_ E _ I _ _ A _ A _ E _ _ Ó _ _ E _ O A _ O _ O _ O – Amigo Secreto Escambau

Mamãe sempre dizia que eu tinha boa cabeça. Ela tinha muito orgulho de minha inteligência. Mas, ao olhar para a velha lousa à minha frente, minha mente estanca, congelada pelo horror. É apenas mais um código a ser quebrado, mais um enigma a ser decifrado, mas não consigo. E choro.

— É sua vez, bebê — o louco me diz. — Escolha logo uma letra.

Eu encaro a lousa:

E _ E _ _ _ I _ _ A _ Á _ E _ E _ _ O _ _ O _ _ O_ A A _ Á _ _ I _ A

— Tem U? — eu pergunto, entre soluços, e as lágrimas a cobrir o meu rosto.

O louco olha para meu irmão mutilado e diz:

— Regojizai-vos! A perna direita está salva.

O maníaco escreve na lousa, e agora o quadro está assim:

E _ E U _ _ I _ _ A _ Á _ E _ E U _ O _ _ O _ _ O_ A A _ Á _ _ I _ A

Ele pergunta à minha mãe:

— Tua vez, mulher.

— Por favor, pare, pelo amor de Deus — ela fala, em pranto.

— Tenha fé, mulher! — o sujeito diz. — Se tiverdes esse tantinho de fé, movereis montanhas. Diga uma letra.

Minha mãe começa a orar:

— O Senhor é meu pastor e nada me faltará…

— B! Tem B? — meu pai grita.

— Eu avisei, não avisei? Espere sua vez, velho! — o psicopata grita. Saca seu revólver e descarrega quatro balas no peito de meu pai. Eu grito tanto que sinto minha garganta arder. — Feliz Natal, filho da puta! Você pode culpar apenas a si pelo seu destino. Não tem ‘B’!

O maníaco pega a machado.

— Diga adeus a tua perna direita, cara.

Meu irmão mal tem mais forças para protestar. Mas grita quando o machado começa a decepar seu membro. Eu também grito. É como se meu coração estivesse sendo dilacerado. Sinto-me inútil, impotente. Mamãe sempre dizia que eu tinha boa cabeça. Ali naquele cenário de horror e medo, ela não tem utilidade. Abaixo o olhar e encaro o chão. Era demais para mim. Ainda assim, ouço as palavras absurdas do assassino:

— Porque somos pó, eu ao pó retornaremos, filho da puta. Agora sim, está perfeito! Testemunhem! Testemunhem minha arte!

Não contenho minha curiosidade. Olho e me arrependo. Ver meu irmão amarrado a uma mesa, sem seus dois braços e pernas, é demais para mim. Vomito a ceia de natal. Minha mãe, ao meu lado, chora, soluça e ora:

— Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome…

— Pare com isso, mulher! — o psicopata grita, e coloca a arma na testa dela. — Teu Pai te abandonou.

Eu olho para o assassino e vejo que ele tem lágrimas nos olhos. Ele vira para mim e diz:

— Tua vez, bebê. Escolha uma letra. Escolha sabiamente.

Tento controlar meu choro, e consigo perguntar:

— Tem R?

— Sim! Temos R!

Ele escreve na lousa, e fica assim:

E _ E U _ _ I _ _ A R Á _ E _ E U _ O _ _ O _ _ O_ A A _ Á _ R I _ A

Aponta para minha mãe:

— Diga uma letra. Pense bem, mulher. Pense bem, é a vida de teu filho que está em jogo.

Os lábios de minha mãe tremem.

— Te… te… tem S?

— Sim, Jesus! Temos S!

E eis o que surge na lousa:

E _ E U S _ I _ _ A R Á _ E _ E U S O _ _ O S _ O_ A A _ Á _ R I _ A

— Outra letra, por favor! — o louco diz, apontando a arma para mim. — Vamos! Ou já sabe qual é a frase?

Eu não sei, e daria tudo para saber.

— Tem N?

— N já foi, sua puta! Não tem N, e isso custou a perna esquerda de seu irmãozinho, lembra? Outra letra!

— Tem V?

Ele encara o quadro-negro. Um sorriso sádico surge em seus lábios.

— V? Não tem V! Agora é a hora do show!

Minha mãe grita em desespero:

— Não! Não, por favor, não mate o meu filho. — Ela tenta se levantar, mas as correntes não deixam. — Leve-me, mas poupe meu filho.

— Que seja feita a tua vontade, mulher — o maníaco diz, e acerta um tiro no meio da testa dela. Eu grito e choro. Meu irmão geme na mesa. — Diga ‘olá’ para o Criador por mim! Agora, onde estávamos?

Ele caminha para meu irmão, machado em mãos. Eu tento me mexer, mas as correntes que apertam meus pulsos não deixam.

— Seu mentiroso! — eu digo. — Você prometeu que o deixaria vivo.

— E também prometi que acertaria sua cabeça, caso vocês não vencessem o jogo da forca. O que vale é a primeira promessa.

Ele acerta uma machadada na cabeça de meu irmão, que solta um som entre um grito e um gemido. O maníaco ri.

— Bem no cucuruto! Olha só como ele se treme!

Acerta mais alguns golpes, até finalizar o trabalho. Após isto, vem até mim. Estou acabada, banhada em lágrimas. Encaro o chão. Ele põe a arma em minha cabeça e diz:

— As coisas antigas já passaram. — Ouço click do revólver. — Quer dizer algo, antes do fim?

— Espero que apodreça no inferno!

— Eu esperava algo mais reconfortante para o meu espírito. Isso só Deus decide, bebê — ele diz. Eu sinto que ele tira a arma da minha cabeça, mas ainda tenho medo. — Pai, em tuas mãos, eu entrego meu espírito.

Ouço um tiro, e sinto o sangue respingar em meu rosto.

Mestre em matemática pela UFC, viciado em séries e jogos, curioso observador do universo, editor do Clube de Autores de Fantasia e aspirante a escritor.

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Renan Santos

Mestre em matemática pela UFC, viciado em séries e jogos, curioso observador do universo, editor do Clube de Autores de Fantasia e aspirante a escritor.

  • Lara Forte

    Pelo amor de Jacó, qual era a frase???? Não consigo adivinhar e nem consigo ter paz…
    Ficou foda, mas acabou com meu psicológico

    • Renan Santos

      Apocalipse 21:4

  • Michel Euclides

    Que texto incrível! O grafismo, a violência… Cara, parabéns. Demais!

    • Renan Santos

      Valeu,cara. Que bom que gostou 🙂