Famintas

A magia as impulsionava. Estouravam pela correnteza, possuídas. Não tinham nomes ou desejos próprios, mais criaturas do que gente. Algum feitiço as tocara, transformando-as em seres encantados, e o instinto animal fez delas monstros: criaram pernas, braços, cabelos, mas ainda se locomoviam pelas águas com uma velocidade incrível. Tentaram saciar sua fome com peixes e caranguejos à medida que desciam o rio, mas seu paladar implorava por algo diferente, alguma carne mais macia, mais vermelha.

Movidas pela fome e por um medo que não compreendiam, alcançaram o mar. Muitas delas morreram, envenenadas pela água salgada; as mais resistentes buscaram refúgio em um belo complexo de grutas. Logo viram, porém, que os pilares e galerias de pedra rosa não eram obra da água, mas algo construído por seres vivos. Sentiram um cheiro diferente na rocha talhada e polida, um cheiro inebriante. Começaram a percorrer todo o perímetro, descobrindo novas grutas em torno de uma massa de terra fértil. Era uma ilha, cercada por rochedos que brilhavam ao sol. Adotaram aquelas passagens como seu lar, pois se sentiram seguras.

Em algumas partes encontraram costelas, fêmures e crânios frescos. Quebraram os ossos e sugaram-nos. Era aquele cheiro que enlouquecera suas narinas. Precisavam encontrar aqueles seres vivos, frescos. Onde encontrariam espécimes frescos? Começaram a farejar presas enlouquecidamente. Encontravam peixes, caranguejos e lulas, mas não a carne que desejavam. Algumas encontraram tubarões e foram devoradas. Estavam aprendendo a dominar aquele ambiente.

O ânimo da caçada as renovou, reativando seus instintos. As sereias machos jorraram sua semente nas águas, fertilizando os ovos das fêmeas. Dentro de poucas semanas havia centenas de novos seres nadando em meio ao cardume, seres feitos para o mar, com guelras na nuca, membranas entre os dedos, olhos negros e corpos lisos e rosados. Logo desenvolveriam longos cabelos roxos como as parentes.

À medida que cresciam, os filhotes da nova ninhada tornavam-se fortes e ágeis, mais destros que seus progenitores. Seu cardume ganhava números, ganhava força, e até mesmo os tubarões evitavam atacar, a menos que encontrassem filhotes desgarrados. Haviam encontrado seu lar, só lhes faltava a presa.

Uma das jovens silvou, dando o alerta. Sentiu o cheiro, perto. Cheiro da carne, a carne vermelha e macia, ali, ao alcance de suas garras.

Pairaram sob as sombras negras acima do mar. Havia seres vivos ali, e elas eram capazes de ler seus pensamentos, seus desejos. A sereia mais velha do cardume, mais experiente e mais capaz de controlar sua magia, perscrutou a vozes mente de cada um dos homens na embarcação e viu que eles sentiam falta de mulheres, de suas vozes e seus corpos, depois de tanto tempo no mar, longe delas.

A sereia mais velha emitiu silvos intensos, comunicando-se com as outras. Elas aguçaram seus sentidos e ativaram sua magia. Seus corpos moldaram-se em espasmos, convertendo-se naquilo que os homens desejavam: mulheres, mulheres perfeitas, de cabelos alongados, corpos generosos e pele cor de bronze. Irromperam para fora da água com um véu de espuma.

Os homens a bordo dos barcos chocaram-se ao ver lindas mulheres agarrando-se às suas embarcações. Suas vozes eram tão belas quanto seus corpos. Algumas delas cantavam, outras provocavam os marinheiros.

Você me quer — disse a mais velha, olhando nos olhos de um deles. Ele era jovem, tenro, repleto de carne. Ela lambeu os beiços. — Vamos, me puxe para cima, eu sei que você me quer.

O garoto a olhou e sentiu seu corpo tremer. Mesmo a imagem distorcida pela água era capaz de acender sua luxúria. Saltou na água; outros seguiram seu exemplo, sedentos por tocar aquelas beldades.

O garoto caiu no abraço molhado. Desamarrou a faixa de cintura que era sua única vestimenta, expondo o membro intumescido. A sereia beijou sua boca. O toque daqueles lábios fez seu corpo inteiro se arrepiar. Então veio a dor: a sereia prendeu seus lábios entre os dentes, arrancando-os. A presa se revirou e gemeu, mas outras sereias vieram por baixo e o seguraram. Uma abocanhou sua panturrilha, outras duas despedaçaram seus órgãos genitais. Três bastaram para arrancar uma de suas pernas com um puxão. Logo seus intestinos vazavam da barriga aberta, mordiscados pelos filhotes.

Nos outros barcos, poucos homens ainda conscientes berravam e remavam com toda a sua força, tentando escapar, mas a maioria estava entregue ao transe das doces vozes ou ao à agonia das águas sangrentas. Em grande número e possuídas pela fome, as sereias viravam os barcos, despejando carne fresca no mar. Agarravam-se aos braços e coxas arrancadas, enchendo as bocas. Mordiam bochechas e línguas, refestelavam-se com tripas e corações, sugando dedos e vértebras quando não havia nada mais a se consumir de uma única carcaça.

Dois barcos escaparam, suas tripulações seriamente defasadas. Algumas sereias tentaram partir no seu encalço, mas estavam lentas, de barrigas cheias, e as águas contaminadas atraíram tubarões. As desgarradas retrocederam e voltaram ao cardume, e o cardume voltou para suas cavernas de mármores rosa.

Os poucos sobreviventes dos barcos espalhariam histórias sobre as encantadas que residiam na ilha. Logo, o local receberia um nome igualmente encantador e agourento: Cantantes.

A mais velha lambeu o sangue do próprio corpo. Não queria desperdiçar nada, nem atrair tubarões. Quanto aos que haviam escapado, logo chegaria sua hora. Os homens sempre seriam atraídos pelo mar, e o mar era domínio delas.

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

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Vilson Gonçalves

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

  • Lara Forte

    Como não amar? Já sou até suspeita por ser fangirl do tio Virso, mas não canso desse estilo maravilhoso que me prende em cada descrição.

    • Vilson Gonçalves

      FICO VERMELHO, LARA

  • Emerson Braga

    Vilson, sua escrita é tão imagética que terminei a leitura com os dedos engelhados! Muito bom!

    • Vilson Gonçalves

      Rapaz, é um senhor elogio 🙂 Espero que continue curtindo os ocasionais jornadas Quatrocantos adentro aqui no Escambau.

  • Aline costa

    Muito bom! nossa sem palavras!parabéns

  • Nay Chan

    Nossa tava procurando algo mais fantasia aqui, adorei! muito envolvente.

  • Bacana o conto, Vilson. Boa escrita; salvo por um e outro deslize que escapou à revisão.
    Não sei se é bem uma sequência, mas confesso que gostei mais do conto anterior. ^^
    Abraço.

  • Angela Cristina

    Muito bom.
    Parabéns!