Carta Sobre Uma Vingança Inviável

Primeiramente, desculpe-me por escrever essa carta anonimamente, ao final vocês entenderão os motivos da necessidade de tal ato.

Nunca quis causar sofrimento ou ver a desgraça de alguém, mas “nunca” é uma palavra precipitada demais para as incertezas da vida. Aquele momento o mundo desabou sobre mim e sentimentos perturbadores explodiram em desatino, raiva e ódio, a fúria tomou conta da minha alma. Eu pedi por vingança!

Sim, desejei vingança porque na situação que estou nada posso fazer, um covarde desgraçado deixou-me assim, morto da cintura para baixo.

Não tenho lembranças do momento, tudo o que sei foi pelas palavras de meu pai. Ele é policial militar, acompanha de perto as investigações do caso. Um vagabundo roubou um veículo e fugindo da policia entrou na contra-mão e me atropelou a dois quarteirões do local onde moro. O pior é que o canalha conseguiu evadir-se do local. Ele fugiu das grades e eu fiquei preso a uma cadeira de rodas, daí minha revolta. É muito difícil aceitar o fato de estar assim.

Aos vinte e três anos sonhei conquistar o mundo, mas tudo ruiu, virou pesadelo. Não sou culpado do ocorrido, ao menos se tivesse acontecido por opção minha, como voar e cair de asa delta, mergulhar e bater a cabeça no fundo da piscina ou tirar um racha e capotar o carro, essas seriam decisões minhas. Os riscos de algo dar errado seriam resultado de minhas escolhas, não por causa de um filho da puta, um nóia do caralho que rouba um carro e fode com a minha vida. Fiquei cego por vingança e fiz meu pai jurar que acabaria com a vida do meu algoz, sim algoz, já que me sinto, de certa forma, morto!

Possivelmente vocês estejam me julgando, alguns me condenam, por desejar a morte de alguém, dizendo que não sei o que aconteceu na vida da pessoa para ela roubar um carro ou todas essas coisas sobre direitos humanos. Por outro lado, muitos me apoiam, falando que estou certo, que se estivessem na minha pele fariam o mesmo, pois nesse país justiça não existe, que ninguém se recupera na cadeia e quando sai de lá está pior. Bom, qualquer dos discursos entre ética e inconformismo não ameniza em nada a situação que estou passando, o processo é terrivelmente doloroso, então se vocês não passaram por circunstância semelhante não me julguem!

Tudo que escrevi acima é um grande desabafo, uma forma de exteriorizar minhas angústias do presente momento. O passado é parte da memória do tempo em que eu podia sair andando por aí e o futuro é uma grande incógnita, tenho medo de como ele será. A vingança que tanto quis tornou-se impossível, as investigações obtiveram resultado, a descoberta do culpado foi tão avassaladora para mim e meus pais quanto o fato de estar paraplégico. O que senti foi um sabor amargo com gosto de decepção, outros tantos sentimentos que nem consigo descrever. O maldito que mudou meu destino foi meu irmão.

A perplexidade fez-se presente naquele momento, como absorver um soco na boca do estômago que a vida dá. O castigo era grande demais para minha família, um filho aleijado, o outro a caminho da prisão.

Desde que o caso foi elucidado não encontrei mais meu irmão, vejo meu pai e minha mãe findando-se em lágrimas; choram por mim, choram por ele. Meus sentimentos quanto a ele estão drasticamente abalados, não sei se um dia o perdoarei. Também não sei se meu irmão possui algum sentimento de culpa ou remorso por ter feito o que fez.

A vingança que desejei é inviável, ele é meu sangue, o sangue de meus pais. Apesar do desespero pelo qual estamos vivendo, se a vingança fosse executada, o trauma para todos seria muito maior. Por bem não aconteceu. O tempo trará respostas para todas as questões, e até lá lutarei para sobreviver em meio a todos os lamentos, esperando por uma solução que temo não existir.

Fabiano Sorbara, paulista da safra de 1975, depois de ficar anos sem saber o que fazer decidiu brincar de ser artista plástico e escrever por pura diversão, suas obras podem ser apreciadas no blog fabianosorbara.blogspot.com.br .

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Fabiano Sorbara

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