Resultado Semana 3 – II Prêmio Escambau de Microcontos

Parabéns a todos os selecionados, congratulações a todos que se arriscaram e exercitaram sua criatividade. O importante é que mundo ficou um pouco mais belo e rico com arte de cada um de vocês.

 

11 – Gabriela Correia

Diziam-lhe que a chave para ser feliz estava em encontrar a tampa de sua panela. Contrariada, Anita comprou um microondas e fez sua própria comida. Provou de genuína felicidade.

12 – Severino Rodriguês

Era um menino quando o pai e o tio foram mortos numa emboscada. Como ninguém fez nada, jurou justiça. Cresceu, fez aliados e se tornou cangaceiro. Um dia, tomou a cidade e matou os assassinos. Agora era a lei e o juiz. Como ninguém fez nada, o filho de um dos mortos desse dia também jurou justiça.


13 – Nanci Ricci

Amava quando, no quarto, ela tirava o penhoar e, com sua camisola transparente, ia se deitar. Ficava extasiado quando ela o pegava e o acariciava de um jeito só dela. Sentia-se completo quando ela percorria-lhe trecho por trecho com os dedos ávidos e os olhos úmidos. Era um livro de cabeceira feliz.

13 – Gabriella Correia

Da ocupação das terras da fazenda, nada restava além de lona queimada, roupas rasgadas e sandálias reviradas. Só o vento era testemunha; dos gritos, das súplicas, da mãe, do filho, do agricultor. Olhos duros não se apiedam, cumprem ordem do senhor. Com sangue vermelho, aquele solo ele irrigou.

13 – Rodrigo Domit

Quando passaram lado a lado, na entrada do mercado, não se esbarraram por detalhe. Na fila do caixa, os olhares não se cruzaram e, na saída, nem ao menos repararam um no outro. Enquanto isso, na casa das Moiras, o gato endiabrado distraía-se com os fios da vida, desfazendo as tranças do destino.

14 – Claudio Antonio Mendes

Armou-se para a caçada do dia. Olhou para o sol instigante no céu. Aves de rapina voavam em círculos. Suas unhas grandes afiadas. Suas roupas e seu odor o camuflariam no ambiente. Começou a caça, tirava os obstáculos do seu caminho em busca de restos de comida no lixão na cidade.

14 – Elias Araujo

Ele chegou como sempre: beijou-a nos lábios e no pescoço. A rotina foi alterada pelo perfume: ela sentiu. O cheiro foi ocupando espaços da casa, sobrepujando outros perfumes. Ocupou suas mãos, seu nariz, sua mente; seus olhos, fazendo-os lacrimejar. A ocupação deu-se lentamente. Nefasta e silenciosa.

14 – Sônia K. Brandão

João mal sabia ler o seu nome. O seu sonho era vê-lo escrito em destaque em algum lugar. Um dia viu algumas palavras na parede de sua casa e o seu nome entre elas. Todo satisfeito, pediu para o vizinho ler para ele. Estava escrito: “João é corno.”

15 – Fabiano Sorbara

Lavou a barba com shampoo e condicionador, com esmero secou e penteou os longos fios, com eles fez uma trança impecável, olhou-se no espelho e curtiu o novo visual. A mulher barbada também tem suas vaidades.

15 -Nilo Paraná

Quando viu a casa, reconheceu-a de imediato pela cor das paredes. Sonhava com essa casa toda noite e acordava antes de entrar. Precisava conhecer o seu interior, e agora ela estava ali, na sua frente, real. Foi difícil explicar essa história aos policiais, com seu antecedente de arrombador.

16 – Lázaro Borges

Amanheceu e o pescador voltou ao barco. Ela agonizava, já sem a beleza da calda reluzente. O tronco dançava semi vivo pelo movimento do barco na maré. – Perdoa eu, moça. Foram dez dias sem comer direito. Como é que eu ia chegar em casa vendo os menino tudo franzino de fome?

16 – Oziel Herbert

Sentado de costas para o mar, escreveu felicidade na areia. A maré subiu e recuou, deixando a mulher e levando a palavra. – Não posso. – Mas te amo. Uma onda tocou os pés e ela deslizou sobre a espuma branca, retornando. – Você é um bom homem, mas deve entender: só se encontra a felicidade sozinho.

17 – Francisco Petrônio Ferreira de Oliveira

Jamais experimentara tanta paz, nem tamanha ausência de dor. Sentia-se livre, leve, como se nem a gravidade agisse mais sobre ele. Parecia um sonho… que se transformou em pesadelo, quando na tentativa de acender a luz, atravessou a parede.

18 – Diego Sampaio

Sua ocupação mesmo era a carpintaria, praticava o messianismo só nas horas vagas.

19 –Lohan Lage Pignone

#Ocupação”, viu na internet. Dentro dele, ainda pulsava o inconformismo dos seus vinte e poucos anos. Alguns velhos amigos, hoje professores, empunhavam placas de protesto, agitavam o movimento. Contrariado, vestiu sua farda da PM e foi expulsá-los. Não tinha jeito: essa era a sua ocupação.

19 – Romeu Martins

São 72 horas e 98 minutos de uma nona-feira gelada de trezembro. O detento faz o quarto risco na parede e lembra-se do quanto comemorou quando o juiz o condenou a apenas uma semana de cadeia. O que não sabia é que a pena seria aplicada em Plutão, recentemente convertido a planeta-prisão-anão.

Adriel Santos

20 – Dias depois de ter oferecido a própria filha como aliança de paz, recebeu em sua tribo o pajé inimigo trazendo às costas uma horda e em sua mão direita o escalpo unido em uma única trança negra.

20 – Fernando Lima

1.877 estantes, 211.791 localizações, 628M498c, 093G338g, 8 às 18 suprindo o desejo de fuga desse povo que surge sabe-se lá de onde. Sobe desce, estica encolhe, vem vai. Prisioneiro voluntário neste calabouço, mundo de ácaros. Ainda me livro disso.

21 – Mauro Bartolomeu

Não conheceu a mãe, mas aprendeu muito com o pai. Ainda criança, aprendeu que o mar era perigoso, muito perigoso. Quando a maré estava alta, ele avisava: o mar está para peixe. Só para peixe, ouviu, mocinha? Mocinha, quis saber o que era amar. O pai pontificou: amar é… perigoso, muito perigoso…

21 – Gabriella Correia

Adentra a festa como a uma biblioteca. Percorre a estante de convidados, escolhe o moço edição de luxo, clicheria em ouro, capa aveludada. Logo perde o encanto; um maçante conto. No canto, alguém acena; capa desbotada, folhas surradas, versão de bolso. Naquele livro, a melhor história já criada.

22 – Isaac Morais

Quase meia-noite, escondida dos guardas e outros radicais, retira a burca e exibe seu enorme cabelo preto pelos becos da cidade. Sua trança, no outro dia, é semelhante a corrente em suas mãos.

23 – Severino Rodrigues

Arthur James adentrou a pirâmide com seus companheiros. Como bom arqueólogo, se perdeu. Mas encontrou o quarto do filho louco do faraó. Analisou as paredes, decifrando os delírios do enclausurado: a lâmpada? o telefone? a bomba atômica? e…?! Aterrorizado, golpeou o futuro para destruí-lo.

24 – Gracieli Allebrandt

Eu a tinha por entre meus dedos, sua carne macia resvalava pela minha língua. Divertia-me dar-lhe leves mordidelas seguidas de chupões inescrupulosos que traziam seu caldo quente à minha boca. Era um apetite selvagem, incontrolável. Minha comida predileta: coxa de frango.

25 – Edweine Loureiro

Humilhada pela patroa, preparou a comida em silêncio. Engoliria as lágrimas, sim. Mas, em compensação, a madame engoliria uma dose de cianeto.

26 – André Caldas

Não queria ser mais o juiz de suas próprias atitudes. Chutou o pau da barraca. Quebrou o dedo, e o objeto bateu na cabeça da senhorinha que estava sentada ao seu lado. A coitada veio a óbito. Agora ele era o réu.

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