A torneira da pia do banheiro

Acordou na hora de sempre, quando os dedos do sol se esticavam ainda sonolentos. Não se levantou de imediato como de costume. Ficou deitado olhando as telhas. Feixes de luz penetravam no quarto ferindo a escuridão. Um cheiro antigo, de dias felizes e barulhentos, invadiu suas narinas. Inspirou fundo o odor de saudade; aroma de sua filha aos cinco anos. Havia muito tempo que não sentia aquele cheiro. Ouviu as risadas reverberando nas paredes da casa vazia, o corre-corre estalando nos porcelanatos rachados da sala, os sons estridentes da televisão ligada em um canal infantil. Vislumbrou bonecas, cadernos, livros e lápis, de todas as cores e tamanhos, espalhados pelos cômodos.

 

Levantou-se. Passos lentos de pés vetustos. A sala encontrava-se vazia e quieta. Ao chegar na enorme cozinha, foi arrebatado por mais recordações. A companheira sorria para ele erguendo um copo cheio de vinho. A mesa posta, repleta de gente e comida. Era natal. Crianças corriam rodeando a mesa, adultos e jovens conversavam, brindavam, sorriam, cantavam; viviam…

Vida que não existia mais ali.

Foi retirado dos devaneios pela precisão urgente de urinar. No banheiro, após se livrar dos líquidos que inchavam o corpo velho, percebeu que a torneira da pia havia parado de gotejar. Estranhou. Abriu e fechou a torneira. Havia água. Foi tomado por uma sensação de perda incompreensível. Convivera com aquele lacrimar sereno, perene, resignado, por dez anos. Desde que ficou completamente só. Passava horas, sentado no vaso, vendo as gotas caírem. Os pingos caindo lentamente, remetiam-no ao tempo passando. Gotas de tempo ruindo, morosas e constantes, como uma ampulheta líquida da existência. Foi então que compreendeu. Olhou-se no espelho e sorriu.

Ela chegou fingidamente mansa. Estudou-o por uns instantes e atacou. Fulminante e indolor. Uma longa puxada de ar, um suspiro, a queda e o perfume da filha alegrando o fim.

 

LEIA TAMBÉM: