O queijo que sobra na sanduicheira

Acordou pelo cheiro do café. Sem abrir os olhos, suspirou um lamento. Foi em pesados passos até o banheiro. Tirou a barba em detalhes. Vestiu-se no melhor estilo “tanto faz, o dia hoje vai ser uma bosta mesmo”. E foi até a cozinha.

Bom dia, amor!

Bom dia, mô!

Um beijo de sabor estranho. Meio café, meio enxaguante bucal de menta. Sentou-se. Serviu dois dedos em uma xícara. Só havia una coisa que levantava Paulo cedo para preparar o café. Ele anunciaria a qualquer minuto que começara um novo livro.

Podia ser egoísmo da parte dele o entristecer diante da onda criativa do parceiro. Acontece que Paulo, durante seus períodos de criação, assume características dos protagonistas das histórias. E nem sempre isso é uma coisa legal.

Ele lembrava perfeitamente de uma vez em que o personagem era um gênio do mercado de ações. Paulo achou que poderia se aventurar na bolsa e perdeu quinze mil reais ao investir numa empresa chamada Geodute. Mas é claro que uma empresa dessa não é confiável. Geodute é um pokémon escroto e fraco, não é nem a evolução. Todos sabem disso. Tiveram que cancelar as férias em Cancun.

Outra vez, Paulo escreveu sobre um general que passou dois anos perdido na floresta. Decidiu, então, fazer treinamentos de sobrevivência na selva. Pegou uma dessas malárias muito loucas e quase morreu. Todos sabem que deve-se evitar morrer longe de casa para não deixar os parentes com uma pica gigante para resolver de translado de defunto.

E teve uma alpinista coreana que o fez matricular-se em aulas de escaladas. Caiu e quebrou três ossos do pé. Ficou de cama por dois meses com o pé para cima. Ele lembrava de como era bizarro fazer sexo com alguém provido de pouca mobilidade. Mas era legal cuidar dele, coçar por dentro do gesso bem naquele ponto que mais tá incomodando.

Paulo foi aventurar sua capacidade criativa em personagens do oriente. E lá se foi uma aventura conjunta de jejum ao tentarem uma imersão ao ramadã. Perderam dez e oito quilos, respectivamente.

Tenho uma coisa para te contar.

Hum?

Lá vinha. O que teremos dessa vez. Outra freira? Um gangster? Um treinador de baleias? Tentou lembrar dos últimos dias. Às vezes Paulo já dava sinais do que estava por vir. Quando Paulo tomou porres homéricos de vodka, ele sabia que o rolê ia acontecer pelos lados da Rússia.

A mesa estava cheia. Mal sinal. Frutas. Só frutas e sucos. Um pão estranho. Não tinha queijo, cadê o queijo? Meu deus, teremos um maldito protagonista vegano?

Seria mais um livro de contos? Os livros de conto eram os piores. Toda noite ele se via a jantar com uma pessoa diferente devido a reduzida expectativa de três ou quatro páginas de vida dos personagens. Assassinos. Surfistas. Virgens. Pescadores. Chineses. Sexualmente era interessante. E em dias de muita produção, misturava três personagens de uma vez e dava um certo bug.

Comecei um livro novo.

Ao passar o olhar rapidamente pela cozinha viu que, na empolgação de preparar o ‘café da manhã do anúncio’, Paulo também fez uma faxina. Limpou o pó sobre a geladeira. Limpou meia gota de óleo que salpicou no fogão. Desceu o lixo. E até a sanduicheira. Ele lamentou pelas casquinhas de queijo de dias atrás que ali estavam. Ele tinha planejado comê-las qualquer noite dessas.

Espero que esse personagem goste de mim.

Daniel, todos os meus personagens só têm uma coisa em comum. Todos são perdidamente apaixonados por você.

Um segundo beijo. Meio pão estranho, meio café com pêra. Daniel estava muito mal vestido para um dia que começara tão bem.

No laptop aberto num portal de notícias sobre a mesa aparecia em destaque que as ações da Geodute aumentaram 700%. Seria uma boa ironia de café da manhã, tomar ciência disso. Mas Daniel não lia o site de notícias. Abrir o laptop sobre a mesa era apenas um hábito. Daniel é dessa pessoas que muda pouco.

Administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

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Thiago Noronha

Administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!