Entre a salvação e a felicidade – Microcontos do mês

Enquanto rezava na Mesquita, só pensava em ser alvo de uma apaixonada ocupação. Um antagonismo perigoso para quem desejava uma recepção diferenciada no céu. Os desejos humanos, entretanto, para Jade, superavam, naquele momento, o que pregava o Livro, bem como o temor do Juiz definitivo.

Surda às crenças, desejava sair do seu quadrado, quebrar paredes, romper os cabos, desatar as tranças, incendiar a lenha e ignorar os tratores da tradição. Queria ser a domadora de seu próprio destino, pegar o trem – sem a droga de qualquer vestido, nua – rumo aos trópicos. Ansiava ser uma mulher plena, livre e desejada. Não tinha quaisquer dúvidas sobre isso.

O encerramento dessa história, todavia, não teria um final feliz. Alçar voo, como uma gaivota, teria um preço alto demais a se pagar naquelas terras. Não daria, apenas, para se contar com trevos, com ferraduras, com a sorte, com o movimento das marés. O apreço e os tremores pelo cirurgião não seriam suficientes para superar os seus temores de criança.

A sua alma, infelizmente, continuaria salva. A sua felicidade, porém, seria gradativamente comida pelo machismo, pelo tradicionalismo, pela religião.

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