Resultado da Segunda Semana – III Prêmio Escambau de Microcontos

Com orgulho que apresentamos os escolhidos da segunda semana.

1 – Ana Luiza Ferreira

Na noite que a minha irma desapareceu, ela tinha dito antes de deitar: “você está ouvindo essa música?”. Cansada, eu só disse “não”, e de manhã a cama estava vazia. Nunca contei pra ninguém, mas, desde aquela noite, quando fecho os olhos pra dormir, escuto notas baixinhas de flauta.

2 – Nevio Guilherme Dos Santos Burgos

Toda conquista requer, muito sangue, suor e lágrima – pensou, enquanto recebia o seguro de vida da esposa.

3 – Junior Spades Bonifácio

Ficou em quarto lugar no concurso, mas havia apenas uma vaga. Em menos de um ano, três candidatos morreram. Parecia magia. E era.

4- Ana Luiza Ferreira

Encontraram os símbolos misteriosos no topo da montanha mais alta. Depois de dez anos de conspiração, cultos, e documentários de aliens do History Channel, finalmente os traduziram. O repórter da BBC anunciou as palavras: “Roberval tem pau pequeno.”

5 – Lohan Lage Pignone

A cicatriz da cesárea ainda ardia quando arrumou o ursinho azul de pelúcia com cheiro de novo dentro do caixão.

6 – Cássia Santos

Negro alto e forte, na infância capturado, fora marcado a ferro diversas vezes. Trazia na pele as iniciais do traficante, as letras dos proprietários. Se orgulhava do F impingido pela fuga. Só não compreendia a cruz do batismo marcada no peito.

7 Romeu Martins

Joãozinho, dê um exemplo de paradoxo. – Um trevo de quatro folhas que nasce embaixo de uma escada, professora.

8 – Oziel Herbert

O Padim tirou o frasco da batina. Fez o sinal da cruz e pingou uma gota vermelha entre os lábios do moribundo. – Ciço, isso é? – É sim, criança. Sangue da beata. O movimento veio devagar, dos dedos até a cabeça. Arfando, o cabra sentou de uma vez. Nos olhos, a vida. Na boca, as presas.

9 – Zé Ronaldo

Viu o garoto sorridente pedindo vinte reais para o pai e recebendo. O moleque fechou os olhos com força e mentalizou: “Alguém que me dê um sanduíche!”. Ficou assim por alguns minutos. Nada acontecera. Decepcionado, falou baixinho: “Magia é o caralho!”, sacou o revólver e anunciou o assalto.

10 – Cícero Almeida

Um escorregão besta escada a baixo, após o banho, foi o suficiente para findar com os planos de suicídio. Morrer não é previsível, de certo.

11 – Adriel Vieira

Ouviu o samba cantar palavras de amor, rodou. Soltou a barra da saia. Deixou o vento amornar sua calcinha. Das janelas diziam: Vish, né que o menino é todo afetado. Logo, deixou de dançar. Voltou a ser menino. O pai chegou. Chegou admirado pedindo ao filho: Bailarina, continue a dançar, continue.

12 – Regina Ruth Rincon Caires

Durante toda a vida, apontava cada cicatriz do corpo recontando as mais temerárias peripécias da infância. Moleque arteiro! Terror dos professores, desassossego das mães, amado pelas crianças. Sempre arrastava o bando. Hoje, sem saber se é dia ou noite, alisa aquelas marcas que nada mais dizem.

13 – Mauro Bartolomeu

O cabeludo já tinha deixado o bracelete, os anéis de caveira, até o chaveiro e o celular, mas mesmo assim a porta giratória continuava travando. Não adiantava: o metal estava no sangue.

14 – Isaac Morais


Sempre falaram que, ao tocar uma flauta, conseguiria atrair mulheres de todos os cantos. Mas, ao ver só ratos lhe seguindo, percebeu que nunca encontraria uma alma viva naquele esgoto.

15 – Edweine Loureiro

Menino-prodígio, aos três anos de idade, escrevia as primeiras palavras. Aos quatro, falsificava os primeiros cheques.

16 – Zé Ronaldo

Vamos brincar de bombeiro, bonequinha! Aqui, sobe nas costas do pai, eu sou a escada. Isso, saia agora por essa janelinha aí. A menininha estava do lado de fora, na rua. O pai vira-se para ela e sussurra: agora corre, meu amor, corre muito e peça ajuda! Nessa hora, a porta se abriu.

16 – Emerson Braga

O amor não foi capaz de sustentar o casamento maculado pelo lençol sem sangue.

17 – Ana Luiza Ferreira

O pior da prisão para Paulinho Cicatriz não foi acabarem com todos os seus esquemas, ou os vinte anos de pena, e nem mesmo o regime fechado.
Foi a polícia federal chamando tudo de “Operação Cirurgia Plástica”.

17 – Thiago Luz

Na Roma antiga, a flauta de Luperco mantinha os lobos afastados. Nos bosques mitológicos da Grécia, a flauta de Pã acariciava o coração das ninfas. Já na Avenida Paulista, a flauta de José Otávio se perde no som das buzinas.

18 – Gabriela M. Hardoim

Sua vida era linda, muito boa mesmo.
Havia viajado por vários lugares do mundo, conhecendo suas belezas e mistérios. Tinha um amor que a compreendia, um filho lindo, uma família sempre presente. Paz de espírito. Sonhos realizados.
A única cruz que carregava, era a sua fé, tatuada no seu corpo.

18 – Edweine Loureiro

Audaz e exibicionista, o motoqueiro cruzava as ruas sempre em alta velocidade, esperando, um dia, o reconhecimento público. Por fim, obteve: tanto que, hoje, todos reconhecem de quem é a cruz no cruzamento.

19 – Giseli Lemos

Seu feitiço era aquele sorriso. Vendia o acarajé na Praça Carioca. Baiana de Salvador, conhecia todas as magias e axés. Não havia um só ser que não se deliciasse com sua presença, e quisesse seu amor. Mas era livre, era vento, era de Oyá. Era impossível domar o vento.

20 – Edweine Loureiro

O filho, caçador, adentrou, eufórico, a cabana:
― Acho que acertei na pata o danado do bicho! Mas, esta noite, prometo: será a última vez que aquele maldito lobo uivará para a lua!
O pai, em silêncio, escutava-o com atenção; ao mesmo tempo em que tentava esconder, na mão direita, a recente cicatriz.

21 – Cesar F. Miranda

– É um encantamento – a Maga estende o papel –, sabe ler?
– Camponês não lê – diz o aprendiz.
– A palavra é o instrumento do mago, o meio por qual libertamos e enfeitiçamos mentes.
– Ler é para burguês, um homem tem que dar duro no sol!
A Maga suspira.
– Pelo visto já colocaram um encantamento em você.

22 – Luiz Antonio Caldas Filho

Quando criança, Josué viu a banda de pífano tocar na feira e seus olhos brilharam. Quisera aprender a tocar flauta, mas o pai não deixara, mandando-o trabalhar com a boiada. Hoje, homem feito, desistiu do sonho. Mas, quando toca o berrante, sua frustração ecoa nos pastos.

23 – Rodrigo Domit·

Aproximou-se lentamente, dividido entre o medo e o fascínio.

Os olhos cintilantes refletiam aquela magia. Estendeu a mão para tocá-la; mas logo recuou, urrando de dor.

Da dor passou à ira; e lançou-se ao ataque, até extinguir as chamas a pauladas. Ainda não estava pronto para aquela novidade.
24 – Sabrina Rolim

Se preocupava com a faca, a arma, o agressor. Corria das ruas, fugia dos homens, tinha a saúde assegurada. Mas sempre esquecia que a cicatriz mais profunda de sua vida com palavras havia sido talhada.

25 – Juh Cavalcante

Maria ainda enxugava as lágrimas enquanto descia as escadas arrastando a trouxa de roupas ensanguentadas. Pensava no medo que havia sentido. Seu coração ainda batia acelerado. Não foi fácil matar seu companheiro de tantos anos, mesmo ele merecendo cada facada.

25 – Tati Honorato

Olhava para aquele menino de boca sempre aberta, com um constante fio de baba a escorrer pelo canto, a cabeça ridiculamente grande, ele jamais falaria, jamais andaria ou brincaria como uma criança comum. Ela, que sempre sonhou ser mãe, não via nele um filho, mas uma cruz que era obrigada a carregar!

26 – Romeu Martins


Todas as palavras, todas as ações de nossas vidas são lidas em um gibi por um ser de dimensão superior que mora em um laço apertado na tecitura do universo. “Adoro essas histórias em cubinhos baratas! Sei que os personagens são muito tridimensionais, mas me divirto com eles mesmo assim.”


27 – Daniel Renatini

Sentada de olhos fechados, a jovem aguardava na passagem que separava o nosso mundo do outro lado. Os demônios começaram a vir como um enxame de abelhas furioso. Sem abrir os olhos, ela então tocou a flauta, abrindo outra passagem. Os anjos também estavam vindo.

28 – Romeu Martins

Pode ficar tranquila, a senhora estará aos cuidados do maior especialista em doenças do sangue em todo o mundo. Para sua sorte, ele acabou de chegar da Índia para trabalhar em nosso hospital. Venha comigo, vou apresentá-la ao Dr. Acula.

29 – Edweine Loureiro

– O que você quer? Já disse e repito: não vou lhe dar o divórcio! E muito menos a guarda dos filhos! – gritou, colérico.
E ela, com a voz doce que sempre o amansava:
– Que é isso, bem? Só vim pedir que troque a lâmpada.
E indicou-lhe a escada, posicionada sobre o chão cuidadosamente ensaboado.

30 – Francisco Petrônio Ferreira de Oliveira

Seis filhos, o marido morto por um naco de terra sem valor, sem trabalho fixo. Hoje todos vivos e pessoas de bem. Quando o primogênito quis saber o segredo, disse-lhe:
−Lembra quando me alimentava separada de vocês, no escuro? Se não tinha o suficiente fingia comer num prato vazio. Esta é a magia.

30- Rodrigo Domit

Na época da multiplicação e da fartura, estava sempre cercado de gente.

No entanto, quando veio a crise, teve que carregar a cruz sozinho.

Passada a tormenta, recuperou-se e ascendeu em questão de dias. Mas, após tanta decepção, não teve dúvidas: ordenou que escrevessem um novo testamento.

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