Os campos de sangue – Parte 1

Quando Nicolau despertou, viu a claridade fria do dia que estava para nascer. Rangendo os dentes, levantou devagar, apoiando a mão na terra úmida.

O campo estava encharcado. Em alguns pontos, poças se formavam sob riachos pastosos e avermelhados. Havia membros e vísceras por toda a parte. A seu lado, olhos em uma cabeça sem corpo pareciam querer perguntar algo.

Ele estava coberto de sangue, tripas e pedaços de carne. Apesar do fedor, respirou fundo e forçou a vertigem a passar.

Não encontrou sua espada. Verificou a armadura e lembrou do golpe que o havia derrubado, ao sentir as pontas de metal viradas para dentro a lhe arranhar a cota de malha – também rompida – sobre a pele sensível.

A espada de Arturo atravessara-o na barriga, rompendo órgãos e a coluna vertebral. Saíra em suas costas com um som úmido de romper.

A dor.

Com esforço, retirou o peitoral e a cota de malha. Sua camisa estava dura e colada à pele pelo sangue do ferimento. Rasgou-a. Um vento frio soprou, vindo das montanhas.

Não havia tempo a perder.

Procurou, entre os corpos, alguma roupa que estivesse utilizável, protegendo-se do frio o melhor que podia. Apanhou do chão uma espada leve e seguiu para norte, em direção a Campo Dourado.

 

Quando avistou a muralha que cercava a cidade era quase meio dia. Ele havia se lavado em um riacho no caminho, para que os passantes não se assustassem tanto com sua aparência. Apesar de não querer chamar atenção, não podia evitar os olhares questionadores daqueles que o viam a pé.

Estava quase chegando ao portão principal quando ouviu alguém gritar:

— Perdeu sua montaria, cavaleiro?

Um cavaleiro do rei seria reconhecido em qualquer lugar. As tatuagens negras no rosto denunciavam-lhe com facilidade.

Houve risos entre a multidão que começou a se formar. Junto com o cheiro de suor de cavalos e estrume, ele podia perceber a agitação. Continuou seu caminho, sem alteração.

— Ei, estou falando com você!

Um puxão brusco em seu ombro, e ele caiu sentado. As risadas eram mais abertas agora, mais altas. Um cavaleiro jamais seria surpreendido assim, era o que os olhos na multidão diziam.

Nicolau levantou devagar, dissipando a tensão dos músculos. O ferimento latejava sob a pele, e tinha certa dificuldade de respirar. As pernas ainda tremiam um pouco. Daria qualquer coisa para não ter de lutar agora.

— Quem é você, cavaleiro? – perguntou o homem de cabelos claros. Ele era pelo menos uma cabeça e meia mais alto que os demais.

— Nicolau, filho de Miguel – respondeu. — Cavaleiro de segunda ordem do rei Samuel II.

— Um cavaleiro sem cavalo ou um ladrão de armaduras, Baliel? – gritou alguém da multidão.

— Olhem, eu tive problemas e estou ferido. Preciso falar com o Intendente desta cidade… Não quero confusão.

— Ah, ele não quer confusão! – gritou Baliel, abrindo os braços e girando sobre si mesmo. — Ele quer apenas um cavalo e um pouco de comida, para voltar correndo até a corte do Rei!

— Seria muito bom – disse Nicolau. — Será que alguém pode me ajudar?

Baliel estendeu a mão com o polegar na palma, o gesto padrão de boa vontade do Reino. Nicolau se aproximou e, no momento em que o cumprimento ia ser completado, sentiu o soco na lateral do rosto e caiu mais uma vez.

— Parece que o “cavaleiro” não aguenta a armadura! Que vergonha, Rei Samuel! Só há covardes e fracos entre suas linhas…

O mundo girava. Gosto de sangue na boca, e um forte zumbido no ouvido. Nicolau tentou ficar em pé, mas caiu de joelhos.

— Um cavaleiro sem cavalo, que não aguenta um soco! Veja, Monte Dourado, um impostor! E o que fazemos com impostores?

— Morte, morte, morte! – gritaram todos, num coro que parecia já ter sido executado várias vezes. — Pendurem ele! – Ouviu de uma criança próxima.

Baliel caminhou até Nicolau e, com um chute, derrubou-o com o rosto na lama. A dor de seu ferimento explodiu mais uma vez, e ele perdeu o ar e o controle das pernas.

— Eu, Baliel segundo, filho de Tantas, o Intendente de Monte Dourado, condeno este infeliz à forca!

A espada do cavaleiro retiniu ao ser puxada para fora da bainha. Nicolau sabia o que ia acontecer, mas não deixou de ficar surpreso com a agudeza de seus sentidos na hora em que o metal atravessou suas costas e o prendeu no chão. Veio a dor, e depois a escuridão.

 

 

Despertou numa cabana escura e malcheirosa. Estava nu. O ferimento doía, mas havia fechado.

Vasculhou a cabana em busca de roupas e encontrou as que estava usando quando fora empalado por Baliel. Aquele louco precisava ser detido. E se era mesmo filho do Intendente, ambos precisavam morrer. O sangue não se dissipa com facilidade no tempo.

Abriu a porta e dedicou uma prece a Isha pelo silêncio. Do lado de fora, a escuridão o protegeria.

Precisava de uma espada. E de Baliel.

Havia uma ferraria ali perto, podia sentir o cheiro de cinzas e metal temperado. A porta era apenas um pedaço fino de madeira, não representou obstáculo. Pegou um punhado de cinzas de um fogareiro que estava apagado e guardou no bolso. Analisou algumas espadas que estavam expostas em ganchos na parede e, escolhendo uma – pequena, mas pesada, de corte excelente –, enrolou-a em um pedaço de pano grosso e saiu.

 

Roubou duas maçãs e um pão de uma casa próxima, e bebeu do cocho dos cavalos. Suas pernas não tremiam mais, e o frio deixava-o desperto. Caminhou até uma carroça de feno que estava ali perto, estendeu o pano grosso em que enrolara a espada e deitou. Esperaria pela manhã, para acertar as contas com o gigante que o matara.

 

Acordou com a primeira luz. Comeu o pão seco e bebeu água, fazendo pequenos movimentos que para estimular a circulação.

Antes que Campo Dourado despertasse, umedeceu as cinzas que trazia no bolso com água e, com a pasta escura que se formou, untou o rosto, disfarçando a tatuagem de cavaleiro. Seria o suficiente para chegar perto de Baliel sem chamar atenção.

 

No meio da manhã, circulou pelo bairro da feira, entre gritos e discussões. Lama por toda a parte, cheiro de comida velha e apodrecida e suor antigo. As barracas, precárias, estavam cheias de gente. Tinha certeza que sua presa logo apareceria.

Não demorou a acontecer o que esperava: gritos e a formação de multidão. Entre eles, a voz potente de Baliel. Ele falava com alguém, e a cada frase ouvia-se um barulho molhado e gemidos desesperados de dor.

Abrindo caminho entre a turba, Nicolau conseguiu chegar ao centro do círculo e ver que ele batia em uma senhora grisalha. Ela estava deitada na lama, encolhida e quase desmaiada.

— … como pode me negar uma garrafa de licor, velha? A mim, Baliel, o próximo intendente desta cidade?

— Não pode ser intendente quem está morto – falou Nicolau. — Está na lei.

— Eu sou a lei aqui! Quer tomar o lugar desta velha? Eu já acabei com ela – disse, e cuspiu sobre a mulher. Ela não se mexia.

— Não tenho interesse em tomar lugar de ninguém. Apenas me preocupo com a justiça.

— Quem é você? Um espião do Rei Vermelho?

— Não lembra de mim? Vim te devolver um favor – respondeu, a espada nas mãos.

Baliel ficou branco e deu dois passos para trás.

— Mas eu… Você… Eu te matei!

— Verdade – disse Nicolau. — E agora é minha vez.

Não houve tempo para Baliel retirar sua espada. Sua cabeça rolou no chão fétido, e seu corpo caiu – primeiro de joelhos; depois, de barriga – com um baque úmido na lama.

— Nenhum injusto escapará — gritou ele para a multidão. — Eu, Nicolau, Cavaleiro do Rei, invoco o poder de juiz e executor sobre essa cidade miserável!

A multidão se dispersou entre gritos de “chamem os guardas” e “avisem ao Intendente”. Mas não houve muitos chamados naquela manhã cinzenta. Antes do meio dia, Campos Dourados havia se tornado um campo de sangue.

 

O Intendente era um homem repugnante, mas esperto. Aceitou ceder a Nicolau um cavalo descansado e suprimentos, em troca de sua vida.

— Os homens do Rei chegarão aqui antes do fim do mês, Mestre Intendente, para apurar como você tem dirigido a cidade.

— Não há o que temer, meu senhor – disse o velho, com a fala pastosa dos que não tem mais dentes, sentado em uma cadeira forrada de peles. — E peço, mais uma vez, desculpas pelo comportamento bárbaro de meu filho.

— Sinto muito pela cidade. Mas não por seu filho.

Nicolau havia chegado até a porta, quando o Intendente falou:

— Como vou sobreviver sozinho até a chegada dos Homens Vermelhos?

— Faça o que sempre fez – respondeu. — Roube. No mais, algumas mulheres e crianças sobreviveram. Aquelas que se mostraram dignas diante de meu julgamento. Trate-as bem, ou eu voltarei aqui por você.

 

Nicolau cavalgava a égua castanha com rapidez. Era um excelente animal. Chamava-se Corióla, “redemoinho”. O cheiro do suor dela fazia com que se lembrasse porquê havia se tornado cavaleiro.

Havia um espião do Rei na cidade, que também tivera seu fim sob a ira de Nicolau. Mas antes de morrer, ele havia dito que Arturo estava se dirigindo para o Castelo Rubro, e tinha, pelo menos, uma semana de vantagem.

Ele esporeou a égua mais uma vez, e ela aumentou a velocidade sem reclamar. Com certeza não aguentaria a viagem inteira, mas antes que ela desmaiasse de cansaço, procuraria por um outro animal. Precisava chegar em casa antes de Arturo. Sabia o que o príncipe queria. Sabia-o melhor que ninguém.

— Vou salvá-lo, pai – sussurrou Nicolau, agarrando-se ao pescoço de Corióla. — E, desta vez, não terei piedade de meu irmão.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Vilson Gonçalves

    Muito bom.

    • Michel Euclides

      Vilson! Odin olhou para mim e disse: “Muito Bom!”!

  • Moacir Marcos

    Caramba. Nicolau botou foi pra ferver.

    • Michel Euclides

      Nicolau é mau, e é a única rima aceitável para adultos de bem, Moa. 😉