Resultado da quarta semana – III Prêmio Escambau de Microcontos

1 –  Luciana Eleotério

Dos cursos de medicina, optou por ginecologia. Imaginou que vendo aquilo todo dia, lhe causaria afeição.

2 –  Matheus De Oliveira Lopes

São Longuinho, São Longuinho, se eu achar minha chave, dou três pulinhos! O santo recebeu a oração com um sorriso. Puxou o walkie-talkie: — Pronto. Pode liberar o refém! Na Terra, o anjinho ladrão colocou à chave de volta na bolsa da mulher.

3 –  Marcelo Silveira

Deu com a língua nos dentes. Foi parar no hospital.

4 – Isaac Morais

Abriu a torneira e deixou a água assumir o lavatório. Em meio ao líquido, o pequeno barco de papel desgoverna no redemoinho crescente. As ondas brigam entre si e a maré anuncia o dilúvio e o caos. —Vamos ver se você aguenta essa, Noé —murmurou Deus.

5 –  Zé Ronaldo

Ele sofrera o embargo: as mãos que lhe apertavam a garganta deixavam sua vida retida na fronteira.

6 – Viviane de Melo

As luzes da ambulância dançavam no ar enquanto lembrava-se da mãe dizendo para não ir à discoteca.

7 – Edweine Loureiro

Recém-chegado ao terminal, sentou-se em um banco e começou a perguntar a todos que por ele passavam: “A que horas vem o ônibus?”. Até que, cansado da ladainha, um dos fantasmas resolveu dar-lhe a notícia.

8 –  Maria Do Carmo Guimaraes Rodrigues

No cubículo mal iluminado, o odor de suor suplantava o do éter. Em meio ao silêncio, tensão e oração.  Enfim, o baque metálico no fundo da lata de cerveja vazia. Entre a vida e a morte, a Medicina salvou o bandido.   Entre o fuzil e a escopeta, a fé salvou o médico.

9 – Francisco Petrônio

Diante do lavatório, lembrou-se da fala da mãe: “a água lava tudo, minha filha”. Lavou as lágrimas, o sangue da boca, a lama das mãos. Armou o cabelo desgrenhado num coque. Suspirou engolindo a vergonha. Só não lavou o coração que já não existia…

10 – Madu Madureira

Relaxou o cinto, era o fim do embargo. Pediu mais duas porções.

11 – Nilo Paraná

O casal de velhos passeava de mãos dadas na praia. A água fria batia em seus pés. Pequenos caranguejos corriam e enterravam-se à sua passagem. Redemoinhos jogavam areia em suas pernas. Caminhavam em silêncio, entre gaivotas e conchas. Não precisavam de palavras, ouviam a língua do mar e do vento.

12 – Emerson Braga

Através das janelas da alma, percebeu que o tempo havia sido o ladrão de sua juventude.

13 – Rita Zuim Lavoyer

Seu falatório não convencia mais ninguém na recepção do pronto socorro. Teria que esperar sua vez para ser atendida. Não aguentando mais e, com a boca seca, arrastou-se até ao banheiro e banhou-se no lavatório. Agarrou-se nele e, perdidas as forças, sentiu seu filho escorrer-lhe entre as pernas.

14 – Edweine Loureiro

Na discoteca, de repente, o tumulto: o DJ, acuado, implora o perdão ao público enfurecido, prometendo nunca mais confundir Chaka Khan com “toca É o tchan”.

15 – Welington Moraes

Era o primeiro dia de Paulo como cobrador. Ao subir no ônibus os olhares se cruzaram. Um calor desconhecido subiu ao peito, trazendo cócegas a base do diafragma. No terminal rodoviário, seu João, o motorista da linha 157, sorriu pela primeira vez em trinta anos de trabalho.

16 – Denis Naruk

A discoteca do vovô musicalmente era bastante eclética. Só o vovô que não. Vovô era das antigas. Nunca deixou a vovó dançar.

17 – Steverson Silva

Do terminal peguei um táxi. O diacho era falador…”Amo meu trabalho. Sou meu próprio patrão e ninguém me dita o que fazer”
Então eu disse: Bom para você. Agora, vire à esquerda!

18 – Rodrigo Marques

Frágil, após mais uma sessão de quimioterapia, a menina escuta o diagnóstico do médico e pergunta:
– Mamãe, quando eu passar dessa fase terminal posso jogar de novo? Prometo me comportar mais dessa vez.

19 – Erinilton Gomes Soares


Ele a viu dançando na discoteca. Não sabia de qual mundo encantado ela veio. Só sabia que não queria mais ser garçom . Precisava pertencer à casta que pode dançar.

20 – Rodrigo Domit

Ele preferia cães a gatos.

No entanto, após os embargos sobre a carne bovina, por conta da vaca-louca; sobre as aves e suínos, devido às gripes; e também sobre os peixes, saturados de metais pesados; não podia mais se dar ao luxo de ficar escolhendo.

21 – Elias Alves da Silva

Quando sentiu tocar-se mais intimamente, não opôs embargos. Uma onda de prazer que não estava no script o dominou de súbito. Toda aquela rudez ancestral caiu por terra naqueles cinco minutos. Seu coração duro quase se partiu ao meio quando o urologista lhe disse: “Até o ano que vem”.

22 – Emerson Braga

A leitura da bíblia servia-lhe de lavatório. Apenas ele não percebia, mas o sangue e toda a sujeira continuavam lá.

23 – Gabriel Engster

Foi aquele clichê, um sonho de artista mas a faculdade de medicina feita pra agradar os pais. Pulou de alegria quando descobriu que podia fazer arte abstrata prescrevendo receitas.

24 – Luiz Antonio Caldas Filho

– Pega ladrão!
Antes que Israel conseguisse provar que a bolsa que carregava às pressas era de sua esposa, que o esperava numa entrevista, já o teriam coberto de socos e pontapés. Logo, Isabel saberia que o emprego era a menor das coisas que havia perdido naquela tarde.

25 – Regina Ruth Rincon Caires

Moleque arisco. A largueza podia ser vista como cabortice, mas não era. O pai encabulava, puxava o freio, mas o brilho dos olhinhos matreiros o dobrava. Sorria com os olhos. O temor era que pegasse gosto de bulir com tudo, como fazia com a roça de melancia do vizinho. A vida não perdoa ladrão.

26 – Gabriel Engster

Levaram Cláudia na benzedeira, no pastor, na fonte milagrosa e até com o diabo fizeram pacto, e nenhuma melhora ou, pelo menos, uma dica do que a bendita tinha. Finalmente apelaram pra medicina. Depois de oito consultas com médicos e doutores a constatação foi unânime: é virose!

27 – Romeu Martins

“Percebendo que a estrela orbitada por Klepton, o Planeta dos Ladrões, estava prestes a explodir, o maior cientista daquele mundo enviou à Terra seu único filho…”
— E então, o que está achando?
— O início de sua autobiografia parece bastante fantasioso, senador.


28 – Elias Araujo

Primeiro sentiu o formigamento. O olho descaiu. A boca retorceu.
Depois a dor de morder a língua velha, nunca beijada. Sentiu o sangue, enojada do gosto no dente.
Quando viu os meninos vindo da lida, a cabeça voltou a funcionar. Soltou a língua, cuspiu o sangue.
E foi terminar o almoço.

 

29 – Lohan Lage Pignone

Aquela discoteca fervia ao som do Bee Gees. O DJ vestido de demônio tocava fogo no palco. As meninas incendiavam e arrancavam a roupa do corpo. A rapaziada berrava ensandecida. Em meio àquele fogaréu e a toda fumaça tóxica, entrar no compasso de “Staying alive” era a única salvação.

30 – Claudia Jeveaux Fim

O marido esqueceu o aniversário da mulher, chegou bêbado e buscando intimidade. Sem falar nada, ela o repele e vai para o quarto.

Cinicamente, ele pergunta _E aí, vai ser interdição ou embargo?

Calmamente, ela responde _ Troca de titular.

31 – Carlos Relva

Terminal, aqui?! Eu?! Euzinho?! Já sabia! Estou morrendo e esconderam isso de mim! Ó, Deus, não existe medicina para a minha moléstia!
– Cleusa, avisa a nova faxineira que é proibido gritar “limpeza terminal” perto de paciente hipocondríaco, tá bom?

32 – Edweine Loureiro

Ponha a língua para fora! Agora, recolha! De novo, para fora! Isso! Boa menina…
Enquanto isso, um homem, recém-operado das costelas, observava, preocupado, que o pai zombava da pobre serpente.

33 – Camile Fernandes

Tinha orgulho de só usar a língua culta, a norma padrão. Acertava as mesóclises, próclises e ênclises. Era perito no uso das metáforas e do hipérbato. Beijava mal. Não sabia usar a língua.

34 – Hélio Sena


Deparou com o “objeto” esquecido na pia do banheiro do terminal rodoviário. Pegou-o, examinou-o, testou-o. Infelizmente
não servia nela! Saiu do banheiro chateada. A dentadura ficou lá, toda sorridente…

35 – Edweine Loureiro

-Sou um homem do povo! Gosto de abraçar e cumprimentar a cada um de meus eleitores! Resumindo: é no meio do povo que eu lavo a alma! – falava o deputado ao repórter, enquanto, no lavatório, caprichava no sabão para tirar os pedaços de povo que haviam ficado embaixo das unhas.

 

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