UM LÉXICO DESCABIDO – #06 Em-pa-ciên-cia | s. f.

A capacidade de se lembrar que cada pessoa tem um mundo secreto dentro de si

Neil Gaiman escreveu, no quinto volume de Sandman, uma das citações de que mais gosto. Em uma tradução livre, ela diz que cada pessoa no mundo — independente do quão chata ou sem graça possa parecer — tem um mundo secreto dentro de si.

É uma ideia fundamentalmente bonita, se você enxergar isso como o potencial de que cada pessoa do mundo tem de criar, produzir coisas incríveis, ter ideias e formar suas próprias opiniões. Mas pode ser também uma ideia meio triste, considerando que, ultimamente, as pessoas não parecem lá muito interessadas em mundos internos alheios.

Sim, ter a capacidade de se importarcom o que se passa na cabeça das outras pessoas é, por definição, empatia. Mas sinto que a própria empatia, às vezes, pode deixar a desejar na lida com o outro no dia a dia. Porque realizar o exercício de se colocar na pele de outra pessoa em um determinado momento é difícil, mas é mais difícil ainda lembrar que aquele momento é só mais um entre a fila infinita de momentos que forma uma vida.

Com isso, digo que é possível (embora exija esforço) entender que a caixa de supermercado mal humorada está assim porque ninguém merece trabalhar de sábado a noite e ganhar uma miséria. Mas é muito difícil ter a sensibilidade de considerar que ela pode estar sofrendo de depressão, pode ter acabado de terminar um relacionamento, pode ter um filho acometido por uma doença terminal ou pode só ter derrubado catchup na saia nova que comprou ontem no shopping.

Não raro, os mundos secretos das pessoas vazam pra fora, como na vez que sentei na frente de uma senhorinha que chorava no metrô. Foi mais fácil pra mim entender que algo estava errado com ela, dar um sorriso e apertar a mãozinha dela dizendo que tudo ia ficar bem. Mas as pessoas não desfilam o tempo todo por aí com seus problemas estampados na testa, então o esforço de ter empaciência e tentar entender o outro — todo o outro, com seu passado, presente e promessas de futuro— precisa partir de nós.

Assim, com mais empaciência, talvez 2017 seja um ano melhor para todos nós.

É leitora, filha, viajante, irmã, escritora, colaboradora do Clube de Autores de Fantasia e do Pacotão Literário, humana da Pipoca e da Paçoca e, nas horas (não) vagas, engenheira de processos industriais. Devaneios, textões e fotos de filhotes em:

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Jana P. Bianchi

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  • Gina Eugênia Girão

    Costumo dizer: se fosse para o resto da vida eu teria que me acostumar. Concordando em princípio, empacientemente (rsrs) afirmo que não deveria haver necessidade de pensar em quantas/quais coisas ruins estariam acontecendo com a outra pessoa, para exercitar uma conexão respeitosa e gentil, mas tão somente aceitar que também há momentos que duram uma vida inteira, e, que, nesse caso, só nos resta aceitar. De resto, muito grata por essa visão lírica e lúcida, combinação quase impossível, hoje em dia.