixa de Gaza. (Tatiana Alves)

11 – Não queria mais vê-la. Mandou uma carta expondo os motivos. Escolheu com tanta destreza cada palavra para dissecar todo o desprezo que sentia, que pareceu um cirurgião usando seu bisturi. Com a carta nas mãos; ela sangrou. (Jowilton Amaral da Costa)

12 – No casamento, outra coisa consegue chamar mais atenção que a noiva belíssima. Ao lado do casal , apenas três damas de honra e no lugar da quarta um vestido flutuante deixa todos intrigados. “Desculpa, não consegui entrar nele, mas ta perfeito.”, dizia um bilhete encontrado na peça. (André Felipe)

12 – O que ele tem no ouvido que parece surdo e viver noutro mundo doutor? Ele deu-lhe o otoscópio e ela surpreendeu-se: no ouvido do filho moravam gaivotas assanhadas, um mar ondulante a beijar o cerume da areia e várias conchas. Descansada, ela viu o sol enterrar-se na montanha dos seus tímpanos. (Marcella Wolkers dos Reis)

13 – – Foi uma linda recepção, apesar da ocasião. Um velório, né? Mas ele é tão bonito, rosto de artista.  – Cala boca Maria. Ele veio ver teu pai morto.  – Mas eu tô viva, mãe. (Hermes Veras)

13 – A porta do elevador se abriu. Ao ver São Pedro abraçando um famoso escritor de autoajuda na recepção, o poeta apertou o botão do subsolo. (Thiago Luz)

14 – Se fazia de surdo todas as noites pra não ouvir seu pai chegar. (Ademar Ribeiro)

14-Após ajustar o vestido branco em Lila, a mãe se encarregou da maquiagem. Entre lágrimas de emoção, deu-lhe um beijo na face e se recompôs. Logo chegariam os convidados e os curiosos. – Não parece uma princesa? – Uma rainha. De rosto corado e semblante sereno, Lila recebeu mais uma coroa de flores. (Gabriella Correia)

14 – O berimbau se revoltou contra o piano. “Instrumento de uma corda só”, debochou a harpa. O atabaque quase teve um ataque: “Racista”. O cavaquinho, o violão e o banjo ficaram divididos e saíram do grupo do WhatsApp. Mas quando a Bateria Surdo Um da Mangueira entrou na Sapucaí, o desconcerto acabou.(Thiago Luz)

15 – Toquei a campainha e, depois de um momento, a porta se abriu. Ela apareceu segurando entre os dentes os restos de um pé humano. Digamos que não era bem essa a recepção que eu esperava. (Diego Sampaio)

15 – Naquele trecho quente de asfalto da estrada, um patinho de borracha, um pé de sandália tamanho 12 e um trevo recém colhido havia alguns minutos apenas. Todos manchados de sangue. (Ricardo Mendes)

15 – Estressado com sua profissão, cirurgião renomado abandonou sua brilhante carreira. Comprou um sítio longe da grande cidade. Pensou consigo: Mexer com plantas é bem melhor que com ser humano. Na primeira enxadada fez uma incisão profunda no peito do cadáver mal enterrado. (Claudio Antonio Mendes)

16 – Seu sonho era ser cirurgião-dentista. Não conseguiu nem se tornar um protético. Em vez do jaleco branco, exibia um sorriso amarelo. (André Caldas)

16 ― Pois não? ― Eu já disse mais de mil vezes que não era pra deixar esse vendedor entrar aqui. Ah! E diga àquela burra, gorda e sardenta da recepção, pra nunca mais deixar ninguém subir sem antes avisar. ― Sua secretária está em horário de almoço. ― E quem é você? (Eduardo de Paula Nascimento)

16 – Saindo do banheiro com um sorriso no rosto, Gabriel dava as costas aos amigos que se amontoavam em frente às carreiras de pó branco. Tirou um pirulito do bolso. Escolhia bem as suas drogas. (Lara Forte)

17 – Ele copiou o vestido da irmã, os brincos da mãe e o perfume da tia. Mas a feminilidade era original. (Thiago Luz)

18 – Gabou-se da sorte o dia inteiro, mas cochilou no trevo mais perigoso da rodovia. (Elicio Santos)

19 – O cirurgião olhou as mãos enrugadas e trêmulas. Procurou se lembrar quantos corpos aqueles dedos haviam tocado. Em seguida, acariciou sua própria pele, flácida e translúcida. O bisturi cintilou. Por uns segundos, teve novamente o controle e o poder. No chão, gotas de um vermelho pálido apareceram. (Luana Minéia)

19 – Desembrulhou a bala e inseriu na boca da criança. Anteviu momentos de deleite, estudou a rua e então avançou: —Tem mais ali no carro, “boralá”?  Homem e menino caminharam de mãos dadas até um furgão preto, e tudo era só uma questão de tempo até que a droga fizesse efeito. (Maria Santino)

20 – — Eu vou pra Mesquita! A família, comicamente assustada (bocas e olhos abertos), só agora relacionava a mochila nas costas às ideias estranhas do menino. Tentaram levá-lo à Igreja, ao Centro Espírita, tudo. Mas nada: ele foi. Um mês depois, chegou o cartão postal: Mesquita é a melhor cidade do RJ. (Elias Araujo)

21 – Uma folha a mais, foi tudo de que precisou para deixar a terra em que nasceu e viajar pelo mundo todo na carteira do piloto. Era de fato um trevo de sorte. (Francisco Petrônio Ferreira de Oliveira)

22 – Acordou e estava surdo. Surdo! Não conseguia acreditar que nunca mais ouviria Led, Sabbath e Janis. Saiu de casa, cambaleando pelas ruas caóticas, e não ouviu o som frenético da buzina do veloz caminhão. Quando deu por si, já podia ouvir de novo; Hendrix o recebia com um riff de ‘Purple Haze’. (Aline Teodosio)

23 – Tinha obrigações: a mesquita, a burca; os ritos. Possuía desejos: os lençóis de linho, a banheira de hidro; o corpo do outro. Mas aprendeu a ter cautela: temia as pedras…(Junior Spades Bonifácio)

24 – Foi por causa de uma droga de desejo que Maria quase se matou e matou nosso filho. Fez uma vitamina de manga com leite e por sorte nada aconteceu com eles. Ô santo forte desses dois, vice! ( Marcela Santana)

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