Coma

Sei que estou grávida.

Soube-o no exacto instante da concepção.

Pouco antes do acidente…

… do terrível acidente.

Estávamos tão bem naquela noite, Pedro!

Será que te recordas?

Será que as memórias chegam aí, onde estás?

– Pedro! Pedro! Ouves-me?

Os médicos ignoram a minha presença. As enfermeiras entram, saem, tratam-te, tudo como se eu nem existisse.

Não me importo. Não têm nada para me dizer. Resta esperar. E prefiro atravessar este deserto em silêncio, só contigo. Tu nesse teu limbo e eu no meu, aguardando o teu despertar.

– Pedro!

Ainda não fiz o teste de gravidez, é cedo e também não quero fazê-lo sem ti, quero que estejas comigo quando confirmarmos esta certeza que já é minha.

Como ficarás feliz!

O teu olhar iluminar-se-á reproduzindo as cores do arco-íris, como dantes, quando ríamos, quando éramos felizes, quando tudo estava bem.

– Pedro! Acorda, Pedro!

Temos a vida suspensa à nossa espera.

Não sinto fome, não tenho sono.

Deambulo, nem sei por onde, quando não estou à tua cabeceira.

O bebé mexe-se, sei que mexe, minúsculo, microscópico, dentro de mim.

Não consigo reconstituir o que sucedeu.

Foi de repente. Luzes, estilhaços, vidros partidos, sons metálicos, o alcatrão a arranhar, o cheiro a borracha queimada, o mundo a rodopiar, girando em todas as direções. E depois mais luzes, vozes, sirenes, homens atarefados à nossa volta, palavras soltas, sem sentido.

E depois nada.

E depois tu aí, deitado, silencioso, inerte.

– Pedro! Acorda, Pedro! Regressa. Continuo aqui. Não vou a lado nenhum sem ti.

Porque não me falam?

Ai, o vazio!

Ai, a solidão!

Ai, a tua ausência!

– Pedro! O nosso bebé espera-te. Eu espero-te, Pedro.

Quantas noites e dias já passaram? Quantas eternidades?

Um suspiro?!..

Será?

Um ligeiro tremor…

Será?

Tanta gente!

De onde apareceram todos de repente?

– Pedro!

Abres os olhos.

– Estou aqui, Pedro!

Não vejo. Não vejo nada no céu. Na lua. Nada.

– Pedro!

O tempo passa. O médico continua junto de ti.

Fala em voz baixa. Tu também falas, vê-se que fazes perguntas. O teu olhar tem o tamanho do oceano.

Levantas-te.

As enfermeiras e o médico seguram-te, visivelmente preocupados.

Oiço qualquer coisa. Ele diz “-Lamento.”

Correm-te grossas lágrimas pelo rosto.

– Pedro! Pedro! Estou aqui, Pedro.

Porque não me olhas? Porque não me vês?

– Pedro. Voltaste!

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