Logan, simplesmente

Poucos filmes de super-herói conseguem ser algo mais que um bom filme de ação com um equilíbrio razoável de piadas e explosões e chroma key. Menos ainda são os que conseguem também apresentar um drama envolvente, atuações magnéticas e uma estética linda e sem exageros. A Trilogia do Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan dominou esse pódio por muitos anos. Homem de Ferro e Capitão América: O Soldado Invernal até chegaram perto deste nível de poética cinematográfica, mas, se há um sucessor espiritual para o super-herói nolaniano, este é Logan, de James Mangold.

Logan, além de ser o melhor filme de super-herói dos últimos nove anos, é um filme sobre despedidas e sobre os rumos estranhos da vida. Mangold nos conduz aqui por um futuro esquálido, um mundo muito semelhante ao nosso, no qual os mutantes parecem estar perto da extinção. Lembram de como Magneto falava que o futuro pertencia ao homo superior e que o homo sapiens logo se veria extinto? Então, ele estava errado.

Logan e o professor Xavier são os últimos sobreviventes da clássica trupe X. O nome Logan deve ser enfatizado aqui: Wolverine não existe mais. Ele trabalha como chofer na fronteira EUA/México, juntando dinheiro para comprar os medicamentos do professor X, de quem cuida com o auxílio do mutante rastreador Caliban.

Sim, o professor Xavier, severamente traumatizado por eventos do passado, está um caco, para dizer o mínimo. Sua mente pode causar danos graves e ele precisa de cuidados para não se tornar uma ameaça. Ele também precisa de ajuda para se alimentar e ir ao banheiro. Patrick Stewart, que por anos teve a única atribuição de dar ao personagem um ar solene, cool e impassível, finalmente colocou toda a sua potência dramática na mesa, e sua interpretação de um Charles Xavier ferido e decrépito, mas ainda otimista, é comovente.

Hugh Jackman, por sua vez, nunca esteve tão bem no papel de Logan como agora, justamente no ponto mais baixo do personagem: quando ele não é mais um herói e seu corpo não é mais capaz de se regenerar como antes. Jackman interpreta um personagem quebrado. Levado pelas circunstâncias a resgatar Laura, uma jovem mutante fugitiva com poderes quase idênticos aos seus, ele caminha desajeitadamente entre o pessimismo, o afeto e o desejo de proteger.

Laura, aliás, é interpretada brilhantemente por Dafne Keen. A atriz mirim dá conta de um papel difícil, mudo pela maior parte do filme, transmitindo muito através de olhares. Sedenta de amor, mas pouco experiente com afeto, além de ser uma bomba-relógio temperamental com poderes terríveis, a menina é tão feroz, complexa e instigante quanto o personagem título.

Logan é, ao mesmo tempo, um filme de ação e um drama de família, tratando do peso da velhice, da dificuldade de preservar vínculos face situações traumáticas e do desejo de proteger entes queridos. Em cima disso, é também, claramente um filme de super-heróis, no qual a questão dos poderes é central. Logan é tudo isso, e em momento algum deixa de ser uma coisa para ser a outra.

A estética é incomum para os tempos atuais: há poucas acrobacias de câmera, a computação gráfica não é artificial ou intrusiva e a ação é orgânica e visceral. A violência, longe de ser florida, é terrível e dolorosamente realista. A velhice também é dolorosamente realista. Nada se perde nesse filme sem que a perda seja efetivamente sentida. A visualidade de Logan enfatiza, sem qualquer chavão, sangue, suor e lágrimas; os artifícios ficam em segundo plano.

Há ainda uma interessante metalinguagem em Logan. Neste universo, os X-Men são reconhecidos e admirados. Sua notoriedade é tamanha que estão presentes em histórias em quadrinhos e brinquedos. Segundo Logan, metade das histórias mostradas nas HQs não aconteceram, e as que aconteceram “não foram daquele jeito”. É uma forma bem elegante de dizer ao espectador nerd médio: “escuta, todos nós amamos esses personagens com muitas décadas de idade, mas você não tem a prerrogativa de dizer como eles devem ser representados”.

Ainda no campo da metalinguagem, o filme estabelece para si uma genealogia interessante ao se relacionar com Os Brutos Também Amam (George Stevens, 1953), um western sobre um pistoleiro que chega a um povoado para mudar de vida e precisa ajudar o povo local a se livrar do jugo de um grande pecuarista. Logan, um filme sobre um homem quebrado diante do deserto, forçado a fazer a diferença para ajudar outros, usando de violência contra a sua vontade, é também um western. Metalinguagem, anyone?

Pontos negativos? Eu vejo um problema no uso excessivo de palavrões. É claramente um fruto da empolgação de fazer um filme +18, e muitas das falas coroadas por “f*cks” funcionariam perfeitamente bem sem os mencionados “f*cks” ou empregando outros palavrões menos óbvios. Os antagonistas não são particularmente fortes, mas eu não tenho problema nenhum com isso. Vilões precisam ser bons em filmes que falam sobre a ameaça que um vilão representa; em filmes como esse, que tratam do arco pessoal do herói antes de qualquer outra coisa, os antagonistas podem ser mero dispositivos narrativos, e estes aqui dão conta.

Dois pequenos “poréns” em um filme que me fez sair esfacelado do cinema. É um poderoso drama familiar e um neo-western elegantemente produzido. Isso não quer dizer que você não possa apreciá-lo como um bom filme de ação apenas, mas eu acho que seria um desperdício. Este é certamente o filme de super-heróis mais complexo e rico que veremos em algum tempo. Em uma época em que contar uma grande história ligando milhares de filmes individuais é a prioridade do MCU e do DCEU, a Fox nos entregou aqui uma bela pérola de individualidade, criatividade e independência (a segunda depois de Deadpool, para ser justo), e isso deveria ser reconhecido.

Agora, as considerações.

Melhor citação: “É assim que é a vida: pessoas que se amam, um lar. Você deveria tirar um momento, sentir como é.” (Charles Xavier)

Maior pró: aquela sensibilidade tão rara de se achar hoje em dia.

Maior contra: a overdose de “f*cks”.

Minha avaliação pessoal: 5/5

30

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

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Vilson Gonçalves

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

  • Lara Forte

    Concordo com tudo que o mestre falou. Mas também quero pontuar a agonia que foi aquela parte da morte da família toda por nada. Mano, fiquei com ódio, porque era muito óbvio que ia dar merda e o Logan com 3 mil anos não conseguiu sacar a merda que ia dar? Porra, velho. Perdoo a falta de bom senso do Professor porque ele já tava caduco mesmo, mas não perdoo o Logan de ter cedido estando ciente que todo mundo ia morrer (porque ele tava, então pra mim isso foi foda).
    Mas de resto, amei demais e também foi 5/5 pra mim <3

    • Vilson Gonçalves

      Eu sei. Senti o mesmíssimo aperto no coração. Ao mesmo tempo senti que o Logan quis fazer uma vez a vontade do velhinho apostando que a merda não procederia. É um dos momentos mais assombrosamente humanos dá narrativa (que é toda assombrosamente humana).

  • Nay Chan

    Um ponto também, a atriz mirim Dafne Keen é tambem ginasta e ela mesma faz as acrobacias s2 Eu pessalmente nao me incomodei com os f*ck, mas eu sou da opiniao de f*ck é um dos unicos xingamentos que as pessoas usam em ingles e o resto é uma variação ou é menos forte. Boa análise!