II Prêmio Escambau de Microcontos: Resultado da Semana 4

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28 – Em uma mão, o chicote, na outra, o livro de invocação. O domador segurava ambos os itens com o coração à mil. Á sua frente, a criatura liberta se ergueu, sua forma crescendo até que sua sombra engolisse o homem de sobretudo e chapéu. O chicote fora inútil. (Nayara Rossi Brito da Silva)

28 – Lado a lado no banco encostados. A veia sobressalente no pescoço fazendo imaginar cheiro de sangue. O desejo do imortal era se tornar humano e pediu que fosse atendido. Ela mordeu-o. (Severino Rodrigues)

27 – Havia tomado aquilo como um presente dos irmãos Lumière, mas não demorou a descobrir o embuste: correu antes que o trem abandonasse a tela e lhe esmagasse o grito. (Junior Spades Bonifácio)

26 – O selvagem Marreta cruzou o bosque cavalgando uma égua branca batizada de Primeira Esposa. A única ferradura era usada para nivelar a altura de uma das patas deformadas do animal e, em tempos de guerra, esmagar as crianças dos inimigos. (Adams Pinto)

24 – Na estação, mãe e filho. Ela assustada. Fugindo. Marido, maus tratos. Um trem corta os pensamentos. Vida nova, retorno, lar. Um trem corta os pensamentos. Vergonha, humilhação. Um trem corta os pensamentos. Dor, frustração. Um trem corta os pensamentos. O vazio nas mãos. A criança? Um trem corta… (Zé Ronaldo)

23 – Corria pelas planícies sobre ferraduras de osso, juravam. Em seu dorso, um esquelético cavaleiro mostrava os dentes em um sorriso medonho e eterno. Para uns era terror, o frio, a caçada selvagem. Para outros era só falta do que fazer e hidromel demais… (Diego Sampaio)

23 – Uma surra a cada garrafa vazia era o que recebia de Eusébio. Uma noite retorceu o cabo da Faca no peito do companheiro e, sozinha, esvaziou outra garrafa. (Nevio Guilherme Dos Santos Burgos)

22 – Duas retas de frente pra outra fofocam: – Acho o Ângulo muito obtuso. – O Triângulo é amoroso, piegas demais! – Ah e o Quadrado? Perfeito e muito antiquado. Chato!  O Círculo ouve e diz: – Parem com essa conversa paralela! De hoje em diante estão fora do meu círculo de amigos. (Marcella Wolkers Dos Reis)

21 – O circo precisava de novas atrações; mas tudo que tinha a oferecer era moradia precária, comida e água. Foi então que o domador teve uma ideia. Espalhou pela floresta centenas de cartazes: “O trabalho dignifica o animal! Troque a instabilidade da selva pela segurança do lar e garantia de ocupação”. (Rodrigo Domit)

20 – Seria facinho para a criança ajudar o cara que se ofereceu para pegar sua bola no riacho. Teria apenas que rolar da margem até a água o pneu que o rapaz usaria para encarar a correnteza. Só que ao invés disso ela resolveu ouvir sua sombra. “Vamos sentar aqui e ficar observando ele se debater”. (Romeu Martins)

19 – Artesão detalhista, tentou moldar com perfeição àquele pedaço de barro sem graça. Porém, sem sucesso, ao cabo de algumas horas decidiu: deixaria a obra assim mesmo, inacabada. E, aproveitando o fim de semana, rumou de férias para Marte. (Edweine Loureiro)

19 – Se a formiguinha fosse para a esquerda, ele a esmagava por ter escolhido o caminho errado. Se fosse para a direita, ele a sapecava com a lupa para tentar fazê-la ir para a esquerda. Não é que fosse uma criança má; é que de tanto ouvir falar de Deus, acabou brincando de imitá-lo… (Mauro Bartolomeu)

18 – Apavorada, a criança tapa os ouvidos e fecha os olhos, enquanto a mãe tenta acalmá-la: – São só foguetes, meu filho. É assim que o povo daqui comemora.  Mas o menino, refugiado sírio no Brasil, não se importa com futebol. (Edweine Loureiro)

18 – Após conhecer a mineira, ele, carioca, andava às voltas com a semântica da palavra ‘trem’. Cada dia era um trem diferente descarrilando do seu entendimento. Ficou vagando entre ela, a forma, o conteúdo e a polissemia. Até o dia em que sentiu um trem danado no coração. (Mariza Lacerda)

17 – O golpe do martelo formou um quadrado escuro e doloroso em sua coxa. Uma marca que talvez demorasse dias para desaparecer. Provocado, ergueu o machado imaginando quantos desenhos sua lâmina deixaria no rosto do inimigo. (Adams Pinto)

16 – Durante o discurso de posse da presidência, jurou que lutaria contra os invasores do planeta e os puniria como deveria. Seus eleitores foram a loucura de tanta satisfação. Exaltação coletiva, brados e mais brados de “Humano bom, é humano morto. (Isaac Morais)

15 – As ovelhas, sem lã, pereciam no frio. O cavalo, sem feno nem ferradura, capengava, agonizante. Ratos, vindos de todos os lados, denunciavam os traidores do Regime. Enquanto os porcos, à mesa farta, gargalhavam: ― E ainda há patos pelo mundo propagando a Revolução!… (Edweine Loureiro)

15 – A encomenda: dar cabo da vida de D. Maria. Mandante: Divino, seu marido. Motivo: seguro de vida. O pistoleiro Zé Capeta, simulando assalto, apareceu quando a vítima jantava com o marido. – Me mate, mas não mate ele! – Gritou Maria. Capeta, comovido, deu 3 tiros. Divino foi enterrado no dia seguinte. (Luiz Antonio Caldas Filho)

14 – Procurou Galinha Pintadinha no YouTube, abriu um Doritos e prometeu uma bicicleta para o filho se ele passar de ano. Apenas mais um dia de trabalho para o domador de crianças. (Gabriel Engster)

14 – Fui presa em um quadrado por alguém sem piedade. Não entendo por que me escraviza, mas sigo sorrindo, por ordens do chefe, para todos aqueles que vêm me visitar, observo-os e poso para suas fotos. Muitos ofertam milhões pela minha vida, mas, ao fechar o museu, continuo sozinha em meu quadro e Lisa. (Isaac Morais)

14 – Roberto, Valéria, Vítor e Amanda formavam um quadrado amoroso. O problema é que Jorge, o vértice desgarrado, também gostava de Amanda e se livrou de Vítor. Valéria não gostava de Jorge, então fugiu. Roberto enlouqueceu. Amanda sem Roberto não existia e se suicidou. Parabéns, Jorge. Sobrou só você. (Lucas Dias Palhão Mendes)

13 – Minha mãe avisou que ele era uma cavalgadura. Não usava ferradura por que não tinha para o tamanho dele. Aguentei o pão que o diabo amassou, doutor, mas quando um homem olha para a própria filha como ele olhou… eu tinha que tomar uma atitude. Só errei na dose do vidro triturado, ele sofreu pouco. (Angela Cristina)

13 – Um trem para as estrelas: quem não gostaria dessa viagem? A moça, enluarada, seguiu os trilhos e nunca mais entrou na linha da razão. (Claudia Manzolillo)

12 – Ao nascer, o parto ceifou a vida de sua mãe. O pai morreu logo depois, de desgosto. Mais três mortes nos dias seguintes e o vilarejo concluiu: a criança era amaldiçoada. Resolveram abandoná-la na montanha. E quando os lobos a encontraram, ouvia-se as águas da barragem rompida devorando a vila. (Luis Fernando Amancio)

11 – Com um toque, ela me tornou vivo. Com um beijo, ela me fez humano. Com um golpe, me reduziu a pó. (Victor Tsuneichi Chida)

Top 10

10 – O Grande Mandraco ficou doido quando descobriu que a esposa tinha um caso com o palhaço Xaveco. Se ainda fosse com Dom Chicote, o domador… Até hoje todos pensam que eles fugiram sem deixar pistas. Mas a verdade é que todos subestimam demais sua habilidade em fazer as pessoas desaparecerem. (Mauro Bartolomeu)
09 – Duas amigas balzaquianas conversavam pelo whatsapp. – Tem um ser humano dentro de mim. – Você está grávida? – Não, apenas me descobrindo a cada dia em que envelheço. (Claudio Antonio Mendes)
08 – “Anda rápido, eu já disse pra cortar o cabo vermelho! O cabo vermelho!” “Mas eu sou daltôni…” (Romeu Martins)
07 – Mil e duzentos cavalos de potência e o único a usar ferraduras é o motorista. (Fabiano Sorbara)

06 – Ela era multifacetada, mas ele era quadrado. O relacionamento entrou num círculo vicioso. (Tatiana Alves)

05 – Pela manhã, à sombra do abacateiro, Dona Menina contava histórias de fantasmas. Se você fosse criança ouviria sem dar um pio. Podiam ajudar. À noite, deitado, minha cabeça girava. Sempre fui atormentado. Segurei no cabo da faca virgem benzida; protege, disse Dona Menina. Assim, matei meus pais. (A.c. Costa Ferraz)

04 – Entrou no trem. Era menino e estilingue. Para trás: Morro Velho, o amigo Bituca, a fazenda, os banhos de ribeirão, a estação. À frente: os estudos, formar-se doutor, uma sinhá e um passado inteiro que ali pousou como o sabiá das manhãs de antigamente. Desceu do trem. Já era homem e poesia. (Thiago Luz)

03 – – Papai, posso queimar minha boneca? – Claro que não filha. – Mas ela é do mal, – insiste a menina. Sem paciência o pai retruca: – se você queimá-la nunca mais ganhará outra. Longe do pai, a boneca sorri maliciosa e balbucia entre os dentes: – e agora criança, está na hora de você dormir. (Nilo Paraná)

02 – Era domador de sua besta interior: não reagia às carícias do padastro bêbado, aos colegas o surrando na saída da escola, aos gritos do sargento no quartel, às reclamações da esposa, ao chefe, ao mundo. Por fim, encostou um cano prateado na têmpora esquerda. A besta voou como borboletas vermelhas. (Thiago Luz)

01 – ― Você não imagina, amor, como eu estava sentindo falta deste calor humano!… E, para celebrar o reencontro, o legista dançou com o cadáver da noiva. (Edweine Loureiro)

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