A Janela do Sétimo Andar

Poderia tratar-se de algo simples: uma história para contar e logo depois esquecer, contudo não acredito que sou criativo a tal ponto. Prefiro clamar por minhas dores e libertar um pouco do que não sai da minha garganta. Opto por um grito silencioso, por um singelo texto que sussurre ao mundo: “Ei! Ele existe”, além de desbravar alguém tão perdido quanto um pobre leitor numa livraria num país onde ler é um privilégio – pra não falar que é um luxo. Não sei se tenho cacife pra falar do passado ou de mim, porém – por sorte ou ironia do destino – eu sei escrever.

Carrego o peso nos ombros de alguns míseros anos, e mesmo assim me falta coragem pra seguir no caminho. Tenho alguns bons amigos, poucos e contados amores infantis e tantos nomes na biblioteca da mente que sequer organizo todos nas prateleiras. Não obstante, como um mutante, no íntimo sempre estou só – abandonado ao mofo e pó dum sótão qualquer. Diante de tudo, calo as mágoas e me aceito enquanto admiro a janela do sétimo do andar que, de tão simples, atrai meus olhares e pensamentos.

Perco-me nos planos futuros que, inevitavelmente, me trazem lembranças. Arrumo a camisa de manga longa, tento secar as lágrimas no rosto e percebo que não há o que secar. O passado é um livro estranho; são marcados os trechos tristonhos com risadas e arrependimentos, os felizes com um pouco de atenção e, no entanto, nunca me explicaram o que se deve marcar quando não existem momento felizes, apenas momentos. Sentir-se vazio é contundente, mas há dentro de mim um sonho insaciável; desde cedo, ao passo que assistia o Superman, cravei em mim o sonho de voar algum dia.

Ergo-me do fundo do poço sozinho, caminho até a cozinha e bebo água. Bebo água como se o mundo fosse acabar, talvez pra afogar os clamores que gritam presos dentro de mim, e retorno à sala de estar num passo compassado e com uma naturalidade absurda me jogo, confiando na gravidade, novamente no fundo do poço. Surto e medito – isso organiza um pouco o meu caos. Deduzo: o comodismo e covardia são linhas distintas que – em algum ponto – se tocam, os dias de chuvas sempre me parecem mais alegres e nada é mais inocentemente tolo que usar frases que parecem prontas. Prontas ou não; escrevê-las é o que me basta hoje pra dormir em paz.

Procuro encontrar o que não sabia que tinha perdido na brisa que sinto no rosto; o rumo. Sempre me ensinaram que você só pode perder algo que possui, e certamente aquele não era o caso – nem um momento extraordinário onde aquela lógica seria inválida. Sabendo do óbvio, deixo meus olhos se guiarem e miro, pela décima sétima vez, a janela. Dentre tudo de interessante no meu apartamento o que sempre prendeu minha atenção foi a mesma, e nunca alterada, janela. Como descrever uma janela? De tão cativante se torna impossível. No mais, se hoje eu morresse levaria comigo a certeza de que nada fora tão admirado por mim quanto a sedutora Janela do Sétimo Andar. Diva e divina; chamava-me em silêncio.

– Pra quê toda essa covardia? Porque não vai? – ouço uma voz risonha distante. Sem senso de direção, sinto que vem de toda parte.

– Não – respondo em seco.

Após, finjo que sou forte sabendo que horas depois me arrependerei da resposta dada. Entretanto, sempre digo “não” e o porquê disso; não tenho fibra pra sussurrar, declamar ou sequer escrever. Minha sina é me perder no que quero contar e no que prendo dentro de mim com medo de que a liberdade leve e não devolva mais o que me torna o que sou. Minha sina é escrever.

De muito falar de si esqueceu quem é, e transcreve os dados que encontrou: Admirador assíduo da fantasia inglesa, culpado por adorar o humor argentino, fã de Caetano e alguém que se sente velho apesar da idade. Não sabe o que essas informações podem oferecer a quem lê, mas sabe que escreve, pois só preso a isso consegue viver em liberdade.

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Conrado Franconalli

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