O Carrossel

O dia de Natal não começara nada bem para ele. Acordou e se deparou com a mulher descabelada, histérica e de mau humor. Preparou o café para ambos, ela reclamou da falta de açúcar e do pão dormido. Reclamou da sujeira e da bagunça da casa. Reclamou da falta de zelo e organização. Reclamou da preguiça e procrastinação dele. Ele, no entanto, preferiu não entrar em atritos, e em silêncio, cuidou rapidamente em ocupar-se nos afazeres domésticos.

Sentia, entretanto, que naquele dia precisava respirar um ar menos carregado. Seu espírito alegre e jovial carecia de leveza. Precisava urgentemente fugir daquela atmosfera densa e respirar… Respirar a liberdade, respirar a simplicidade da vida. Deu-lhe um beijo na face e, sem nada dizer, saiu andando sem rumo após terminar todas as obrigações da casa. Andou… Mãos nos bolsos, passos lentos, olhar distante, mas ao mesmo tempo atento e sorriso fácil e vazio. Andou devagar até anoitecer. Percebeu, de repente, que a cidade estava linda! Toda enfeitada, luzes, muitas luzes piscando, inebriada pelo consumismo disfarçado de espírito de paz, amor e harmonia. Pessoas fervilhavam por todos os cantos, sorriam e acenavam para outras, desejando boas festas; outras andavam apressadas tentando ainda comprar o famigerado presente natalino, ou, carrancudas, mostravam indiferença à toda aquela parafernália. Ele via a todos, mas não enxergava a nenhum de verdade.

Sem perceber direito, suas andanças o conduziram a um alegre e chamativo parque de diversões. Sentou-se em um banco qualquer e observou todas aquelas pessoas felizes compartilhando momentos em família. Sim, porque nos parques todos são muito felizes! Lembrou-se, então, que nada comera após o café da manhã e, pela primeira vez durante aquele dia, deu importância ao seu estômago, que agora roncava, ou melhor, gritava de tanta fome. Dirigiu-se à banquinha de comida e comprou um cachorro-quente, uma pipoca, chocolates, algodão-doce, batata-frita e duas latas de refrigerante.  Voltou a sentar-se no banco com a sua fartura de guloseimas e, enquanto saciava a fome, passou a observar novamente àquelas pessoas felizes, desfrutando dos pequenos prazeres que a vida podia lhes proporcionar. Viu a menina que sorria junto com o pai no trenzinho, a mãe, do lado de fora, batia as fotos para registrar o momento. Viu o menino que escorregava alvoroçado no tobogã, descia e subia inúmeras vezes. Viu o casal apaixonado na roda gigante, dedos entrelaçados, a moça com a cabeça no ombro rapaz. Viu jovens enlouquecidos gritando na montanha-russa. E então, repentinamente, sua audição aguçou-se, e ouviu gostosas gargalhadas infantis vindas do carrossel… Toda a sua atenção voltou-se para lá. Ahhh… O carrossel! Sempre tivera verdadeiro fascínio por essa engenhoca da alegria. Para ele carrossel era sinônimo de encantamento: Um brinquedo construído com material encantado e pó de pirlimpimpim, que fazia as pessoas esquecerem suas dores, mágoas e frustrações e só pensar naquele momento de deleite e alegria.  Será que estaria velho demais para o carrossel? Talvez. Entretanto, tinha que dar um jeito de sentir mais uma vez aquela antiga emoção de outrora, vento no rosto, sorriso aberto. Teve que gastar muito latim (e alguns trocados, mesmo não se orgulhando nada, nada disso, porque se considerava um homem honesto) para o deixarem subir no cavalinho. Mas quando o brinquedo começou a rodar sua cabeça girou junto. O mundo inteiro rodou e ele já não sentia mais o próprio corpo. Desmaiara. E na sua desconexão momentânea do mundo fora conduzido aos recônditos de sua mente tresloucada. Inconsciente, fez uma viagem ao centro de seu ser e viu-se no primeiro encontro com ela. Lembrou-se da primeira troca de olhares, das primeiras conversas, das primeiras gargalhadas, da primeira volta de mãos dadas na roda gigante, do primeiro beijo, das primeiras juras de amor, dos primeiros presentes trocados, do primeiro natal… Quando abriu os olhos, estava deitado no chão, ao lado do brinquedo, rodeado de pessoas estranhas e curiosas que o sacudiam e o abanavam para que ele voltasse a si. Perguntavam o que tinha acontecido, se ele estava bem e se sentia alguma dor… Mas ele não sabia, não tinha a mínima ideia do que acontecera.

Meio aturdido, olhou para aquelas pessoas, agradeceu os primeiros socorros e atenção prestadas, levantou-se, pôs as mãos nos bolsos e saiu caminhando, sorrindo e assobiando como se nada tivesse acontecido. Passou na lojinha do parque, comprou uma miniatura do carrossel, algodão-doce, maçã do amor, bombons, colheu umas flores na rua mesmo e voltou para casa. Procurou suas chaves, não as encontrou. Devem ter caído no momento em que desmaiara. Não tinha problemas, amanhã faria outras cópias. Agora seu coração transbordava de emoção, só queria vê-la. Tocou a campainha e esperou-a. Quando a viu enxergou nela todo o esplendor da mulher que fazia da sua vida um verdadeiro encanto desde os primeiros momentos em que a conhecera. Tinha consciência agora de que também precisava ser um encanto para ela.  Entregou-lhe os presentes junto com um beijo e um abraço caloroso. Sabia que seu mundo sempre giraria em torno dela.

Pedagoga, especialista em educação infantil. Semeadora de sonhos e de esperanças. Não sou narradora, mas posso maravilhar os pequenos através de uma boa história. Não sou contista, nem poeta, nem romancista. Mas amo as palavras com devoção. Sou professora de criança por profissão e apreciadora das palavras por paixão.

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Aline Teodosio

Pedagoga, especialista em educação infantil. Semeadora de sonhos e de esperanças. Não sou narradora, mas posso maravilhar os pequenos através de uma boa história. Não sou contista, nem poeta, nem romancista. Mas amo as palavras com devoção. Sou professora de criança por profissão e apreciadora das palavras por paixão.