Um intruso no Natal – Amigo Secreto Escambau

Era madrugada quando acordei e fui tomar água na cozinha e ouvi barulhos estranhos vindo da sala. Ouvi um “Shh” bem baixinho e uma risada abafada. Então caminhei em silêncio em direção a sala quando vi um homem idoso, alto e gordo vestido de vermelho que tinha entrado na casa pela chaminé. Soube que as risadas vinham dele enquanto tentava se limpar das cinzas e me dei conta que todo o tempo que olhava pra ele, não via que outras pessoas também tinham entrado na casa. Estas eram pequenas, menores que criancinhas ou anões, as roupas eram mais diversificadas e as orelhas pontudas. Enquanto o homem estava entretido procurando algo dentro de um saco e dando risadas, as pessoinhas olhavam atentas para todos os lados. Quando dei por mim, já estava andando ao encontro daquela reunião. Nesse momento uma das pessoinhas me viu e de imediato, apenas com um sinal, fez todas as outras pararem o que estavam fazendo e permanecerem imóveis. O homem, que também tinha parado, voltou ao que estava fazendo com mais cautela para não fazer barulho. Assisti quando a pessoinha pegou um enfeite de natal e jogou ao ar e este cruzou a sala e foi bater na janela ao longe. O pequeno intruso percebeu que não conseguia me enganar, continuuei olhando para eles.

Quem são vocês?”, eu perguntei.

Vo…você está me vendo?”, a pessoinha perguntou. Ele tinha um sotaque diferente. Os outros olharam pra mim assustados.

Claro”, respondi. Então ele pegou a minha mão, fez um sinal para os outros voltarem ao trabalho e me levou até a cozinha.

Como pode?!” Ele fazia uma cara confusa engraçada e eu comecei a rir. Depois fez um sinal de silêncio bem sério como se fosse a minha mãe, o que me deu mais vontade de rir. “Vocês não podem nos ver! Antigamente todas as crianças podiam e isso dava um trabalhão. Hoje não, nem mesmo as menores nos veem.”

Mas eu vejo vocês todos”.

Você deve ser especial. Eu já ouvi falar sobre vocês. As pessoas normais só conseguem ver o que faz parte de sua dimensão, o que chamam de real”, ele disse com uma cara de deboche. “Mas alguns de vocês tem uma estranha conexão com as coisas que não deveriam estar lá, contudo estão, mesmo que seja difícil de acreditar”, ele continuou.

Você não me disse o que você é”, falei, mas eu já sabia.

Eu sou Elfábio, sou o que vocês chamariam “uma pessoa de bem”. Sou muito bom no meu trabalho, no que consiste na organização e supervisão da locomoção de uma pessoa de grande porte, dezenas de outras menores, além de carga viajando grandes distâncias para fazer entregas. Saber da minha denominação enquanto ser vivente seria demasiado desgastante para a sua cabeça.” O ar sério só o fazia ser mais engraçado.

Você é um duende que ajuda o papai noel a entregar os presentes, eu sei!”, falei e então ele fez uma cara de pavor.

Pela árvore sagrada! Eu sabia que se referiam a nós dessa maneira, mas ouvir é muito pior.” Nesse momento foi olhar o que os outros faziam e após um tempo voltou para onde eu estava.

Oi, meu nome é Nina”, falei.

Não, seu nome é Eponina e você tem…”

Como sabe?”, interrompi.

Faz parte do meu trabalho saber o endereço e a identidade das pessoas contempladas com o nosso serviço. Foi um prazer conhecê-la, mas tenho de ir embora.”

Espera! Como faço para os outros acreditarem quando eu disser que te vi?”

Não vão. Você tem o poder de nos ver, mas não tem o de fazer os outros acreditarem em você. Pelo o que sei, a maioria das pessoas não sabem lidar com as diferentes. Então é melhor esse ser apenas o nosso segredo.”

Que nem segredo de amigo?”

Sim, que nem de amigo.”

Você vai voltar algum dia?”

Ano que vem tem outra viagem”

Vou ficar esperando”

E eu espero que você possa me ver”.

E foi assim a primeira das três vezes que conversamos. Eu corri, mas só deu tempo de vê-lo subir pela chaminé e desaparecer. Ano passado ele pediu pra eu ir com ele, mas eu disse que não conseguia passar pela chaminé.””

Se você não cabe na chaminé, como o papai noel passa?”, perguntou um menino que estava na roda escutando a estória.

Boa pergunta! Amanhã quando ele vier vou perguntar sobre isso.”, respondeu Nina, mas a criança não pareceu satisfeita.

E como é que vocês conversaram por tanto tempo? Você não disse que ele tem de viajar o mundo inteiro numa só noite?”, perguntou a menina mais velha.

O que se seguiu foi uma sucessão de perguntas as quais Nina não conseguia responder de modo que agradasse as crianças.

A minha mãe disse que não devemos acreditar nessas coisas”.

Deveria ter feito o que o “duende” falou e ter guardado o segredo.”

Neste momento a mãe de duas das crianças chegou e acabou com a bagunça que se formou.

Chega de estórias por hoje. A Nina vai descansar agora.”, a mulher falou dispersando as crianças.

O que vocês ensinam a essas crianças?”, disse Nina num resmungo.

Talvez se você não contasse a mesma estória mil vezes elas gostassem mais.”

Elfábio tem razão”.

Vó, você sabe que é o último natal que você passa aqui. Quero que as crianças tenham uma boa impressão.”

Eu sei. Vou ficar indo de casa em casa até não restar mais nenhum parente e me mandarem pra você sabe onde.”

Não pense assim. Vai ser divertido e mais confortável em outra casa. Não esqueça de tomar o seu remédio pra não ter recaída. Ano passado com a correria eu não reparei, você passou o natal todo sem tomar.”

Na madrugada de natal, Nina foi pegar água na cozinha como de costume para tomar o seu remédio quando ouviu um barulho e o seguiu. No dia seguinte não a encontraram na casa e em nenhum outro lugar.

De Maceió. Professor de inglês e estudante das letras, passou a escrever para se livrar dos fantasmas em sua mente, o que se tornam seus personagens quando ignorados.

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Andre Felipe

De Maceió. Professor de inglês e estudante das letras, passou a escrever para se livrar dos fantasmas em sua mente, o que se tornam seus personagens quando ignorados.

  • Claudia Jeveaux Fim

    Adorei! Nina, então, me encantou! A criança que há muito deixou de ser menina… Excelente! Parabéns

    • Phew

      No final das contas o conto cumpre o seu papel. Obrigado.

  • Sara dos Anjos

    Gostei demais!!! Nina é o máximo! É tão real que esqueci que era um conto!!! Parabéns!!!!!

    • Phew

      “Real” foi o melhor elogio que recebi até agora em se tratando de um conto fantástico. Muito obrigado mesmo.