Por culpa do polegar opositor

Tudo começou na Rússia. Alguém decidiu permitir que cães e gatos fossem levados no metrô. Ok, tudo normal. Com o passar dos anos, percebeu-se que alguns cães aprenderam, sozinhos, a usar o transporte, sem a companhia dos donos.

O BuzzFeed fez uma importante e densa reportagem sobre o caso e a fofura da esperteza canina. Os cães pegavam o metrô nas estações próximas de onde viviam e iam a parques e praças da cidade. Eles sabiam exatamente onde saltar e o melhor de tudo: não pagavam.

Um cientista interessou-se pelo caso e foi estudar o grupo de caninos. Descobriu-se uma similaridade entre os cães: todos viviam próximos ao lago principal de Moscou.

O cientista começou a perceber que aqueles cães tinham desenvolvido, de alguma forma, uma inteligência sobre-canina. A causa, descobriu-se, era que os cães se alimentavam de pequenos moluscos que habitavam o lago e uma proteína rara, encontrada nesses moluscos, causava desenvolvimento cognitivo em ‘animais irracionais’.

Foi uma grande notícia para a comunidade científica.

Nos EUA, alguém achou que deveria experimentar tal proteína em outros grupos de animais. Testaram em primatas. Os primatas, sob efeito de uma dieta rica em proteína de molusco, logo se tornaram mais hábeis. Era quase possível uma comunicação periférica entre homens e primatas. Os primatas começaram a ser usados para realização de pequenos afazeres cotidianos. Limpavam casas, cortavam legumes e até botavam o lixo para fora.

Não demorou para que a criação em cativeiro de macacos superdotados se espalhasse pelo mundo. Era uma mão de obra barata, quase humana, e obediente. Os primatas, agora, serviam em restaurantes, trabalhavam na linha de produção de indústrias e praticavam todo tipo de atividade, antes humana, que a destreza de suas mãos, quase humanas, permitisse.

A sociedade protetora dos animais protestou. Mas ninguém liga muito para sociedades protetoras. A igreja logo tratou de convencer os fiéis de que os primatas precisavam ser convertidos. Os primatas ouviram sobre a necessidade de salvação e de adoração de um Deus feito à imagem e semelhança dos homens.

Alguns primatas padeciam sob a exploração de suas, então, novas capacidades cognitivas. Jornadas de trabalho de doze horas por dia. Nada de férias. Nada de tempo livre para subir em árvores e catar algumas frutas. Frutas? Não, só moluscos. Comer frutas após moluscos faz mal à saúde, convenceram os primatas. A sociedade humana prosperava diante da produtividade dos novos servos. A jornada de trabalho dos humanoides foi reduzida. Riqueza e tempo livre para comer frutas à vontade.

No chão de fábrica, alguns primatas começaram a protestar. Cruzaram os braços. A imprensa mundial logo se pronunciou taxando-os de rebeldes, delinquentes e vândalos. Viver sem a mão de obra primária é uma utopia, diziam os grandes líderes mundiais.

A medida encontrada foi misturar os primatas, impedindo que um número grande da mesma espécie trabalhasse em grupos. A dieta à base de molusco foi diminuída para que a capacidade de comunicação dos primatas estagnasse. Reuniões, organizações e encontros de primatas foram proibidas.

Os primatas que sofriam amputações nas linhas de produção eram enxotados de volta à natureza. Aumenta o percentual de acidentes de trabalho. Os patrões diziam-se traídos pelos vagabundos e preguiçosos primatas que, de propósito, mutilavam os polegares para que fossem aposentados. Sem os polegares, os primatas não conseguiam subir em árvores para pegar frutas. Os primatas começam a praticar pequenos furtos de alimentos e são presos em jaulas. A mídia diz que alimentar os primatas delinquentes é um prejuízo à economia. Polegares biônicos são implantados para que os primatas voltem a trabalhar dentro das jaulas. Juristas humanos dizem que isso é justiça. Direitos primatas para primatas direitos.

Era desumano. Mas os primatas não são humanos, quem se importa?

O metrô de Moscou volta a proibir a entrada de cães e gatos. Os primatas podem usar o metrô de Moscou, pagando e só para irem do cativeiro às fábricas, desde que cedam o lugar caso um humano esteja viajando em pé.

Os primatas estão exaustos. Os primatas estão tristes e desesperançosos quanto a voltarem para a copa das árvores. Os primatas morrem por dentro.

No BuzzFeed, uma reportagem sobre os primeiros robôs quase-humanos e capazes de pequenos afazeres cotidianos e comunicação.

Os primatas, observam a chegada dos robôs às fábricas. Ao ver o dedo polegar do robô, um primata diz: eu sinto muito por você. O robô não entende, ainda.

Administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

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Thiago Noronha

Administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

  • Santos Maria de Fátima

    adorei o texto, e a biografia confirma 🙂

  • Emerson Braga

    Thiago, meu querido, obrigado pelo texto. Levando, viu?

  • Catia Guimarães

    Vc de novo, nos fazendo parar e tudo fica turvo.

  • Marcelo Silveira

    Gostei muito!!
    Foi inspirador!
    Parabéns, Thiago!

  • Elisabeth Lorena Alves

    Reflexivo. Gosto. Mesmo que reconheça neles algumas de minhas falas ou falhas…