Meu amigo sapo

Era fim de tarde. A brisa soprava fresca, vinda do rio, trazendo o cheiro da terra molhada. Apesar da correria dentro da casa, o garoto estava sentado na varanda, sozinho e relaxado.

Olhando de perto, porém, podia-se perceber que não estava só. Olhando para ele, a poucos metros, o mesmo sapo enorme de todos os dias. Ficava parado no chão de pedra fria, não muito longe da mata que margeava o rio Solidão.

O garoto costumava, junto com os irmãos e um primo, passar as férias no sítio do avô. Os três menores eram o que a avó costumava chamar de “traquinas”; ele era o estranho, o diferente, o típico adolescente chato. Enquanto os menores corriam e pulavam e construíam a casa da árvore, o rapaz ficava sentado na cadeira de balanço, na varanda, colhendo a brisa que vinha do rio enquanto lia “O Cão dos Baskerville” ou alguma coisa da Agatha. Sempre gostara destas histórias de detetive.

Ele havia completado catorze anos há poucas semanas. Era magro, alto e desengonçado. Nunca fora muito de ação, mas já perdera a vontade das brincadeiras infantis. Quando não estava lendo, escrevia poemas desajeitados para a paixão da semana.

O sol se punha atrás das montanhas. As nuvens sobre elas simulavam um chapéu torto e colorido, formando uma imagem difícil de descrever. Era um momento único. A vida era boa, sim. Muito boa.

Esta era a terceira semana no sítio. Todas as tardes o sapo vinha, com seus pequenos saltos pesados, postar-se no mesmo lugar. Os olhos negros pareciam guardar uma profundidade insuspeita. Na verdade, ele lembrava um sábio eremita.

— Oi, Eremita – disse o garoto, colocando o livro no colo.

O sapo permaneceu imóvel. Fosse seguir a regra da rotina, dali a cinco minutos retornaria à mata, provavelmente para um mergulho gelado no rio.

De certa forma, aquele sapo sério e calado lembrava seu pai. Frio e distante, com um olhar profundo, a voz grave e autoritária… Há mais ou menos um mês, no aniversário de quarenta anos dele, tentara abraçá-lo, após a festa.

— Não faça isso – disse o pai, afastando-o com a mão espalmada. — Faz você parecer fraco. Carente, dependente. A Bia pode fazer isso, tem só dez anos e é menina. O Tito também, afinal tem só seis. Mas você? Você já é um homem. Para que abraçar e beijar? Não. Definitivamente não.

E assim, ele e o pai iam se afastando. E discutindo, discordando de muitas coisas. Ao fim do dia, o garoto sentia-se cada vez mais isolado, tendo nos livros e poemas as únicas companhias que julgava valerem a pena.

Hoje era um dia diferente. As cores estavam mais agitadas, o ar tinha um peso perturbado. Era como se a noite que se aproximava viesse com uma carga elétrica.

E o sapo ainda não voltara para a mata.

O garoto levantou e deixou o livro sobre a cadeira. Pelo barulho do chuveiro, Bia estava tomando banho. A avó estava na cozinha com Tito e Carlinhos, provavelmente comendo bolo, ela no chazinho de canela que tomava todos os dias “para regular os intestinos”. Podia sentir os aromas quentes no ar.

Desceu devagar os degraus da varanda, aproximando-se do bicho. Era enorme, colorido em tons de verde, a pele rugosa inchando e secando no papo. Imóvel estava, imóvel permaneceu.

— Oi, Eremita – disse. — Posso me aproximar de você?

Ele não respondeu. E não se mexeu.

O garoto deu três passos hesitantes. Ele parecia esperar, mas com sapos, nunca se sabe.

Aproximou-se mais ainda. Menos de um metro de distância agora. Outro passo.

— O que você quer, hein, rapaz?

A boca enorme se abriu e o bicho coaxou. Um barulho baixo e estranho ecoou reverberando de maneira profunda no peito do garoto. Ele teve um instante de confusão, uma tontura, como se estivesse fora do corpo e então as coisas ficaram estranhas.

Ele via pés diante de si. Seus pés! Levantou a cabeça, mas a visão tinha um ângulo estranho. Após um instante, os olhos focaram, e ele viu a si mesmo – seu corpo – olhando para as próprias mãos, admirado.

— Há quanto tempo – disse ele/eu, a voz soando estranha, mais desafinada que o normal — Ah, olá, garoto. Você não sabe a quanto tempo eu desejo que você se aproxime. Foram décadas preso neste… corpo, eu já estava quase desistindo. Embora fosse inútil, e acredite, eu já tentei me matar.

Ele tentou falar, mas o som que saiu de sua boca era cavo e baixo.

— Não, nem tente. – disse ele em meu corpo. – Eu, mais do que ninguém, posso dizer isso com certeza. Mas sei o que você quer dizer. É, isso é errado; sim, é muita injustiça. Mas veja bem: o encantamento sobre este… corpo – apontou para o sapo, para mim — é muito forte, e você viverá mais que várias gerações de humanos. Verá coisas e pessoas sob uma perspectiva diferente, terá a oportunidade de meditar e evoluir espiritualmente…

Ele parou de falar e inspirou. Sentiu o ar com a língua, e riu. Onde ficara a evolução espiritual dele, então?

— Velhos hábitos… – disse, retornando a língua para a boca. – Ah, este corpo cheio de energia… braços e pernas, e não patas! E como cheira bem!

Parecia ter esquecido de mim. Virou-se, farejando o ar que vinha da casa. O cheiro de chá de canela e bolo de milho.

— Fome! Nunca mais comerei insetos! Ah… obrigado, garoto. Obrigado!

Ele se afastou, indo em direção à casa. O garoto deu dois saltos, mas… o que faria? Aquilo era um pesadelo, não era? Tentou gritar, mas apenas o coaxar grave ecoou pelo terreiro.

Ninguém o ouviria. Ninguém lhe daria atenção. Preso para sempre naquele corpo! Não! Não! Não!

O rapaz acordou na cadeira de balanço, o livro no colo. Era fim de tarde, as nuvens faziam um chapéu torto e colorido sobre as montanhas.

“O Cão dos Baskerville” jazia aberto em seu colo, enquanto o sapo aguardava no pátio de pedra fria, imóvel, os olhos negros inteligentes e ameaçadores.

Ele deu a volta na casa e foi até o depósito de ferramentas. Numa caixa velha e mofada, enrolada em um oleado, estava a espingarda que um dia pertencera ao avô.

Aproximou-se do bicho com a arma escondida atrás das costas. O sapo permaneceu imóvel.

— Olá, amigo – disse, apoiando a pesada espingarda no ombro. Nem se deu ao trabalho de mirar, pois o alcance do chumbo o pegaria mesmo que tentasse fugir.

O trovão explodiu em sua mão, e ele deu uns dois passos para trás, quase caindo com o recuo. O cheiro de pólvora espalhou-se junto com a fumaça, e de dentro da casa vieram gritos assustados.

O sapo transformara-se em uma massa informe verde, vermelha e pulsante. O sangue formou uma poça a seu redor. No meio da pasta de pele, tripas e ossos, um dos olhos escuros ainda se mexia, como se perguntasse “porquê?”.

— Eu lamento – disse o rapaz, com um sorriso.

A avó saiu de casa aos gritos, seguida pelas três crianças. Tomou a espingarda das mãos dele, perguntando se estava ficando louco. A menina chorava, pois ele “havia matado o sapinho sem motivo”. Os outros dois meninos olhavam para ele com admiração e medo.

Um carro se aproximava, provavelmente o pai. Problemas. Mas ele não se importava. O pior já passara.

O vento soprou para longe o cheiro de pólvora e sangue. Na brisa, restaram apenas os aromas de terra molhada, chá de canela e bolo de milho.

Nunca mais comeria insetos. Nunca.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.